| David Bezerra |
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Histórias de um professor de bairro:
Cartas na mesa
(David Bezerra)
Atrevidamente o aluno aproveitou o descuido do professor em um momento de
raro relaxamento e puxou do bolso de seu avental o contracheque de pagamento.
Na seqüência comentou: - Que miséria! Isso é o que
ganho de bônus!
Não se tratou de coisa grave e a situação ficou por aí
mesmo. O professor teve a confirmação de que nada, absolutamente
nada está fora do alcance da atenção dos alunos. Se ele
levar um pacote para sala de aula, terá que se explicar. Se vestir uma
roupa diferente, terá que se explicar. Se cortar o cabelo, terá
que se explicar, se não cortar, da mesma forma! Um professor é
uma figura pública com todas as desvantagens da fama e, na sociedade
brasileira, com nenhuma das vantagens que ela traz.
Uma semana após, última aula de sexta-feira, curso noturno,
entre heróis realmente interessados no aprendizado e criaturas que fazem
da escola palco de seu lazer, apareceu o "turista" Ronaldo. - Você
por aqui? Já está de férias e veio nos fazer uma visita?
Brinquei. - Nada, teacher! Vim resolver uns negócios...hoje é
dia! É ou não é, galera?! Falou ele voltando-se para seus
pares. E a galera, os outros alunos, respondeu: - É! Não entendi,
calando-me para perceber o que se sucederia. - É dia ou não é??
- É!! - Vai um tapa aí professor?? Recuei e por instantes pensei:
mais um na lista dos professores agredidos por aluno. - Relax, mestre!
Eu sou da paz! O sr. Não curte? Finalmente atinei com o que se passava.
As suspeitas levantadas pelos outros professores e a direção era
verdadeira, Ronaldo, traficante. Daí sua apresentação impecável,
as roupas de grife, seus tênis caros, os colares reluzentes no pescoço,
o carro rebaixado e o vidro escuro...- Pelo menos trabalha pra gente! Eu tô
ligado que o sr. ganha uma merreca! E a galera desatou a rir. Ronaldo se inflamou
e colocou as duas mãos sobre a mesa, encarando-me; outra vez me afastei.
- O sr. Vai ganhar muito mais e não vai precisar aturar essa galera!
É tudo animal! Aqui é de respeito! Zoô, a gente,
queima! Se liga só! E do casaco de imitação de couro branco
Ronaldo sacou um maço de notas, exibindo triunfalmente pra galerinha.
Esta veio abaixo: - Empresta aí! Faz uma presença! É nóis!
Continuei sem ação. Ronaldo então começou a colocar
as cartas sobre a mesa do professor. Notas de 1, 5 e 10 reais. Dinheiro picado.
Aparentemente dinheiro de consumidor. Ou, usuário. - Olha só quanta
grana! E isso é só de agora! Chegou uma parada lá de Diadema
fresquinha e o povo caiu babando. Os meninos e meninas finalmente faziam silêncio
em sala. Prestavam atenção a todos os detalhes. A cada gesto,
e, principalmente, meus. O que o professor faria? Ele teria culhões?
Qual seria a dele? Qual era minha, qual era a minha...a realidade estúpida
da sociedade brasileira jogada à minha face...eles respeitavam o traficante
e não respeitavam o professor...que só a custa da sua dignidade
conseguia impor silêncio para trabalhar...
Tratava-se de uma farsa do pequeno passador? Muitas vezes em minha vida topei
com as faces do crime, eu, crescido na mesma periferia na qual agora lecionava
e de onde tirava meu sustento. E em todas essas ocasiões ele sempre se
ofereceu enquanto brincadeira, como quando, aos 14 anos, o Juarez me apresentou
pela primeira vez uma arma de fogo. - Vamos lá! Você não
precisa fazer nada! É só ficar segurando! Levantou a camisa e
na cintura, um 38. Recusei de medo a oferta de assaltar o mercadinho, e a pecha
de bunda mole colou em minhas costas. Agora, o sinal sonoro me salvou. Ronaldo
recolheu seu dinheiro de igreja e comentou: - Pensa bem, professor! O sr. sabe
onde me achar! Escola não dá futuro! O poder tá aqui!!
Chega junto! Não cheguei junto, não me aproximei do poder. Abracei
a correção de vida ou aquilo que acho estar certo. Mas o teatro
me rendeu reflexões sobre as entranhas do universo brasileiro. O traficante
não estava totalmente enganado...
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