| David Bezerra |
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Histórias de um professor de bairro:
Professor Raul
(David Bezerra)
O jogador Raí manifestou interesse em estudar. O artista Caetano Veloso,
durante certo tempo de sua vida, estudou detidamente. E, não surpreendentemente,
chegou-me a notícia do envolvimento do compositor e cantor Raul Seixas
com a Filosofia. Surpreendente mesmo foi a informação de que o "Maluco
beleza" teria sido professor de Filosofia!
Não consegui confirmação para a nova, todavia, a imaginação
voa quando se põe a figurar criatura tão heterodoxa falando as
verdades mais caras ao pensamento ocidental. Como seria maravilhoso Platão,
Kant e até mesmo Descartes na boca de Raul Seixas! Uma aula sobre Nietzsche
e a escola viria abaixo! Sim, escola, pois a fonte disse de magistério
não para o terceiro grau, para o ensino médio, contudo.
Anarquia? Nada disso. Tenho certeza de que se o criativo Raul por momentos
em sua existência exerceu a atividade docente, ela foi pautada pela liberdade,
pelo caos aparente e o desejo verdadeiro das coisas profundas. O método
é que destoaria, não dos discípulos, com os quais estabeleceria
empatia imediata, fazendo uso da música para a aproximação.
Mas das enferrujadas metodologias acadêmicas.
A última aula do professor Raul, tal como me foi contada, primou sim
pelo laisse faire geral.
- Quequequê, quequequequequê! Senhoras e senhores, hoje é
dia de Dionisos! Sintam-se na Grécia! Mundo de deuses, homens e mitos!
E que fez crescer a Filosofia! A sua mãe, na verdade, é turca!
Pois Tales nasceu na Jônia, em Mileto, o que é hoje a Turquia!
Então, deveríamos pensar em turco! Só é possível
filosofar em turco! Sintam-se à vontade, libertem o deus que há
em vós! Evoé! Crianças, evoé! E o deus do pânico,
mas também da alegria, Pan para os romanos, tomaria conta da sala e os
alunos liberariam a velha fantasia, aquela que todo ex-estudante de colégio
já nutriu nos recônditos de sua'lma, tomar de assalto a sala, os
corredores, a escola! A menina descontraída nem piscou na hora de subir
na mesa do professor e começar a dançar. Os mais atrevidos passaram
a saudá-la como rainha. Uma guerra de papel estourou no fundão,
o menino tímido saiu correndo para o infinito. As meninas corretas procuravam
a norma nos olhos do professor, o qual, no entanto, colocava-se à parte,
observando. O barulho cresceu em proporção e logo invadiu as outras
salas. Alguém tinha um violão e a cantoria teve início.
Alunos de outras turmas e outros professores vieram conferir do que se tratava
aquela revolução. Quando a diretora, acompanhada de um pupilo
dedo-duro chegou para restaurar a ordem correta de uma sala de aula- correta
na maior parte do tempo -, o professor Raul Filosofava: - Eu sou o amargo da
língua, a mãe, o pai e o avô, o filho que ainda não
veio...
A conclusão ideal desta aula de mestre seria a escola se rendendo ao
espírito da alegria, com todos cantarolando e dançando Beethoven
ao final. Mas ninguém resiste impunemente a tanta Filosofia.
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