SOLIDÃO URBANA
(Eduardo Selga)
Ninguém efetivamente bem intencionado pode, hoje, negar a importância
de que se reveste a absurda realidade da infância brasileira, nos estratos
mais baixos da pirâmide social: abandonadas, abandonadas e... abandonadas
(pelos pais; pelas autoridades "competentes"; pelos elegantes do tecido
social, vestidos com bela roupagem, que malabarizam um esforço imenso
e monstruoso para não enxergar a verdade insofismável). Crianças
cujas infâncias sofrem seqüestro patrocinado pela porção
bandoleira da sociedade. O resultado é morte prematura, contrariando
a crença popular e falsa, de que ninguém morre antes da hora.
Elas morrem sim, sabemos. Seja o homicídio pelos mais diversos calibres
e lâminas, seja o assassinato de todo um sólido arcabouço
moral que essas crianças talvez um dia tivessem.
Entretanto, caro leitor, por hora apenas guarde com carinho o conteúdo
das primeiras linhas (exercício sem mistério: o que foi dito é
lugar-comum, estás cansado de ler e ouvir a respeito) e lance um olhar
atento ao redor; uma observação que fuja daquela alguma languidez
com que costumamos perceber o alheio, o outro. Sem o distanciamento, em geral
muito bem disfarçado pelas palavras e gestos, que dispensamos às
segundas pessoas dos nossos discursos cotidianos. Vês? Fazemo-nos presentes,
nós os ausentes da vida, em todos os lugares, às multidões.
Refiro-me a mais uma categoria de pessoas largadas a si mesmas, como as crianças
acima, e da qual não podemos nos esquecer, até pelo fato de muitos
e muitos de nós estarmos inclusos nela: os maiores abandonados. Não
vamos aqui também, por favor, brincar de faz-de-conta e fingir a inexistência
em nossa sociedade, embora fenômeno mundial, dessa avalanche de indivíduos
tão adultos quanto carentes. Sim, caro leitor, posso estar generalizando
(e seguramente o estou, porquanto a idéia torna-se fogueira com mais
lenha, faça a bondade de cometer os devidos descontos) mas nunca enxergando
duendes.
Gostaria crer não duvidas, mas se ainda existir alguma nuvem no horizonte
carregada de ceticismo, façamos nós um trato: nesta linha suspende
por breve momento a leitura para visitares um shopping dos grandes. Percorre
o caminho em imaginação, é mais rápido e mais seguro.
Já estás lá?! Ótimo... Agora um banco, cadeira,
poltrona ou coisa de mesma valia. Assim como quem relaxa, senta descompromissado.
Constatarás o que segue logo após o próximo dois pontos,
e se tal não ocorrer nem precisas retomar a leitura: arcadas dentárias
perfeitas e inacreditavelmente brancas sorrindo, tendo ou não motivo
concreto, como um ato-reflexo, um sestro do qual não se livra; bocas
e gestuais a conversar amabilidades sem perigo e politicamente corretas com
os ditos "amigos", quando o mais adequado seria, no máximo,
"colegas" (pessoas que se permitem mutuamente por haver na convivência
alguma forma de interesse, que consegue se sobrepor ao prazer da amizade incondicional);
um pouco de sorte e ouvidos serão o bastante para escutares, dos que
assistem às Fátimas Bernardes e aos Willians Bonners, sólidas
opiniões próprias copiadas da mídia a respeito de toda
a meia dúzia de assuntos da pauta nacional.
Agora confessa, que seja entre nós, ninguém nos ouvirá:
é isso ou não o que estás a perceber? Então concordas
comigo quando afirmo, agora com todas as letras, existir uma espécie
de sozinhez urbana, crônica, sub-reptícia, em incubação?
Um infortúnio que parece querer pular para fora de nós, como vômitos.
Ah, concordas! Tu me alegras sobremaneira!... Brindemo-nos. E perceba mais:
esse conjunto de comportamentos externados transmite aos mais incautos a sensação
de bem-estar e não alienação perante a vida, impiedosa
vida, que segue seu curso desdenhando solenemente de nossas humanas e inúteis
aflições. Todavia... é só mais uma máscara,
das tantas que julgamos necessário usar, para fingir encaramos corajosos
o ato de viver. Belas pessoas essas, cheias de nós. Nós pelas
costas. Repletas duma solidão apenas suportável porque mentimos
tão bem que até acreditamos em nossos embustes íntimos,
em tentativas velhacas de nos enganarmos a nós mesmos. Solidão
que é duma arenosidade espessa, escaldante, sem fim. No mais profundo
da alma.
Retomaste o texto, pois não? Caminhemos juntos, daqui ao fim de todas
as palavras, eu te convido.
Ater-me às causas seria por demais extenso e enfadonho, por se constituírem
de matéria tanta e de variada origem. Tarefa para um cientista social,
não para um simples observador da vida que possui o hábito de
colecionar palavras em forma de textos pretensamente literários. Além
do mais, creio que se não abandonarmos ao esquecimento os valores que
a sociedade mundial cultua nos muitos altares do chamado mundo globalizado (aqui,
permita-me um adendo: esta expressão teve seu uso massificado à
náusea de certo período para cá, tanto que começamos
a não nos dar conta de alguns significados corrosivos que nela estão
inseridos. Mas aí é outro o território). Eu dizia... Ah,
sim! Se nos atermos ao perfil do mundo cujos eternos césares ordenaram
rotular "moderno" é o bastante para percebermos as fontes de
tanta aridez em nós. As causas de tanta pessoa gentilmente seca, gélida,
oca. Em viva decomposição.
Salvemo-nos, e também às crianças brasileiras excluídas,
uma vez que se não morrerem conforme descrito no parágrafo inicial
(eis porquê solicitei o guardasse com cuidado), serão também
contaminadas por tal modalidade de solidão, uma espécie de solitária
de absurdos metros que nos parasita à morte completa do espírito
antes saudável. Falta-nos conversar com o alheio penetrando em seus olhos;
dialogar com os nossos outros inúmeros eus diante do espelho do banheiro
com as expressões faciais desengatilhadas; o êxtase absolutamente
inadjetivável ao sentir grossos pingos de chuva batizando nossos rostos;
tens filhos pequenos? Deixa-os lambuzar-se de guache, lama e chocolate e avalie
a hipótese de a alegria real deles contagiar-te. Porque eles conhecem
os caminhos verdadeiros da felicidade. Se ela existir.
Caso contrário morreremos para sempre nós e aquelas crianças
amaldiçoadas pela sociedade desde o nascimento. Sim, as mesmas que assaltam,
morrem, traficam, matam, morrem, esmolam, matarão, morrem, sujam com
suas digitais porcas o vidro elétrico do teu importado, morrem. Então
a Terra será um imenso e irreversível sanatório. Não,
pior: será uma casa abandonada, vazia e repleta de recordações.
Ansiando, anciã, por novos habitantes.
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Publicado em: 21/03/2004 |
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