A Garganta da Serpente
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Rômulo e a láurea
(Edmar Penalva)

O casamento de Rômulo e Flôr estava marcado para a tarde de 15 Setembro daquele ano - Nós já estávamos no dia 12! Os preparativos estavam sendo feitos rapidamente. Afinal, Rômulo fez questão de contratar uma loja dessas que alugam roupas para casórios e organizam até a festa. Dinheiro não era problema para o Dr. Zé como ele era chamado no trabalho, que ficava num prédio sede de um banco internacional - Ele arrumou até um negocinho pra mim lá, mas não era à altura do seu cargo...não, não era. Formado numa conceituada universidade local, José Rômulo era um dicionário ambulante, livros e mais livros durante anos lhe renderam a láurea da turma, um alto cargo no emprego, uma bela casa na zona sul - Eu mesmo daria tudo para ser igual a ele.

Zé sem dúvida estava radiante nestes dias que antecipavam seu sonho de garoto, casar-se com Flôr. Modo carinhoso que encontrou para simbolizar à beleza que avistava no ser de olhos verdes, cabelos longos e ondulados, uma pele branca sedosa, olhar selvagem que encantava a todos da redondeza e sem falar nos lábios finos de traços curtos, que deixava quem a beijasse com um sentimento de ápice e abismo no descolar dos beiços. Flôr já tinha tido alguns namorados e o Zé tinha ciúmes de quase todos, menos de um deles... Antes do romance deles, a moça gostava de ir a festas e se entreter com os rapagões que ficavam boquiabertos quando passava por perto, Flôr sentia que ao menor olhar dado a qualquer um deles, logo um se atiraria aos seus ouvidos com declarações das mais piegas possíveis. Gostava mesmo era de provocar, dar um tapa e acariciar de leve para deixar tudo ainda mais difícil e conseqüentemente melhor. - Nunca foi de ter grandes ambições, na verdade queria mesmo alguém que a fizesse se sentir amada, mas não encontrava essa virtude nos seus antigos namorados.

Apesar de não serem casados eles já moravam juntos há dois meses, o consentimento dos pais de Flôr foi fácil, os dois já eram namorados a uns cinco anos...acho que seis, não lembro. Ela era nova mas ele tão responsável, tão digno de confiança, tão bom...Principalmente com os velhos, sempre doentes e sem dinheiro - Aliás, o senhor Rubens sempre tinha algum trocado pra tomar aquela cachacinha sagrada todo dia na bodega e com o casamento o pai se encontrara numa posição confortável, a pinga estaria mais do que certa.

Na noite do dia 12, Rômulo chegava do trabalho cansado com o sentimento de dever cumprido e sedento por um seio no qual se aconchegar. Girou a maçaneta da porta, deixou o terno na poltrona e chamou por Flôr que não respondeu, foi até a cozinha onde estava posto seu jantar, a torneira da pia estava aberta...Chamou mais uma vez enquanto se dirigia ao quarto, a porta estava entreaberta então se aproximou devagar até ouvir um choro que soava baixo, depois disso saltou para dentro do cômodo e viu sua amada recostada ao pé da cama, com o porta retrato de cabeceira nas mãos. Chegou perto e pediu uma explicação pela aquela cena, mas Flôr ficou imersa num profundo silêncio até virar o rosto em direção a ele com um sorriso amargo, disse que era a emoção do casamento. Zé deu um beijo na sua testa e um olhar como quem dissesse: - Deus, não preciso de mais nada!

Na manhã do dia posterior Zé saía de casa para a rotina porém numa felicidade imprópria para descrever. Mais uma vez tinha me atrasado para pegar carona com ele, e como de praxe nunca me esperava, era tão pontual e sempre limpava o meu nome nesses meus deslizes. - Sempre limpava meu nome, com o seu nome , éramos unha e carne, desde pequenos criados na mesma rua, amigos...não tínhamos segredo um com o outro, pelo menos até aquela tarde de sexta-feira.

Rômulo recebeu um telefonema dos organizadores contratados para o casamento, os últimos retoques deveriam ser dados no sábado embora, antes, ele e Flôr deveriam ir até a igreja para ver como tudo ira ficar, se aos seus gostos ou não. Já tinha organizado boa parte da papelada na qual trabalhava e não achou nada demais encerar seu expediente no banco mais cedo - Ele praticamente fazia seu horário de trabalho. Com isso pegou o carro e foi voando para casa pegar Flôr, ligou umas duas vezes no meio do caminho mas ninguém atendia. Chegou por volta das cinco horas, deixou o carro em frente da garagem, jogava as chaves para cima e as pegava antes de cair no chão num gesto de despreocupação. Entrou, foi até a cozinha e espiou mas não viu sinal de Flôr, decidiu ir ao banheiro para lavar o rosto quando ouviu um barulho que vinha do seu quarto. Foi até a porta que aparentemente estava fechada, ouviu atônito, sussurros inexplicáveis, abriu lentamente a porta e com olhos oblíquos viu o que não devia.

- Nem tinha percebido a sua presença quando entrou no quarto, eram tantos gemidos e palavras de uma devassidão que fingia desconhecer, estava completamente distraído. Sem contar que ela não se controlava, dotada de um insaciável desejo, o que tornava tudo mais excitante. Fazia aquilo não porque gostava dela, na verdade só para me divertir e agredir, não sentia nada. No fundo do quarto ouvi um barulho como se de uma gaveta fechando, virei-me e me deparei com o olhar insano de um homem traído, ele devia estar de pé observando já há algum tempo, olhei para Flôr que esbugalhava os olhos e tremia os lábios. Rômulo numa das mãos estava empossado de uma arma, sentou no chão, chorou e soluçou, olhando para Flôr ele não acreditava, levantou e mirou com a maior precisão que podia no peito de sua amada, deu dois tiros nela. Matou os seus planos, os seus filhos, o corpo que sob o mesmo teto estava e nunca o teve. Ajoelhei perante ele implorando que não me matasse, e mirando na minha cabeça olhava para o corpo de Flôr ensangüentado em cima da cama. Olhou para mim e pude ler o que se passava na sua cabeça, algo similar à - Sempre se atrasando hein? Num gesto brusco, puxou o gatilho num tiro sem erros, sem volta...Matou-se com uma bala na própria cabeça.

O que aconteceu comigo? Bom, eu simplesmente me libertei! Agredi quem eu queria, matei quem me matava, não agüentava viver sabendo que existia alguém como José Rômulo, sempre se dando bem e nunca cometendo erros, se não pela exceção de um, em não sentir ciúmes de mim, ex-namorado de Flôr, agora sua defunta amada, dele, só dele.

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Rômulo e a láurea

 

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