| David Bezerra |
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Histórias de um professor de bairro:
Cabeção
(David Bezerra)
Os chamados "lideres natos" conhecem tal verdade. Os individualistas
vão aprender a duras penas.
Eu achava que a simples nominação de um posto garantiria o curso
de algo aparentemente natural. Levaria anos para compreender que no universo
humano nada é natural, mas sempre fruto do combate de intenções,
ideologias. Uma luta de representações, diria Schopenhauer.
Espantado, constatava dia-a-dia a desobediência organizada dos alunos.
Se tentava ditar um texto, as imitações de minha voz, os pedidos
de repetição, assobios, risos impossibilitando o progresso. Se
passava a matéria na lousa, o ataque à qualidade da minha letra:
- Vamos dar um caderno de caligrafia pro professor! Colaborem com a vaquinha!
- Não dá pra entender nada! Eu não vou copiar mais essa
m...!
Quando cheguei em sala havia um estranho silêncio, o mesmo que antecede,
nas selvas, o ataque das bestas às vítimas distraídas.
Dei um boa noite mas não fui correspondido. Então entrei direto
no assunto. - Vou passar essa matéria no quadro negro e a seguir fazemos
um exercício, certo? Não, não estava certo. De costas para
os pupilos, o silêncio ainda pesava. Eu segui em frente, primeira parte
do quadro, a segunda e o recrudescimento do ar pesado. Voltei-me para certificar-me
da situação. O choque, os alunos estavam de braços cruzados
me fitando! O que significava? Quase 50 moleques com facas no olhar apontando
para você? Filme de ficção cientifica no qual crianças
malévolas tomam o poder? - O que foi? Perguntei quase balbuciando. Não
tive resposta. - Por que estão parados? O que se passa? Perdi o controle:
- Se não anotarem a matéria já, é zero pra todo
mundo! Alguns alunos mais inseguros ameaçaram apanhar o caderno, todavia
os mandantes não permitiram. - Não vamos copiar! Gritou Cabeção.
"Cabeção", também conhecido como Gildo e nos
cartórios, Hermenegildo, moleque baixo, atarracado e com uma cabeça
enorme ostentando ralos cabelos castanhos. - Ah, é? Então lá
vai! N. 1, Ana, zero! N. 2, Analice, Zero...espanto por toda sala, comentários,
palavrões. - Vamos pra diretoria! Gritou Cabeção. Eles
se entreolharam e rapidamente chegaram a um acordo. A debandada começou,
a porta foi aberta com violência e, arrastando cadeiras e carteiras, os
alunos desceram para falar com o diretor. Cara-a-cara com a sala vazia o professor
novato temeu por sua sorte. O que adviria dali? Sentei-me à mesa e esperei
pela troca de aula. 5 minutos antes, à granel, os alunos retornavam,
raivosos, chutando a porta, comentando em baixa voz. 13, 14 anos de idade. Tocou
o sinal e o silêncio de úlcera foi quebrado; ao apanhar meu material
para sair, quem se põe no meu caminho? Olhos nos olhos, a vontade de
matar, de pular sobre o pescoço e arrancar a cabeça, no caso,
o cabeção. Aos esbarrões passamos um pelo outro.
A direção pediu apenas que fosse mais flexível no tratamento
com os alunos e menos exigente com a matéria, visto se tratar de curso
noturno. Para a felicidade geral, duas semanas depois fui embora, pois apareceram
aulas mais próximas da minha casa.
Cabeção era um líder nato, que sabia ouvir o seu público
e lhe prometer o que ele queria. O professor aprendeu que mandar é uma
via de duas mãos e que os comandados só obedecem se houver algo
em barganha. Não há inocência no jogo. Se eu tivesse lido
Platão à época teria sido poupado do sofrimento: ninguém
aprende se não houver o mínimo interesse envolvido. E se tivesse
lido Aristóteles, saberia que os homens são animais políticos
por natureza. Não se movem se não há promessa de recompensa.
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