| Daniela Querobina |
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Nem queria mesmo
(Daniela Querobinas)
Ai, ai...ainda não sei porque me candidatei à vaga. Sei que muitos
dirão (e com razão!) que salário bom e benefícios
interessantes são motivos mais do que suficientes para pleitear uma vaga
nesse tempo e mundo desempregado em que vivemos. Mas sei não, ando tão
exigente e começo a sentir que isso não me basta.
Mas estou aqui, não estou? Então o jeito é arregaçar
as mangas e brigar (no bom sentido, é claro!) pela vaga que nem sei se
quero. Ai, ai... sei que foi eu quem começou tudo isso, mas a verdade
é que não lembro bem das coisas. Parece que me cadastrei em um
site, compareci para preenchimento de ficha e sei lá como cheguei ao
que parece ser uma dinâmica.
Frio na espinha, mãos trêmulas e pensamentos confusos não
ajudam a oratória. Mas tudo bem, pois a mocinha simpática, de
fala mansa e sorriso fácil, falou que só querem nos conhecer.
Querem apenas respostas rápidas e sinceras a três perguntinhas
fáceis. Ah, que piada! Que conversa fiada! Sei que existem respostas
prontas para esse tipo de situação e que essas não envolvem
sinceridade. Sei dos meus inúmeros defeitos (será que devo falar
dos lapsos de memória? Não.), sei também de algumas qualidades,
mas sinceramente não sei o que dizer. Esqueci das respostas prontas e
do que eles realmente querem ouvir. Talvez deva me fazer de difícil e
deixar escapar a minha falta de interesse, talvez deva insinuar uma certa indisposição
para trabalhar com o que não gosto. Talvez se intriguem com a minha estratégia
e me implorem para ficar. É, talvez a tática seja se valorizar.
Mas valorizar o quê? Não tenho títulos e nem mesmo experiência.
Mas a culpa não é minha, as coisas estão difíceis.
Pergunte pra qualquer um nessas filas imensas, que eu não tenho coragem
de enfrentar, desses postos de empregos. É, as coisas estão difíceis
e talvez por isso a minha estratégia não seja assim tão
boa. Mas pensando bem se o meu jogo não der certo poderei dizer que dispensei
primeiro, é sempre melhor dá o fora do que receber um.
Chamada por ordem alfabética. Finalmente recompensado por anos e anos
de gozação, ao menos uma vez na vida terá valido a pena
carregar esse nome de estremo mau gosto. Ser o último a falar deve ter
suas vantagens, posso ouvir o que todos têm a dizer e moldar minhas respostas
e até mesmo minha personalidade.
Espera aí. Sei que estou confuso, mas parece que não faz muita
diferença ser o segundo, quarto ou trigésimo terceiro. É
impressão minha ou a loirinha fisioterapeuta com cara de patricinha é
igual à enfermeira estilosa que, por sua vez, tem idéias muito
parecidas com as do segurança casado? É parece que o pessoal entendeu
bem a estória da conversa fiada e respostas prontas. Sinceridade?! Quem
precisa dela quando se tem qualidades admiráveis e ínfimos defeitinhos
que, de tão banais chegam a ser insignificantes? Hey, qual o truque?
Como a doce mocinha e o senhor de cara sisuda conseguem ficar ouvindo essa balela
o dia todo? E, principalmente, como conseguem selecionar diante de pessoas tão
parecidas? Sei não, mas talvez eles gostem de estórias da carochinha
e não se entusiasmem tanto com a minha estratégia... pensando
em ser como os outros. Se não der certo? Tudo bem, pois eu nem queria
mesmo.
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