A Garganta da Serpente
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Domingo Azul
(Edson Tavares)

Gosto muito do azul. Sem qualquer noção de cromologia, intuo o azul como uma cor que me acalma, cuja suavidade consegue elevar-me ao mais alto de mim mesmo e me colocar perto da minha essência.
Lendo o "Livro Geral", do poeta pernambucano Carlos Pena Filho, percebo-o também apaixonado pelo azul, notadamente no "Desmantelo azul":

"Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas.


Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas


(...)

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul."


Ah, que todo esse azul do jovem poeta recifense me invada, e, ao som da bonita melodia aos versos emprestada pelo não menos talentoso recifense Antonio Madureira, versos cantados por outro cromático, o Marrom, eu possa me sentir "vertiginosamente azul".
Não pelo azul em si, mas como ponto inicial de uma viagem colorida que me faça explodir em cores multicores, num deslumbramento intenso como o desassossego pessoano de Bernardo Soares:

"Um azul esbranquiçado de verde noturno punha em recorte castanho negro, vagamente aureolado de cinzento amarelecido, a irregularidade fria dos edifícios que estavam de encontro ao horizonte de estio."

Um azul dominical, derramando-se por sobre esta manhã que se espraia além de minha janela e que me inspirou a escrever essas coisas assim sem muito nexo, mas com muita paz, muita calma e muita vontade de experimentar toda a felicidade sugerida por este azul.
Leio um pouco mais do "Livro do Desassossego", que parece traduzir-me nesta manhã:

"Escrevo num domingo, manhã alta, num dia amplo de luz suave, em que, por sobre os telhados da cidade interrompida, o azul do céu sempre inédito fecha no esquecimento a existência misteriosa de astros...
É domingo em mim também..."


Fecho o livro do português que me desassossega. Guardo o livro do recifense que me acalma. E me faço domingo azul no azul deste céu azul de domingo.

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Domingo Azul

 

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