A Garganta da Serpente
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POR UM RÔMULUS AUGUSTUS NORTE-AMERICANO
(Eduardo Selga)

Para o bem de muitos e felicidade geral das nações empobrecidas e em desenvolvimento, o presidente dos Estados Unidos (ou diríamos da América?) bem poderia ser uma reedição de Rômulus Augustus, o último imperador romano, que governou por brevíssimo espaço de tempo até cair do trono em 476 d.C. por obra e graça de Odoacro, líder dos Hérulos, um povo pelos romanos considerado "bárbaro", que era como eles qualificavam qualquer população que tivesse uma "cultura inferior", não falasse o latim e habitasse o além-fronteiras, ou seja, todo aglomerado humano que não correspondesse à forma romana de viver. Algo como uma avant-première do idolatrado american way of life, infelizmente muito aplaudido e invejado por determinada fatia da sociedade brasileira, que se prefere colonizada, morre de amores pela dependência econômica, raciocina na língua de Ronald Mc Donald's.

O Estado autoritário e absolutista que Rômulus Augustus tentou representar, no mínimo em um aspecto fez o papel de espelho para o Estado norte-americano: a opção política pelo domínio, pelo colonialismo. Diferenças de métodos há, isso é inequívoco e nem poderia ser diferente: os séculos que separam ambos são muitos. Em essência, contudo, o Império do Norte, sempre travestido de república democrática, tem-se mostrado ao longo de sua história borrada por vietnãs e nicaráguas, tão colonialista quanto Roma no tempo das Guerras Púnicas. Colonização sutil, está claro: muito mais inteligente e eficaz porque econômica (via FMI); porque política (caminho de lanterna acessa à luz do dia à cata de diferenças ideológicas estruturais entre o tupiniquim PFL e os Partidos Republicano e Democrata); porque social (quem não possui é apenas sujeito, porém a cidadania plena é negada); porque cultural (alguém, por obséquio, tenha a gentileza de esclarecer a este humilde escriba o motivo que faz com que os apresentadores do Jornal Nacional pronunciem qualquer vocábulo inglês com um sotaque de fazer inveja a muito norte-americano, ao passo que quando se trata de palavra de outra origem a preocupação nem de longe é a mesma).

Terá sido ironia do destino ambos os impérios terem adotado por símbolo a águia, típica ave de rapina? Garras poderosas e afiadíssimas, o imperialismo americano sempre se mostrou e se mostra disposto ao exercício da rapinagem, em suas várias modalidades. O Império sente necessidade, quando em quando, para não deixar a ferrugem tome conta das garras, de invadir um território ali, desestabilizar um governo acolá... Roma, tal qual, parecia insaciável, o que fez ciganas as fronteiras nacionais: sempre mudando de lugar, ampliando-se. Até que, pesado e com estruturas apodrecidas, desabou paulatinamente. As causas mortis foram as mesmas de todos os Estados absolutistas da história humana, e aí importa pouco o período que esteja em epígrafe: desmesurada gula político-territorial, opressão tamanha e pouco inteligente aos povos subjugados que os levaram a vencer o opressor, que parecia constituído de titânio.

A estrutura do Estado norte-americano possui, além do gigantismo, a mesma aparência sólida citada acima que sempre busca reafirmar-se em atos covardes contra países sem potencial político-econômico-militar (por que não chuta o estômago de uma França, uma China, por exemplo?). Conseqüência, nos dias atuais qualquer gesto de algum país que na prática venha a significar liberdade efetiva em relação ao Titio San é quase utopia, embora guerrilha e terrorismo tentem ocupar esta lacuna, cumprir um possível papel histórico. Considero mais viável os Estados Unidos terem o destino da Roma antiga justamente por sua megalomania e excesso de interferência nos destinos de povos alheios do que em função de uma irrealizável guerra declarada por alguma liderança política "bárbara" contra os norte-americanos. Resumindo, difícil alguém consiga amordaçar o País, mas ele próprio inutilizar-se politicamente sem nem mesmo perceber é mais fácil. Em função, inclusive, dos vários calcanhares de Aquiles que possui. A contradição, por exemplo, é um deles.

Vejamos: o Império adora auto-intitular-se a "Terra da Liberdade e da Democracia". Estranho. No mínimo. Ou talvez não, se passarmos a admitir um fenômeno que poderíamos chamar de "liberdade excludente". Sim, pois ela até existe mas... é restrita e possui regras em nada democráticas. Algo que, traduzido numa sentença, ficaria assim: liberdade é para quem pode, não para quem quer. Reduzida a bem de consumo como qualquer Barbie ou Coca-Cola, liberdade é um produto caro nos Estados Unidos, é preciso ter dólares suficientes. Ou será que os pobres de lá (sim, eles também os têm, e como!...) são de fato cidadãos? E, nunca é demais lembrar, o tal "paraíso terrestre" localizado entre o Canadá e o México foi construído assim: de um lado, a guerra por causa da insatisfação com o domínio inglês; do outro, os homicídios indiscriminados contra Sioux, Moicanos, Apaches, etc., seguidos de assalto a seus territórios. Mas... por uma pátria livre, nada?! Tudo!!!

Há também uma questão que considero essencial quando se analisa o poderio norte-americano: se o poder romano produziu alguns malucos célebres (Nero, Calígula, Caracala), a sociedade norte-americana tem construído aos montes a famosa excrescência do serial killer (a propósito: por que não "assassino em série", simplesmente?). Não é de se estranhar, pois ela me parece pouco sadia e pode, mais cedo ou mais tarde, conduzir um celerado à Casabranca, se já não o fez. George W. Bush, convenhamos, não pode ser visto como exemplo de equilíbrio emocional. Sabemos tratar-se de um filho solenemente rejeitado pelo papai ex-presidente, teimoso em mostrar ao velho Bush e a si mesmo que é um menino capaz. Capaz de grandes asneiras políticas. Por exemplo, a recente idéia fixa que o acometeu: Saddam, uma espécie de primeiro-ministro de Satã, guardaria, ocultíssimamente, armas químicas que seriam um inquestionável perigo à humanidade. Com a qual ele é preocupadíssimo, diga-se de passagem. Tanto que se comporta como o próprio Capitão América, muito à vontade na Sala de Justiça (lembram-se do desenho animado?), aquele que tem a sublime missão de salvar o "resto do mundo" da opressão dos ditadores e conceder, aos povos considerados por ele oprimidos, a liberdade. Vejam que emblemática a frase do personagem Steve Rogers, a identidade secreta do super-herói: "Enquanto eu existir, dedicarei a minha vida à destruição de todos os inimigos da liberdade!" O xis do teorema é o conceito norte-americano de "liberdade".

O Império do Norte pode dormir tranqüilo o sono dos justos porque não há e nem haverá por muitos anos nenhum Odoacro à vista. De modo que pode continuar considerando a ONU um penduricalho, sua Disneylândia particular com Patetas e ratos simpáticos (ou diríamos Bushlândia?), um brinquedinho do qual às vezes se cansa. Também está, subliminarmente, autorizado a selecionar (no cara-ou-coroa, no "papai Bush mandou escolher este daqui...") qual será seu próximo Iraque; quem substituirá Bin Laden no papel do fora-da-lei inimigo de todos os que estão no saloon. O xerife deste western medíocre já tem intérprete à altura, um ator ruim que dói. Mas não se surpreendam se for reeleito: a platéia também é chinfrim, porquanto reduz todo o raciocínio à equação custo-benefício: estando bom para os espectadores, palmas. Que espetáculo...

  344 visitas desde 9/08/2005 Publicado em: 02/08/2004  

   
 

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