| Daniela Medeiros |
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O Juízo Final
(Daniela Medeiros)
Para mim era chegada a hora do Juízo Final. Pelo menos era isso o que eu sentia enquanto caminhava em direção à porta daquela escola americana.
AIS-R, American International School - Riyadh, era o seu nome. Certamente, como já se havia de esperar, aquela não era uma escola como outra qualquer. Não tinha um grande portão na frente de um prédio com seu nome estampado. Um portão aonde seria possível ver jovens sorrisos logo pela manhã e à tardinha. A escola, assim como o condomínio, escondia-se atrás de muros metálicos. Sem muita propaganda, era lá dentro que cucas se fundiam com o cosmo...
Aquele era o dia do Teste. O Teste que decidiria meu futuro. Que diria, "Welcome to AIS-R!", ou apenas, "Too bad! You didn't make it...". E perdida naqueles pensamentos sufocantes, podia ouvir as batidas do meu coração, um pouco aceleradas...
Meus pais andavam ao meu lado, e minha irmã, que também teria que fazer o Teste, caminhava despreocupada com a vida.
- Good morning, sir! - disse o guarda da guarita.
Meu pai cumprimentou-o de volta, e, com identificações de visitantes, entramos. Por dentro a escola era até bonita, tinha algumas plantas e árvores.
Chegamos na secretaria, e borboletas voavam a solta em meu estômago. Minha irmã e eu fomos apresentadas a alguns professores que meus pais já haviam conhecido na primeira vez que estiveram na escola. Depois de alguns "nice to meet you" e apertos de mão, estava cara a cara com uma figura um pouco assustadora, tenho que admitir.
Era um homem, meio barbudo, com uma silhueta acentuada, e olhos claros e frios como gelo. Aquela era a minha prova oral e meu "não-tão-lindo" inglês seria testado. Para os meus ouvidos, não acostumados com aquele idioma, o homem falava rápido como uma máquina, e era um pouco difícil de entender o que ele dizia:
- Faz quanto tempo que você esta aqui?
- Apenas alguns dias... Na verdade, nem uma semana.
- Há quanto tempo você estuda inglês?
- Há... há alguns anos...
Aquela foi uma pergunta difícil de responder, e mais difícil ainda foi fazê-lo entender. Só deus sabe quantos anos eu estudei inglês em todas as escolas que estive! Mas mesmo assim, todo ano era a mesma coisa, "The book is on the table..." começava assim, e assim terminava. É impressionante! Passamos a vida inteira estudando inglês como segunda língua nas escolas brasileiras, mas o ensino é tão fraco e sem continuidade, que é difícil aprender algo. Aquela foi uma mensagem bem complicada de explicar a um americano, sem humilhar o ensino de nosso país:
- Como assim? - ele perguntou.
- É porque, infelizmente - meu pai interveio - pouca gente fala inglês no Brasil, e apenas com as aulas da escola é quase impossível falar a língua fluentemente. - ele tentou disfarçar o fato de que o ensino do inglês era totalmente sem continuidade na maioria das escolas de nosso país.
Difícil foi o homem digerir aquela informação. No meio de minha entrevista um sinal começou a tocar, cheguei até a pensar, "Salva pelo gongo!", mas que nada! Tivemos que ir ao corredor e nos agachar. Não entendi nada, mas logo o homem explicou que aquilo era apenas um treinamento antibomba. Inevitavelmente lembrei-me de já ter visto isso varias vezes em filmes americanos, e pela primeira vez, me senti como se estivesse num deles... Quem me dera que tudo aquilo fosse apenas um filme... E, mesmo agachada no chão, equilibrando-me para não cair, o homem não parava de fazer perguntas enfadonhas. Era como tortura chinesa.
- Boa sorte! - disseram meus pais, enquanto era encaminhada à uma sala vazia para a segunda fase. Ainda era apenas oito da manhã, e meus ouvidos chegaram a doer ao escutar que aquele Teste iria durar cerca de quatro horas... Senti-me nauseada...
Agora não havia mais professoras de inglês ou dicionários eletrônicos... Não havia mais palavras de encorajamento dos meus pais ou "guias de conversação para viagem"... Eu estava sozinha... sozinha com aqueles papéis assustadores, que formavam uma pilha tão grossa que mais parecia que eu estava fazendo o Vestibular.
Sendo otimista, as coisas não estavam indo tão mal, até chegar a hora de responder as questões ouvindo o que um gravador havia a dizer. O gravador emitia palavras confusas enquanto eu preenchia páginas e mais páginas de desespero, pensando, "What heck am I doing?!". O teste não era tão fácil como pensava, era o inimigo. O inimigo que me deixava sem resposta e ria da minha cara, sarcasticamente.
Estava quase desistindo da batalha, e deixava as minhas mãos serem levadas por alguma força maior que eu... Pedia ajuda ao cosmo, as estrelas, ao universo... E o gravador não calava a boca... Era como se tudo criasse vida naquela sala, rindo e apontando, sem piedade, para a minha cara... O inimigo tinha me ferido naquela batalha, e quando eu menos esperava, depois de já mais de quatro horas, aqueles olhos frios novamente me enfrentaram:
- O tempo acabou - o "cara-pálida" disse.
Eu sabia que tinha assinado meu contrato de "adeus", mas pelo menos a batalha estava acabada, e eu, exausta.
Ainda tremendo, saí daquela sala do terror, e finalmente longe daqueles olhos frios, pude desabafar.
Mas meu desabafo não veio apenas em forma de palavras. As marcas da batalha escorreram pelo meu rosto, molhadas e salgadas.
Alguns poucos dias depois, a notícia não tão agradável, mas já esperada, chegou. O inimigo havia vencido a batalha. Não tinha passado no Teste. Não só eu, como a minha irmã também. Foi explicado aos meus pais que a escola estava preocupada que não poderíamos acompanhar o ritmo dos alunos de nossa facha etária, e seria melhor optar pelo plano B. O plano B, a carta na manga da camisa, a salvação. Uma escola chamada... Multinacional.
O método de ensino era o Australiano, não muito diferente do americano. No geral, essa escola tinha certamente um ensino mais fácil que o da americana, e também um apoio maior à alunos cuja primeira língua não era inglês e precisassem de aulas de reforço. Porém, meus pais já haviam me falado que os estabelecimentos não eram dos melhores, eram algo meio que improvisado.
Logo no dia seguinte, sem querer perder mais tempo, fomos nos matricular na tal escola.
Chegando lá, vi que meus pais tinham toda a razão sobre as aparências da escola. Foi aí que tive meu segundo choque... A escola era azul clara, atrás de muros, e ocupava pouco território. Entramos e fomos guiados em um pequeno tour por uma mulher com uma longa saia estampada e óculos esquisitos. Aquele prédio certamente não era a coisa mais linda de se ver, mas mesmo assim, a mulher mostrava cada canto como se tivesse muito orgulho.
O vento soprava ferozmente, fazendo com que meus cabelos enlouquecessem em protesto e perturbassem a minha visão. Será que o vento estava tentando me dizer algo?
Logo, estávamos no escritório, pagando a matrícula. E, aquela escola, apesar de parecer mais um canteiro de obras, era três vezes mais cara do que todos os colégios de classe-média alta que havia estudado no Brasil! Sinceramente, um roubo...
Compramos os uniformes. Não queria usar uniforme. Passei a minha vida inteira assim, e agora, pensava que na escola americana poderia usar roupas normais, mas aquela não era a escola americana, e certamente não tinha nada a ver com a própria, a não ser pelo idioma e pelos preços altos. De qualquer maneira, eu iria, provavelmente, apenas estudar naquela escola por cerca de três meses, até o meio do ano, que é o final do ano escolar. Assim, confrontaria novamente o inimigo na escola americana, quando estaria, sem sombra de dúvidas, melhor armada para a batalha.
Voltamos para casa, felizes, pelo menos o problema das escolas já haviam sido resolvidos. Eu, em minha inocência, falei em tom de alegria, ao meu pai:
- Bom, agora já esta tudo resolvido. A batalha está ganha.
- Isto é o que você pensa. Esta foi apenas a primeira batalha de muitas outras que virão pela frente...
Relutei em acreditar em suas palavras, o que mais haveria a temer? Mas apesar de achar que aquele era o fim do problema, os ventos futuros iriam levantar as areias do deserto, e provar que aquele tinha sido apenas o começo...
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