PROFESSOR ABIATAR
(Eduardo Selga)
Viver não é guerra na qual caibam amadores: somente os profissionalizados
nas batalhas diuturnas conseguem a vitória da sobrevivência. E
a um número ainda menor de nós todos cabe a condecoração
de subsistir acompanhado de alguma paz interior. Regra geral, somos um exército
de indivíduos sem táticas adequadas, sem armas eficientes, pouco
ou mal amados. O resultado sempre é um grande número de feridos
entre os solitários parceiros de luta. E são feridas abertas que
se mostram na forma de alcoolismo de chefes de famílias sem horizontes;
pais abandonando filhos à sorte por absoluta falta de condições
de mantê-los; adolescentes, pouco mais que meninas, alugando o corpo em
troca de comida ou droga para anestesiar a dor de ter que continuar existindo.
Um escudo muito usado por nós, guerreiros o mais das vezes inaptos, é
a tentativa de melhorar a fisionomia do ambiente em torno. Como uma necessária
maquiagem para que o rosto medonho da bruxa não nos assuste nem desanime.
Por isso queremos sejam agradáveis todos os cenários em que travamos
diariamente as encarniçadas lutas pela sobrevivência: casa, trabalho,
logradouros públicos.
A própria história do País nos induz à conclusão
de que o Brasil sempre foi um campo de batalha áspero aos seus habitantes,
gladiadores que somos por natureza e necessidade. Muito natural, portanto, queiramos
nosso Coliseu diário esteja tão agradável quanto possível.
Afinal, é onde precisamos matar um leão por dia. Vem daí,
quero crer, uma característica muito singular em algumas populações
brasileiras, qual seja, o hábito de nomear bairros com palavras idílicas,
poéticas mesmo. Em alguns casos ocorre uma verdadeira ironia, se consideradas
todas as necessárias condições a uma adequada habitabilidade.
Temos ao longo do território nacional algumas belas pérolas, que
a mim parecem como que lapidadas por longo tempo, pacientemente, até
atingirem tal beleza. Ou seja, bairros cujos nomes foram pensados com o mesmo
cuidado que a mãe tem ao escolher como se chamará seu filho. Senão,
vejamos: Liberdade (São Paulo/SP); Saúde (São Paulo/SP);
Consolação (Vitória/ES); Cantinho do Céu (Serra/ES);
Maravilhoso (Belo Horizonte/MG); Paraíso (Belo Horizonte/MG) e Jardim
Felicidade (Belo Horizonte/MG), dentre outros tantos que me escampam à
lembrança.
Aqui preciso, a bem da verdade, fazer um esclarecimento: as palavras acima e
também as doravante são minhas, porém não pertencem
a mim esse filosofismo inócuo nem a teoria que relaciona o batismo dos
bairros como um primeiro passo na tentativa de melhorar a qualidade de vida:
tentei traduzir as idéias do Professor Abiatar, andarilho mais ou menos
conhecido nos quilômetros sem fim da Via Dutra e que, sempre que consegue,
descansa os pés com a gentileza da carona.
O invariável e limpíssimo roupão em cetim azul; uma larga
faixa de pano multicor na cintura, à guisa de cinto; um cajado feito
dum galho de goiabeira; sandálias manufaturadas à base de encordoamento;
chapéu marrom de abas imensas; cabelos grisalhos em eterno desalinho
e a verborragia sem freios. Um tanto apocalíptico, um tanto filósofo,
de professor nunca teve nada (inclusive porque analfabeto) mas todos os arrecadadores
dos pedágios e também o grande número de amigos a prazo
determinado (aquelas amizades feitas em torno das conversas encadeadas durante
as viagens sempre curtas das caronas: sólidas apenas enquanto o motorista
não dá adeus ao passageiro ocasional), eles, em homenagem ao seu
hábito de apregoar, a quem queira ou não ouvir, teorias indefensáveis,
essa população muito irregular (nem todos os motoristas que concedem
espaço a ele em seus veículos utilizam a rodovia com freqüência,
enquanto os funcionários dos pedágios, por dever de ofício,
sempre estão presentes), essa população muito irregular
resolveu por uma espécie de unanimidade sem votação presenteá-lo
com o título acadêmico. Puro e maldoso escárnio com o velho
de idéias alucinadas, evidentemente. Pequena maldade da qual participei,
e com prazer.
Pior para mim. Dia desses, indo para São José dos Campos, na pouco
louvável intenção de me divertir às custas de sua
quase nenhuma lucidez, disse-lhe, muito sério, que aquilo tudo que ele
pensava sobre o batismo dos bairros nos municípios brasileiros mereceria
uma tese sociológica numa USP, numa UFRJ ou em outras tanta universidades
de renome no Brasil. Quiçá um livro! Foi tanto o quanto bastou
para que ele se decidisse por não mais me conceder tranqüilidade
enquanto eu não escrevesse imediatamente algumas linhas sobre o assunto.
Todo sorrisos, amigável, irritante. Agora mesmo, estou a rascunhar esta
crônica num acostamento da Dutra, as lanternas de alerta acessas na esperança
de que alguém me socorra. E o Professor Abiatar ao meu lado, a insistência
em pessoa. Sugerindo, aporrinhando, põe isso, tira aquilo. Diz para eu
usar uma metáfora comparando um belo nome de bairro ao ato de enfeitar
com flores o parapeito duma casa. Mas vou fazer isso não, já está
abusando! Ah, Professor Abiatar, como eu gostaria que Sossego (Serra/ES) fosse
bem mais do que um nome de bairro...
Contudo, só para dar alguma alegria ao velho, terminei os rabiscos com
um trocadilho extremamente infeliz e muito para lá de infame, utilizando
os nomes de bairros que ele havia citado. Adorou. Mas vejam vocês que
horror e, se possível, queiram me desculpar: consolação
mesmo seria tivéssemos saúde e liberdade para conhecermos
o maravilhoso Paraíso sem a necessidade da morte. Seria algo como
plantar um jardim de felicidade num cantinho do céu.
Deus me perdoe...
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Publicado em: 29/03/2004 |
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