A Garganta da Serpente
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Conspiração
(Daniela Querobinas)


O celular - despertador (a palavra agora é polivalência, eletrônica e também humana.) deveria ter tocado às sete. Maldita bateria! Sempre esqueço de recarregar. Também quem saberia me dizer, onde se esconde o carregador que, nunca acho quando preciso. Acordada pelo acaso. Vinte minutos de atraso, perfeitamente compensáveis com um banho de gato e uma troca rápida de roupa. Droga! Justo hoje não tenho nada separado. Uma calça e uma blusa. Preto e branco. Não tem erro. Cabelo. Maquiagem? Sou linda de cara lavada. Corro para o ponto que, nunca me pareceu tão distante. Corrida e salto alto: combinação esdrúxula para uma pessoa desastrada como eu.

O ônibus e eu: separados por uma tênue linha de carros em movimento. Agora, o primeiro que passar e, bilhete único para que te quero. Um cigarro para relaxar e chamar o coletivo. Sempre aparece um quando acendo algum. Três bitucas no chão. Minhas bitucas no chão! Sinal claro da ineficiência do cigarro. Já não relaxa nem atrai o desejado coletivo.

Uma luz no fim da avenida. Ônibus novo? Não me interessa estado em que se encontra essa joça, quero apenas saber do seu destino. Quem terá sido o brilhante idiota que teve a magnífica idéia de colocar nos letreiros de ônibus essa inútil e, nem sempre, verdadeira informação? Pobre não tem escolha e nem frescura, entra no primeiro pau d' água que lhe aparece.

Solidarizo-me com as sardinhas. Mas sinto que estou com sorte, pois se mal consigo me mexer e quase não passei da porta, ninguém mais quererá entrar. Vamos direto. Trânsito? O que é isso? Não tenho tempo para a diversão de uma avenida parada. Oh não! A campainha! Oh, querida por que nos abandonar agora? Sigamos para o terminal. Tudo bem, se temos que parar que valha a pena. Que tal uma descida coletiva de 10 ou 15 pessoas? Uma desce e entram três? O coletivo e seu imenso coração de mãe!

Sigamos, por favor. Não é possível que tenhamos que parar em todos o pontos! E encontrarmos todos os faróis fechados! "Hei, hei vai descer". Como assim, descer?! Já estamos no ponto e, a senhora estava sentada até agora. Não espera que esperemos que, a senhora passe, por toda essa gente, parados aqui. Motorista acelera, por favor. É, parece que só eu tenho horário.

Descer. Lotação. Rumo ao metrô. Se não é o coletivo mais próximo ou acessível, ainda é o mais rápido. Até tu depressivo? Por que se matar hoje? Hoje não querido, estou atrasada! Não dava para esperar para amanhã ou mais tarde? Sempre há tempo para morrer. No meu caminho não! Puta falta de respeito!

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