PROFESSOR ABIATAR II
(EM DEFESA DO DIA NACIONAL DOS AMANTES)
(Eduardo Selga)
Tranqüilidade, uma das várias quimeras que os homens perseguimos,
é, queiramos ou não, circunstância efêmera em nossas
almas atropeladas pelo estresse do mundo atual. Mundo embalado, rotulado e a
nós vendido como "moderno". Seguramente impossível atingir
de maneira plena, a tranqüilidade. Os muitos reveses que até hoje
sofri em minha vida fizeram com que eu suspeitasse, a partir dos primeiros clarões
de consciência crítica, que tal sentença estaria correta,
ainda que pessimista. Contudo, os seres humanos somos esperança, a despeito
dos maiores infortúnios que nos venham a ocorrer, é sabido. Estratégia
de sobrevivência: caso contrário, morreríamos da morte talvez
mais doída que pode existir: tristeza. Por isso sempre concedemos várias
e várias e infinitas outras chances à vida, o que, analisando
nas entrelinhas, significa darmos nova oportunidade a nós mesmos.
Mas a mim ainda faltava a convicção inabalável nesta, exageremos,
filosofia. aquele acontecimento derradeiro, que rubrica e confere autenticidade
às teses. Faltava, eu disse. Agora não mais. Explico: quem conhece
os caminhos que interligam os Estados do Rio de Janeiro a São Paulo,
seguramente, ao menos uma vez, já descansou uns minutinhos naquela parada
de ônibus interestaduais que existe em Queluz, plena Via Dutra, para apreciar
um bom café forte na lanchonete.
Pois lá estava eu, inofensivo, mero cidadão, sossegado numa esquina
de paredes saboreando um capuccino ainda quente, a vadiar pelas páginas
duma dessas revistas jornalísticas semanais, os olhos vagos e entediados.
De natural tímido, em locais propícios à aglomeração
sempre me aquieto num canto, na tentativa de ficar o mais incógnito possível.
Eis o motivo pelo qual escolhi a mesa mais afastada para poder o corpo descansar
do asfalto já vencido e tomar fôlego para o resto de chão
que se me apresentava gigantesco à minha frente naquela tarde tempestuosa.
Cena bem trivial, portanto. Nem mesmo a uma crônica sem brilhos faz jus,
convenhamos. Nada a temer, exceto o próprio fato de estar irremediavelmente
vivo nesses tempos de banalização das inúmeras misérias
humanas.
O café já descia pra menos da metade e eu cogitava, muito sisudo,
na hipótese de repetir a xícara, não fosse um grito de
saudação à minha pessoa vindo a partir da entrada da lanchonete,
escandaloso a ponto de completamente impossível a alguém naquele
recinto não ter escutado. Meu nome com todas as sílabas aos berros,
e ainda antecedido de um "Doutor"... O fim de tarde, que começara
banal, prometia. Para quem não vê graça em ser espetáculo
público, o constrangimento é sem tamanho, posso garantir. E aquela
voz era-me absolutamente ímpar e significava, sem dó nem piedade,
o extermínio de todo e qualquer sossego: Professor Abiatar e sua interminável
munição de assuntos e vocábulos proferidos quase sem nenhuma
pausa. Para não conceder alívio ao infeliz de boa educação
que se prestar ao papel de ouvinte, estou convencido. Tentei, com os olhos apressados,
encontrar uma trajetória de fuga. Tarde demais, porém: ele e toda
sua inconveniência sentaram-se num dos bancos da mesa onde eu até
então em paz. E sacolejava os braços, satisfeito por encontrar-me;
e cuspia asqueroso enquanto vomitava seu contentamento; e exigiu aos gritos,
mas sem arrogância, um pão francês com mortadela e refrigerante
de uva. Pelos quais ele certamente não desembolsaria vintém. O
incômodo de sua presença espalhafatosa fez de mim criatura sem
palavras, abestalhada, com medo de percorrer os olhos em torno e enfrentar as
interrogações e chacotas sem dúvida expressas nas fisionomias
dos outros clientes. Fazer o quê, santo Deus? Optei por fingir a invisibilidade
daquela figura de manto azul e cajado, tornando à "leitura"
interrompida. Mas não era possível: a vergonha ardia-me o rosto.
E, quando eu assim, a desconcentração é absoluta. Justamente
comigo, que faço de tudo para não ser alvo das atenções?!
Com a boca abarrotada de pedaços colossais do sanduíche, fez um
discurso tão longo quanto absurdo, pouco se importando se meus ouvidos,
algemadas vítimas, estavam dispostos a ouvi-lo. Abaixo transcrevo o conteúdo
do falavreado dele, com palavras minhas. Talvez tenha me esquecido de um ou
outro detalhe, mas, pensando bem, melhor assim.
- Doutor, o que vou dizer tem ares de urgência: alguém precisa
criar o DNA: Dia Nacional dos Amantes! Estou usando a palavra "amante"
nos dois gêneros, fique claro desde já. Afinal, bigamia nunca foi
privilégio masculino. Assombre não, a data comemorativa é
justíssima. O quê? Estou cuspindo mortadela? Detalhes... Basta limpar
o rosto. Mas isso agora não é essencial e eu sou assim mesmo.
O senhor me conhece dessas estradas há muito, vai me dizer que ainda
não está acostumado? Mas é isto: os amantes (e elas inclusas)
precisam ser reconhecidos como uma instituição nacional da mais
alta relevância enquanto agente mantenedor de muitos e muitos matrimônios.
Verdadeira benção para esse sacramento cristão. Assustado?
Eu, heim... o Doutor esbugalha os dois olhos (assim, ó!) por qualquer
coisinha, já se deu conta? Será normal, este comportamento? Sei
não... um bom médico talvez seja recomendável... Depois
conversaremos a respeito com mais calma. Porque agora a idéia que defendo
merece ao menos uma análise imparcial. Se não, faça a gentileza
de acompanhar meu raciocínio cuja lógica é cristalina:
o divórcio sempre é traumático, afinal envolve crianças,
dinheiro e bens materiais. Portanto, um mau negócio; o amor sexual é
um ser vivo que escolhe duas almas próximas para construir sua casinha
e, como ser vivo, nasce, cresce, às vezes frutifica e mais cedo ou mais
tarde morre. Pode crer, e nem precisa evocar São Tomé: o fogo
sexual falece da mesma causa pela qual minguam as vovós: de fraqueza.
E conviver diariamente com outra pessoa tendo entre ambos um defunto (o amor)
é penoso, é dolorido, malcheira a formol. Mas há solução.
Antes (repito: antes) que o amor enverede pela floresta negra do estado de coma
(e ele mostra sintomas inconfundíveis quando está muito doente),
os parceiros devem procurar com toda a urgência do mundo o melhor antídoto
possível: amante. Ora, nessa fase o encantamento pela pessoa escolhida
e confirmada no altar ou no cartório ainda não deu o último
suspiro, está apenas doente. O resultado é quase sempre o mesmo:
com personagens estranhos ao palco acolchoado onde só duas pessoas havia,
aqueles fatores misteriosos e sem muita explicação lógica
que originaram o primeiro calor entre os dois se recuperam, mais fortes e mais
saudáveis, para o bem de todos, felicidade geral da Família e
da Igreja. Por quê? Ora, Doutor, não seja simplório, pode
desbotar tanta cultura adquirida nas universidades... É simples! O amor
ficará indignado com a invasão do domicílio que ele mesmo
construiu na alma dos dois escolhidos; o êxtase que qualquer amante oferece
é apenas carnal, necessita tutano. Em três tempos a esposa ou o
marido entende como estupidez ou precipitação ter deixado adoecer
um sentimento tão fundamental, mas que tem lá suas rabugices,
suas manias, suas frescuras. Que não admite ser tratado de qualquer jeito.
Sabia o Doutor que muitos cuidam o amor sexual como fosse brinquedo há
muito desejado por criança mimada? Depois que usa bastante, brinca, pisa,
chuta, e esquece num canto do quarto. Assim, nada mais natural, ele chora, ele
adoece.
- Professor, tenha dó... Não delire...
- Delírio nenhum, Doutor. Agora... o perigo existe? Existe. E ele ocorre
quando a busca pelo outro se dá tarde demais. Aí o amor amante
adquire qualidades maravilhosamente superiores ao do parceiro original. É
um novo amor que entra em cena, desabriga o velho, que morre de frio ao relento
enquanto outra casinha é construída. Como se um jogador de futebol
extremamente habilidoso estivesse amargando o banco de reservas e na primeira
oportunidade mostra toda a sua categoria. Ainda assim devemos criar o Dia Nacional
dos Amantes, o Doutor não concorda comigo?
O mundo inteiro a me observar, meu rosto certamente vermelho pela situação
embaraçosa, levantei sem respondê-lo e segui rumo à saída,
cabeça baixa, sem olhar para os lados. Quase liberto da sessão
de tortura, ouço aquela voz gritando outra vez:
- Se o Doutor não concorda, tudo bem. Mas pelo menos pague mais uns dois
pães com mortadela e refrigerante! Que indelicadeza!... Somos amigos
há tanto tempo...
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Publicado em: 10/05/2004 |
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