| David Bezerra |
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Histórias de um professor de bairro:
Colesteatoma
(David Bezerra)
Em setembro de 2003, a confirmação: - O Sr. é portador
de um tumor no ouvido médio.
É coisa grave, mas remediável. Necessita de cirurgia urgente.
Chama-se "Colesteatoma" e tem caráter benigno. Se não
for detido agora, avançará em direção ao ouvido
interno e ao cérebro, as complicações são da seguinte
ordem: meningite, perda da audição, tumor cerebral.
Em fevereiro de 2004, a internação e a cirurgia.
Realizada com sucesso, no dia seguinte estava em casa. Careca, com o lado esquerdo
da cabeça intumescido, mas sobrevivo.
O professor fez então aquelas reflexões que os homens fazem geralmente
à cama: na cama de hospital ou na cama de motel de beira de estrada,
perguntando-se sobre a natureza da vida ou do amor.
Passados dois meses do evento, uma conversa com um homeopata me confirmou: a
somatização já é amplamente reconhecida pela medicina;
não se trata de "Frescura" como se dizia antigamente. Retorno
às reflexões de beira de cama.
O fato de eu ter desenvolvido um tumor no ouvido estava sim ligado à
minha profissão. Eu vinha ouvindo por muito tempo o que não queria...alunos
gritando, palavras maliciosas sussurradas pelas costas, berros cortando o silêncio,
risadas baixinhas mas inequivocamente endereçadas, tons como tentativas
de humilhação, troças, gargalhadas como punhais entrando
na alma...
16 anos de magistério com adolescentes, os quais vivem o tempo do confronto.
Claro que também ouvia o que não queria de outras fontes, dos
diretores das escolas, dos funcionários das secretarias e de vozes do
convívio pessoal.
Dir-se-á, se fosse assim, todo mundo teria o mesmo problema! Mas as coisas
não se processam de tal maneira, cada um reage de modo diverso. Para
a tensão no ambiente de trabalho, por exemplo, muitos desenvolvem úlcera.
Devia ter percebido o problema anteriormente. Não o no ouvido, mas o
de relacionamento.
Antes de entrar na atividade, um professor deve conhecer o universo paralelo.
Na Universidade se ensina a teoria, que a prática insiste em desmentir.
É um sonho de todo mestre simplesmente entrar em sala de aula, transmitir
tudo aquilo que sabe e sair se sentido realizado, tendo a impressão de
ter feito a humanidade progredir. O problema é o fator humano. O universo
paralelo do magistério é exatamente este: um professor é
um civilizador. E civilizar implica em ir contra os instintos humanos primários.
Estes são egoístas. O homem não é bom ou ruim por
natureza, ele é egoísta. Então a resistência, as
tentativas de sabotagem, as agressões múltiplas e de todas as
formas. É para tal fuzilamento que o professor deve se preparar. E se
a Faculdade não o avisa disto, a sua preparação deve ser
espiritual, de caráter interno e solitário. Ela é fundamental
para a longevidade ou sobrevivência na profissão. Já encontrei
professoras de 30 anos que aparentavam 50, já vi muitos chorarem tanto
em sala de aula como na dos professores. Ouvi casos de pedagogos desistindo
por não conseguirem o controle dos alunos. No meio da aula, apanhando
o material e zarpando. O molho para lidar com o fator humano a experiência
mostra, as condições anímicas o mestre deve preparar, como
se prepara o soldado para a guerra.
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