| Daniela Medeiros |
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Regras São Regras
(Daniela Medeiros)
- Como em qualquer outra escola, aqui nós temos regras, e regras existem
para serem seguidas. - a "jararaca" disse em tom autoritário.
Aquele foi o meu primeiro dia de aula na minha nova escola, Multinational,
e estas foram as palavras de boas vindas que aquele sargento disfarçado
em roupas de professora dirigiu a mim.
Tive vontade de fazer continência e falar, "Yes, sir!", mas
conformei-me em apenas continuar balançando a cabeça pra cima
e pra baixo em tom de concordância, com um falso sorriso estampado no
rosto.
A escola era basicamente pequena e desagradável aos olhos. As instalações
eram provisórias, no próximo ano a escola seria transferida para
um prédio mais "decente". Fiquei também sabendo que
os estabelecimentos já tinham sido bem piores, e que eu devia ficar de
joelhos, juntar as mãos e agradecer aos céus.
- Aqui nós não permitimos estes brincos longos que você
está usando, bem como qualquer tipo de anel, pulseira ou colar. São
contra as regras. E deixe-me ver as suas unhas... Você também não
tem permissão de usar estes esmaltes coloridos! É também
proibido usar maquiagem mais pesada, já estou te avisando. Tudo isto
é violação do nosso código de vestimentas. Aqui
dentro você tem que obedecer as Regras. Está entendido? - a "jararaca"
novamente abocanhava a sua presa, neste caso eu, sem piedade.
A minha cara era de espanto, e estava em estado de choque. "Isto é
um quartel general ou uma escola?", pensava sem compreender aquelas Regras.
E humildemente perguntei ao "sargento":
- Nós temos permissão para usar relógios, senhora?
- Relógios são permitidos. Não queremos ninguém
atrasado para a aula!
Senti-me na época da ditadura e saí da sala em busca de ar fresco.
"Nada disto faz sentido...", pensei... "Que Regras são
essas? Odeio essas Regras!".
Na hora do recreio duas meninas me "acolheram", estava perdida.
Comecei a perguntá-las porque haviam tantas regras nesta escola.
- São as Regras. Nós não temos permissão. - uma
delas me respondeu.
- E quer dizer que vocês aceitam isto numa boa? Sem protestar nem fazer
abaixo assinado? - perguntei surpresa com sua atitude.
- Não há nada que podemos fazer.
Elas pareciam hipnotizadas ao verem meus brincos e o tamanho das minhas unhas,
que sempre pareceram tão normais para mim. Acho que elas estudavam naquele
"regime ditatório" há muito tempo para estarem tão
acostumadas assim. Uma delas era australiana e a outra chinesa. Eu precisava
conversar com alguém que me apoiasse com garra para me dar algum consolo,
ou pelo menos alguém que tivesse algo em comum comigo, nem que fosse
a língua portuguesa! Então veio a hora da grande pergunta:
- Vocês conhecem algum brasileiro aqui nesta escola? - estava crente
que a resposta seria positiva.
- Que eu saiba não existe nenhum brasileiro por aqui. - disse a australiana.
- Tem certeza? E alguém de Portugal? - desesperei-me
- Não. Ninguém. - ela completou.
A palavra "ninguém" ressoou em minha cabeça, e me deu
uma breve tonteira. Pelo jeito eu estava mesmo sozinha, a única brasileira
perdida no meio de gringos de quase todos os lugares do mundo. Não era
a toa que aquela escola chamava-se Multinational. Estava desconsolada, mas resolvi
não me desesperar tão facilmente, afinal, estava na série
adequada, com pessoas da minha faixa etária e não passaria muito
tempo por lá de qualquer maneira. Eu só tinha que encarar tudo
de cabeça erguida e ser feliz... Aquele tinha sido apenas meu primeiro
dia de aula, e aquela não seria uma semana tão fácil...
Nas salas de aula os alunos realmente estudavam. O que quero dizer é
que ninguém fazia bagunça e todos eram tão compenetrados
e obedientes que chegava a assustar. Eles também eram bastante educados
e chamavam as professoras de "senhora" e pelo sobrenome, tipo "Misses
Martin", como a cultura inglesa ensina. "Será que fizeram uma
lavagem cerebral nos pobres desses alunos pra eles ficarem deste jeito?",
pensava inquieta. Sempre uma das mais comportadas alunas em minhas velhas escolas
no Brasil, agora eu sentia falta daqueles bagunceiros que animavam uma aula
chata, e sentia-me apenas como um deles, uma bagunceira sem coragem de fazer
bagunça...
Acostumada a assistir as aulas em português dando umas pequenas "viagens"
até a Lua ou até Marte de vez em quando, agora eu tinha que acompanhar
cada gesto e cada palavra da professora se eu quisesse entender alguma coisa
e não me perder entre as palavras.
Na aula de Educação Física nós tínhamos
que vestir roupas adequadas para a prática de esportes, assim como nos
filmes americanos. Aliás, aquela não era a primeira vez em uma
só semana que me senti como uma estrela de Hollywood, se bem eu estava
mais para uma atriz coadjuvante de quinta categoria. Talvez eu estava no filme
errado, um filme árabe com dublagem em inglês...
A professora de Educação Física fazia a gente correr mais
do que uma galinha na Etiópia, e todos a obedeciam, sem ao menos implorar
por um pouco de misericórdia. Que saudades senti de minha velha professora
de ginástica, ainda me lembro bem dela. A coitada pedia para a gente
dar uma volta ao redor da quadra e mais parecia que ela estava nos condenando
a sentença de morte. Um dizia, "Por favor, não! Tenha piedade
de nós!", e a classe inteira apoiava e pedia por clemência
com as mãos para o céu. Nós éramos firmes e lutávamos
com garra por nossas metas, mesmo que não as conquistasse.
Já com o "sargento", eu tentava ser a menina mais obediente
e puxa-saco que conseguia, pois ela era a minha professora de matemática,
e se eu entrasse em um combate inimigo com ela, iria acabar saindo com uma perna
só.
Um dia eu esqueci de tirar um anel que eu tenho há anos de meu dedo
e ela o tomou de mim, e disse que meu pai ou a minha mãe teria que vir
pegá-lo de volta, pelo jeito para saberem de meu "mau comportamento",
pois isto era o que as Regras diziam. Eu me controlei pra não rir, pois
estava realmente sendo uma menina muito "mal comportada". Cheguei
a ficar feliz com isso, pois assim, meus pais veriam as loucuras daquela escola.
Mas no final do dia, o "sargento" disse que me daria mais uma chance,
então percebi que ela não era tão má assim e que
até nos mais impiedosos dos sargentos sempre é capaz de existir
um lado de bondade.
Um dia, conversando com uma menina da minha classe, tive uma revelação
importante:
- Antes nós não tínhamos uniformes, e podíamos
usar todos os tipos de bijuteria que desejássemos. Mas um dia os professores
resolveram fazer uma pesquisa com os pais perguntando se eles queriam um uniforme
concreto para a escola, e a maioria votou positivo.
- Esses pais!
- Já ouvi falar que isto aconteceu porque um "fiscalizador"
sempre vinha e ainda vem de tempos em tempos na nossa escola para ver se os
alunos estão vestidos apropriadamente, e eles estavam ameaçando
obrigar as meninas a usar abayas ou alguma outra medida drástica se aquela
"indecência" não fosse resolvida.
- Bom, eu acho que as regras criadas foram uma medida drástica sim.
O que mais ouvi naquela semana foi, "Nós não temos permissão
de sentar... de levantar... de entrar... de sair..." E aquelas Regras já
estavam subindo ao topo de minha cabeça e deixado meus neurônios
como macacos que pulam de galho em galho e não param quietos. Tudo era
movido por aquelas Regras que tanto me revoltavam. Aquela tal de Multinational
parecia mais uma escola militar ou mesmo um campo de concentração,
com o sargento em roupas de professora, os alunos com seus cérebros lavados
e as Regras: o Poder "imaginário" criado por algum ser "superior"
que resolveu infernizar a vida dos alunos, e principalmente a minha vida.
Fazer o que? São as Regras "...e regras existem para serem seguidas."
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