OXALÁ E JESUS SÃO SINÔNIMOS
(Eduardo Selga)
Não que eu ignore as respostas. Entretanto, gostaria de neste espaço
levantar um questionamento: por quais motivos as religiões afro-brasileiras,
notadamente Umbanda e Candomblé, via de regra, não são consideradas
como tais pelos teólogos e outros estudiosos da área, mas sim esquecidas
nas páginas do folclore, nas tais "manifestações populares"?
Insustentável supor não haja em semelhante fenômeno um
muito bem preparado tempero racista estabelecido pelo status quo, porque, ao
pé-da-letra, tanto uma quanto outra se adequam naquilo que é definido
pelos gramáticos como sendo religião: "culto prestado à
divindade; reverência às coisas sagradas" (Dicionário
Universal Da Língua Portuguesa/Internet). O teorema, porém, estará
sempre longe do resultado se nos limitarmos a avaliar sinônimos: não
se restringe a conceitos do nosso vernáculo. Muito ao contrário,
esbarra em fronteiras as mais diversas e pisa firme em terrenos minados.
Poder-se-ia direcionar a argumentação por várias trilhas
(a estrada é ampla), mas comecemos com o fato de as religiões
adjetivadas pelo senso comum como cristãs (Evangélica e Católica),
por supostamente seguirem o narrado na Bíblia e, conseqüência,
divulgarem o que acreditam ser a palavra de Jesus, rotularem as afro-brasileiras
de "seitas", que significa "doutrinas que se afastam da crença
geral" (mesmo dicionário anteriormente citado). Não raro,
agregam qualificações pouco elogiosas como "satânicas"
e outras cujo real significado etimológico ignoram por completo, como
"macumbeiras" (vocábulo, aliás, que tem se mostrado
ferramenta ótima na tarefa de ceifar a imagem dos cultos em questão).
Um dos motivos para comportamento tão covarde por parte dessas duas correntes
do pensamento religioso, é que tanto a Umbanda quanto o Candomblé
não se guiam pela Bíblia, o que não se pode traduzir por
descrença em Cristo e muito menos em Deus. Afirmo ser covardia porque
elas, vítimas, carecem do mesmo espaço de divulgação
para se defenderem. Não possuem canais de TV, rádio, jornal, etc.
E açoitar amordaçado é fácil, é sabido. Só
não é inteligente.
Curioso é que enquanto católicos e protestantes trocam farpas
em questões cosméticas (a hóstia é, alegoricamente,
o corpo de Jesus? Devemos cultuar o Senhor de terno e gravata, ou batina? Apenas
Céu e Inferno existem ou o Purgatório é um espaço
limítrofe entre os dois?), as afro-brasileiras, talvez por se filiarem
ao ramo do espiritismo, garimpam em leito mais profundo. O que escandaliza a
cartilha judaico-cristã e subverte a ordem estabelecida no Brasil desde
1500, quando os portugueses asfixiaram Tupã e quase ocorreu o mesmo com
os rituais africanos quando desarraigaram os negros de seu continente para escravizá-los
à Coroa. O problema é que a estratégia portuguesa ignorou
que nos porões dos navios negreiros Oxalá embarcaria clandestino
à Terra Brasilis. E até hoje continua tão vivo quanto discriminado.
O que não é aceito em nenhuma hipótese, ainda que essa
intolerância ocorra sob máscaras tantas, é o fato de o Oxalá
negro ser, conceitualmente, o mesmíssimo Jesus branco (branco não:
embranquecido. Afinal, se ele nasceu no Oriente Médio...). Porque, pela
aritmética praticada pela estrutura social reinante, negro é igual
a feio, inferior, derrotado, etc. Donde se conclui necessário azular
os olhos de Cristo e afilar seu nariz, para haver maior consistência na
imagem de salvador da humanidade. Inclusive acredito esteja aí a razão
pela qual é imensa a quantidade de adeptos das igrejas evangélicas
na classes baixas, compostas em sua maioria por descendentes de escravos. Ou
seja: renegar a religião de seus ancestrais e abraçar uma teologia
européia que dentre outras coisas confere legitimidade à dominação
social e ao sistema de castas, significa uma tentativa de aceitação
pela sociedade e, se Deus quiser, maiores chances de ascensão no interior
de sua engrenagem. ainda que a consciência não se dê conta
disso.
E o Kardecismo, como se comporta diante do quadro? Quando se trata das religiões
afro-brasileiras, há uma argumentação, sempre ratificada,
no sentido de traçar o mais nitidamente quanto possível uma linha
divisória que não provoque identificação da filosofia
kardecista com Umbanda-Candomblé. Ocorre que as diferenças são
bem menores do que pretende o fosso artificial cavado entre elas. Mais uma vez,
entra em cena a questão social, porquanto o Kardecismo, assim como o
Catolicismo e o Protestantismo, é uma religião, por assim dizer,
letrada. Doutorada. Pós-graduada. Ou seja, também possui seu manual
de instruções, que não é a Bíblia e sim a
obra do francês Allan Kardec. E quanto às afro-brasileiras, onde
está seu abecê? Não têm?! Imperdoável sacrilégio!
Se um dos itens que confere legitimidade às instituições
é a palavra escrita, e a negralha ignara mal sabe escrever o nome para
assinar o recibo de salário (salário?!) no fim do mês!...
Situação bem diversa dos médicos, advogados, professores,
artistas, etc. que compõem boa parte do universo de freqüentadores
assíduos das reuniões kardecistas.
É como se houvesse um acordo tácito: fazer da credibilidade dos
cultos afro-brasileiros uma madalena e, portanto, apedrejá-la para que
não haja questionamentos indesejáveis à milenar estrutura
teológica que vigora saudável, com as necessárias maquiagens
representadas por religiões aparentemente antagônicas e irreconciliáveis
entre si. Mas como realizar tal manobra? Fácil: inclui-se a Umbanda e
o Candomblé no rol do folclore, como o carnaval, a folia de reis, o congo.
E por que não? O que essa crioulada mulambenta faz nos terreiros não
é outra coisa senão dançar, cantar e beber cachaça?
Será mesmo simplista assim? A raiz do problema estará de fato
tão rasa no subsolo das relações sociais? Duvido muito.
Aos cultos afro-brasileiros há que se resgatar o respeito e as prerrogativas
de religião.
Existe uma lenda manufaturada nessas terras que nos ensina ser um dos aspectos
ímpares do País a tolerância religiosa inerente ao povo
brasileiro. Ora, santo Deus, não passa de mais uma falácia político-sociológica
que conseguiu até os dias de hoje sobreviver forte e vitaminada. Quase
como o mito da democracia racial. As bandeiras religiosas mais radicais e as
mais hipócritas fingem suportar a presença vizinha da Umbanda
e do Candomblé. Fazem de conta que não ouvem os atabaques ecoando
longe a partir dos terreiros. Mas na verdade encaram-nas de alto a baixo, nariz
empinado, com uma mal disfarçada certeza de infinita superioridade, um
asco visível. Na prática, pelo espancamento que sofrem diariamente,
de várias formas, há em curso e desde a colonização
uma sutilíssima jihad. Se o Islamismo a mim permite o empréstimo
da palavra.
Tudo exposto, nem por isso estou tentando afirmar que Umbanda e Candomblé
estejam isentos de críticas. Não estão. Mas aí o
assunto pertence a outros parágrafos.
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Publicado em: 12/07/2004 |
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