A Garganta da Serpente
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Certo... Porém ao Avesso
(Daniela Medeiros)

Nunca estive tão entusiasmada para ir a um supermercado como naquela manhã. Era fim de semana, quinta-feira, e minhas aulas só começavam no sábado, o começo de uma longa semana. Podia até ser quinta-feira, mas, para mim, de quinta-feira não tinha nada. "Onde já se viu quinta-feira ser sábado! E sábado ser o dia mais odiado da semana, a segunda!", reclama para mim mesma, sabendo que não seria fácil adaptar-me aquele novo sistema.

Coloquei meu vestidinho preto básico, e saímos todos, eu, minha irmã e meus pais, para o tal supermercado.

Na porta do supermercado haviam alguns homens sentados no chão, palitando os dentes com uma espécie de caule seco de planta. Rindo de meus olhos curiosos, meu pai explicou-me:

- Eles chamam este palito de miswak. Há muitos anos atrás, não havia escovas de dente, então, o que eles faziam? Eles usavam este tal de miswak que era extraído de uma planta com propriedades de limpeza para "escovar" os dentes e prevenir cáries. Apesar de que hoje eles têm escovas de dente, os árabes ainda usam este palito como um suplemento de higiene oral.

"Interessante", pensei, "Eles cultivam suas origens usufruindo os beneficio da tecnologia ao mesmo tempo."

Comecei a andar pelos corredores vazios da seção de pães e doces, a melhor de todas, e de vez em quando, deparava-me frente a frente a uma mulher totalmente coberta, dos pés a cabeça, esforçando-se para ver o mundo atrás do seu véu negro. Em compensação, pela primeira vez, vi mais mulheres de rostos descobertos, expatriados como nós, e isso me deixava mais confortável, vendo que existiam pessoas como eu naquele lugar.

O silêncio era profundo naqueles corredores, e todos andavam tranqüilamente, um pé na frente do outro, sem pressa, como que acompanhando as ondas do silêncio, sem querer perturbar a sua serenidade...

Aquele era um grande supermercado e existia uma vasta variedade de produtos, ultrapassando até a de vários supermercados brasileiros. Em todas as embalagens, de um lado havia o nome do produto em inglês e do outro, em árabe. Era estranho, mas engraçado ao mesmo tempo. Apesar de sua grande variedade, procurei, mesmo sem esperanças de achar, por uma garrafa de Guaraná para levar para casa... "Guaraná só daqui a muitos meses..." pensei desconsolada.

Guaraná não havia, mas cerveja sem álcool não faltava. Meus pais já haviam me falado desta tal de cerveja sem álcool, tem gosto de cerveja, nome de cerveja, mas como bebidas alcoólicas são proibidas no país, a cerveja não tem álcool, é tipo falsificada.

Nas sacolas, pude ver o nome do tal supermercado, ele era chamado de Tamimi, alguma palavra em árabe traduzido para o alfabeto ocidental, que eu não tenho a menor idéia o que significa. Quando terminamos nossas compras, era a hora da reza, e pela janela do carro, pude ver vários árabes chegando nas mesquitas. Curiosamente havia apenas homens.

Mais tarde, resolvemos sair para conhecer um shopping muito bem recomendado, um tal de Faisalia. Logo na porta, mais uma surpresa, aquele era um dia só para a família, o que significa que homens ou mulheres sozinhas não poderiam entrar no shopping.

O shopping estava cheio, parecia um formigueiro, de formigas brancas e pretas juntas. Apesar da quantidade de "formigas gigantes", aquele já conhecido silêncio perturbador estava presente na atmosfera que respirávamos, um silêncio contagiante.

Felizmente, naquele shopping, assim como no supermercado, iam mais expatriados, deixando a atmosfera um pouco mais leve. Havia várias lojas de grife, de roupas normais, nem se quer havia uma loja de abayas, com isso, não pude deixar de perguntar-me, "Se é assim, porque há tantas sauditas aqui? Onde elas usam essas roupas?"

Entramos em algumas lojas só para conferir, e ao achar uma blusa que me agradava perguntei ao vendedor:

- Onde é o provador?

- Nós não temos provadores aqui dentro da loja, mas se a senhora quiser você pode ir ao provador feminino que existe no segundo andar.

"Ah? Como assim não tem provador?", pensei comigo mesma, com vergonha de falar. Desisti de provar a roupa, quanta complicação! Mas depois fiquei sabendo que era proibido provadores nas lojas, pois se os mutawas descobrissem, a loja seria fechada. Tirar a roupa em um provador de uma loja é considerado ficar pelado em público para os mulçumanos. "Cada coisa maluca...", pensei.

Sem contar que apenas homens trabalhavam nas lojas. Algo que poderia ser meio constrangedor, se uma mulher tem que comprar uma peça de roupa mais íntima.

À noite, fui dormir filosofando sobre tudo isso. Que mundo era este que tinha vindo parar? Será que ainda havia mais surpresas esperando-me? E fechei meus olhos tímidos e assustados aguardando pelo amanhecer de um novo dia.

Quando o Sol já tinha se escondido no céu e as cantigas de fé já tinham cessado, saímos para comprar alguns materiais escolares. Fomos a uma grande papelaria chamada Jarir.

Era uma agradável noite de sexta-feira com uma brisa fresca de começo de primavera. A papelaria estava cheia, um formigueiro ainda mais lotado. Subi uma escadaria com dificuldade, era difícil não tropeçar na minha abaya.

- Deixa de ser medrosa menina. Ninguém vai te levar presa por levantar a sua abaya para subir uma escada. - dizia minha mãe, que não deixava ser intimidada pelo povo esquisito.

Na seção de cadernos, tive uma surpresa um pouco desagradável. A maioria dos cadernos era ao avesso, assim como tudo naquele país. Os árabes escrevem de traz para frente e de cima para baixo. Para ser mais clara, a capa de trás de um caderno para nós, seria a capa da frente para eles. Eu não estava nem um pouco animada com a idéia de usar um caderno de cabeça para baixo. Mas como aquela era uma papelaria "multi-cultural", que atendia as necessidades de todos, pude encontrar cadernos normais.

Ao sair da papelaria, meu pai resolveu comprar água em um restaurante vizinho, e eu, resolvi ir com ele, enquanto a minha mãe e minha irmã esperavam no carro com o motorista.

Logo ao entrar no restaurante, percebi que havia algo de errado, e todos os olhares viraram-se em nossa direção. Escondi meus cabelos atrás do lenço que trazia em meus ombros e disse disfarçando a minha agonia ao meu pai:

- Porque está todo mundo olhando para a gente?

- Você sabe que eles não podem ver um rosto descoberto...

Mas logo pude perceber o que havia de errado:

- Pai, não tem nenhuma mulher aqui... Será...

- Não tem problema não, vou comprar só a água, é rápido.

Ao sairmos, senti-me aliviada:

- Acho que a entrada de mulheres é proibida neste restaurante.

- Será? Pior que deve ser mesmo... - falou meu pai.

"Ah meu deus! Agora nós somos foras da lei..." pensei, enquanto caminhava até o carro, ainda com o véu sobre os cabelos e o susto estampado em meu olhar.

"Livro ao avesso, cerveja sem álcool, fim de semana nos dias errados... Será que minha vida também vai ser virada de pernas para o ar e de traz pra frente?" pensei enquanto uma bela lua do deserto calidamente nos acompanhava como uma guardiã noturna na volta para o nosso condomínio.

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