ELES GOSTAM DE MENINOS E MENINAS
(Eduardo Selga)
"Pensem nas crianças
Murchas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas."
Rosa de Hiroshima (Letra: Vinícius de Moraes; Música: Gerson Conrad)
A meia dúzia de três ou quatro proprietários do Planeta,
este imenso latifúndio, chegou a uma conclusão em inglês:
destruir na raiz a flor da infância proletária no mundo é
fácil, e mais ainda em terras brasileiras.
A prostituição infantil é mais um dos tantos problemas
que as políticas governamentais não querem resolver de fato (e
até parece haver uma certa estratégia para abafar alguns aspectos
mais asquerosos e pouco conhecidos da questão), porque isso implicaria,
dentre outras iniciativas, na redução drástica da miséria
endêmica que faz do País, no mundo, um cidadão maltrapilho
e indigente quando se trata de justiça social. Seria à toa, sob
esse aspecto, o pouco respeito com que tem sido tratado? E a pobreza absoluta
não está nos semáforos esmolando moedinhas por acaso, por
vontade de um Deus onisciente e sádico. É, muito antes, resultado
de uma arquitetura social engendrada no transcorrer dos séculos da história
humana, sempre produzindo lucros fabulosos a uma nata vampiresca que, hoje,
não sobreviveria sem uísques, sem viagens intercontinentais, sem
pérolas nos colares, e, fundamentalmente sem a moeda que paga todo o
fausto: a exploração social, nem sempre visível aos olhos
mais nus. Implicaria, também, numa absurda interferência estatal
na livre iniciativa, protestariam em discursos tão veementes quanto subliminares
os advogados (alguns com mandatos eletivos) dessa indústria lucrativa
ao extremo dentro do comércio mundial e brasileiro, a prostituição
infantil, perdendo apenas para a bélica e para o narcotráfico.
No balanço final do livro-caixa, apurados os muitos créditos e
os poucos débitos, a criança pobre é, cá entre nós
e em qualquer país do mundo corroído e corrompido pela miséria,
produto exibido em vitrine. Objeto que possui valor monetário, apenas.
Ou matéria-prima para satisfação de fomes doentias e bolsos
capitalistas ávidos por lucro fácil. E um país, como o
nosso, que não leva sua infância a sério, precisa temer
(tremer seria mais exato?) pelo seu futuro.
É comum ouvirmos, vez por outra, meio a conversas informais, frases que
afirmam ser a meretriz uma vagabunda, refugo social que não faz justiça
a nenhum miligrama de respeito porque a vida prostituída seria opção
de responsabilidade exclusivamente dela. Ah, é preguiça de trabalhar,
com certeza! Para quem disposta não falta um empreguinho! Semelhante
comentário denota preconceito e desconhecimento. Ou, ainda, má-fé
explícita. Inobstante haver algumas que de fato escolheram esse trabalho
por gosto, ou seja, o ofício não as escolheu. Curioso é
notar que nesses casos até a maneira de identificá-las se altera.
Afinal, moças bem vestidas e cultas da classe média não
podem ser chamadas de putas (queiram desculpar a cusparada no rosto que é
essa palavra, mas ela precisa ser dita aqui): são "acompanhantes"
ou "garotas de programa". No primeiro caso, um belo eufemismo, reconheçamos.
Podemos, honestamente analisando, manter o mesmo conceito terra-a-terra que
apontei no início desse parágrafo para meninas e meninos de sete,
dez, doze anos de idade? Será que tais crianças escolheram emporcalhar
seus corpos e almas por vontade própria? Não prefeririam ainda
brincar um pouco mais com bonecas e carrinhos?
Nem é preciso o trabalho de muitos neurônios para encontrar a resposta.
O que ocorre é que a miséria hospedada nas periferias de nossas
regiões metropolitanas conduz essas crianças pelas mãos,
muito sorridente porque repleta de más intenções, argumentação
hábil, para serem devoradas por homens que, por certo, possuem algum
transtorno sexual. Mastigadas, muitas vezes em troca de um prato de comida,
um agasalho, alguma esmola à guisa "pagamento" (cinco, dez
merréis...), entorpecentes, um real e noventa e nove centavos... Mais:
engana-se quem, guiado pelo senso comum ou pela mídia, ainda considera
que a clientela maior é formada por estrangeiros em visita ao País:
os algozes mais freqüentes são caminhoneiros, empresários
e os mocinhos bem educados por papai e mamãe, contas bancárias
e cartão de crédito.
A extrema desigualdade social que no Brasil ri de nossas caras e em nossas caras
é a grande fornecedora de "material" para os potenciais consumidores,
além de responsável pela violência doméstica na periferia.
Imaginemos a primeira cena: numa favela brasileira, o chefe da família,
semi-analfabeto e desempregado e sem a mínima perspectiva animadora na
vida, assiste todo o dia às privações dos muitos filhos
e esposa. Num canto do único cômodo, sua filha de sete anos brinca
de casinha, e brincando fantasia a residência na qual gostaria de viver.
Ali, meio aos brinquedos improvisados, ele enxerga a solução para
que possa haver alguma renda familiar. Melhor que o assalto, avalia o pai e
marido algemado pela estrutura social. Quase chora: o amor que habita o coração
verdadeiramente paterno também dói pelo irrevogável imperativo
de arrebentar a vida duma filha, mas... homem precisa ser forte e fazer aquilo
que carece ser feito. Ao menos assim lhe foi ensinado. A mãe se permite
lágrimas fundas, mas guarda silêncio: a fome é jibóia
e se alastra enquanto as horas passeiam sem pressa pelo tempo, as dívidas
acumulam-se, como quitar a conta da mercearia? É pôr o vestidinho
de ir à missa na garotinha e oferecê-la ao mercado consumidor pelo
melhor preço possível. Guardemos a imagem e passemos à
segunda: o homem da casa agora é criatura infeliz, conduzido por uma
vida vegetal. Nem mesmo a satisfação de um orgasmo de qualidade
consegue: sua esposa é um amontado de carnes disformes, sem apetite,
igualmente frustrada, sem encantos, burocrática na cama. Porque extravagância
é coisa de mulher-da-vida, ora quanto abuso! Mas a filha está
crescendo, as primeiras curvas e saliências do corpo já chamam
a atenção do desejo sexual insatisfeito. O resto da história?
Basta presumir. Violência doméstica, incesto. Em casos assim é
muito comum a criança fugir de casa, da violência do pai. Do irmão.
Do padrasto. Então as esquinas adotam-na.
As conseqüências todos sabemos, ainda que superficialmente. Nem sempre,
contudo, é dada a importância que o assunto merece. Mas um reflexo
em particular chama-me a atenção e serviu de estímulo para
que escrevesse essas linhas: a pessoa quando exposta a tamanha violência
e hediondez, além de ter seqüestrado seu direito à infância
(etapa fundamental para a estrutura do caráter), passa por um processo
que, estivéssemos falando de química, seria denominado sublimação:
ela envelhece sem passar pela maturidade; enruga-se emocionalmente muitas vezes
sem conhecer a explosão de alegria que é entregar o corpo e a
alma a outra pessoa, por quem se nutre um amor incondicional e amonetário.
A meia dúzia de três ou quatro proprietários do Planeta,
este imenso latifúndio, chegou a uma nova conclusão, também
em inglês: as moedas de ouro estão fazendo plim-plim no cofrinho
já abarrotado. Crianças são, realmente, criaturas maravilhosas.
Very beautiful!
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Publicado em: 28/06/2004 |
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