A Garganta da Serpente
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É Permitido Proibir
(Daniela Medeiros)

"As autoridades religiosas da Arábia Saudita proibiram os personagens do desenho animado Pokémon no país. Eles alegam que os brinquedos estão 'possuindo as mentes das crianças', pois vêm com estrelas de Davi, relacionada ao Judaísmo e símbolo de Israel, além de ser o primeiro símbolo da maçonaria." (O Guia dos Curiosos)

Esta é a Arábia Saudita, um país onde o contraste é presente em todo lugar, e que a modernidade e a cultura se misturam em um só cenário, criando uma atmosfera intrigante e uma paisagem única. Uma paisagem em que o século catorze mistura-se ao começo do segundo milênio, como em um tipo de Universo paralelo.

É possível ver uma mulher coberta por véus negros dos pés a cabeça falando em um celular, fazendo compras em um shopping super moderno de roupas ocidentais e vivendo uma vida "normal". É como se tudo isso não se encaixasse em um só momento.

Minha mãe colocou um papel em minhas mãos e falou:

- Você acredita numa coisa dessa?

O papel era uma página arrancada de uma revista feminina, e havia uma foto de uma mulher com alguns riscos de caneta preta em cima de suas pernas, braços e colo:

- Mãe, você não tem nada melhor pra fazer do que ficar pintando revistas? - disse, ainda confusa com a sua atitude.

- Não fui eu que pintei a revista, ela já veio assim! - e todas as peças encaixaram-se no lugar.

Na Arábia Saudita as revistas são "fiscalizadas" cuidadosamente a procura de pernas e decotes à mostra, que são censurados com uma tarja preta. Pelo jeito, as revistas pareciam ser verificadas uma por uma mesmo, pois quando passei a mão na tarja preta, a marca da tinta permaneceu no meu dedo, como a prova da maluquice desse ato. Revistas para adolescentes também não podem ser compradas em qualquer lugar, e podem ser fiscalizadas na tentativa de entrar no país com elas. Capas de CDs de cantoras ocidentais também estão sujeitas a receber tarjas pretas, assim como embalagens de vários produtos, ou até os rostos das mulheres nas embalagens de tinta para cabelo. Logo percebi que apenas as mulheres são censuradas deste jeito, os homens não. "Que mundo desigual...", pensei.

Vários web sites são bloqueados. Dicionários eletrônicos, sites para adolescentes, bibliotecas virtuais... Todas as vezes que precisava fazer alguma pesquisa, só conseguia acessar uma porcentagem dos links selecionados, não importava o tema. Às vezes isto me dava nos nervos, realmente me irritava. É como se houvesse uma muralha em volta da Arábia Saudita, assim como a Muralha da China, só que invisível. Uma muralha que serve de barreira para o mundo lá fora, filtrando cuidadosamente quase tudo que entra no país.

A televisão ainda é um único meio de comunicação não totalmente dominado pela censura. Ninguém pode colocar tarjas pretas toda vez que aparece uma perna de fora, ou um beijo mais sensual em cada canal da TV, daria muito trabalho, e ninguém ia conseguir assistir os programas direito. Então de que adianta mesmo censurar revistas, capas de CDs e embalagens de produtos, se na televisão ainda é possível ver rostos, pernas e até bundas de fora? Não é a toa que há alguns anos atrás só existiam dois canais na televisão da Arábia Saudita.

Teatros, boates, cinemas e cassinos, assim como bebidas alcoólicas, são proibidos nesta terra estranha. Os restaurantes são, portanto, a única opção de lazer noturno. Bom, a noite é também um tempo útil para ir as compras, principalmente no verão, pois é difícil sair de casa no calor infernal de mais de quarenta graus. Também pode-se ver famílias fazendo piqueniques ou homens jogando futebol nos pequenos desertos espalhados pela cidade. "Eu não entendo qual é a graça que eles vêem nisto...", meu pai costumava falar, mas "metade do mundo não compreende os prazeres da outra metade", já ouvi dizer...

Na Arábia Saudita a lei é severa, cabeças são cortadas em praça publica! Já afeição entre homens e mulheres não deve ser demonstrada em locais públicos. A polícia religiosa e a censura estão por todo canto. Com tudo isto eu comecei a entender a razão daquele silêncio que tanto me incomodava e se fazia presente nos shoppings e supermercados de Ryiadh. É como se essa fosse a pacata resposta a todas as restrições que pairam sobre as cabeças das pessoas e que estão presentes na atmosfera inibindo a liberdade de expressão. O que seria de um pássaro se não tivesse azas para voar? Ele ficaria triste, e não assobiaria mais as suas canções, pois a liberdade é ainda uma das grandes coisas que temos na vida. Mas será o silêncio a melhor resposta?

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