A Garganta da Serpente
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A Primeira Abaya Ninguém Esquece
(Daniela Medeiros)

"Em deferência a requisito religioso, mulheres mulçumanas acima da idade de puberdade aparecendo em público cobrem seus cabelos com um lenço preto chamado tarha. Do pescoço ao tornozelo elas usam uma vestimenta externa de seda ou sintética chamada de abaya. Algumas lojas vendem abayas que cintilam com diamantes de estilistas e linhas pratas, mas o objetivo inevitável de ocultar completamente o corpo da mulher continua inalterado." ("Saudi Customs and Etiquette", Kathy Cuddihy)

- Daniela, vamos logo! Seu pai já esta esperando no carro! - minha mãe gritava, enquanto eu apreciava meu reflexo no espelho usando aquele vestido preto e folgado.

Sentia-me estranha naquelas roupas de freira em exilo num convento, mas aquela roupa era ridícula e engraçada ao mesmo tempo. "Quem diria que um dia estaria usando uma coisa destas para sair na rua?", perguntava a mim mesma, enquanto descia as escadas, euforicamente, com cuidado para não tropeçar na "coisa" que arrastava pelo chão. "Pelo menos é confortável...", consolava-me. Aquela seria minha primeira visita à verdadeira Arábia Saudita. Aquele manto preto que vestia era a minha primeira abaya. Posso garantir, a primeira abaya, ninguém esquece...

- Menina, onde você estava? Entre logo no carro. - dizia meu pai, sempre tão apressado.

- This is my other daugther, Daniela... - minha mãe falava, como sempre, simpática, ao motorista da companhia de meu pai. Ele era o mesmo que vi na foto, e que agora via pessoalmente, em suas roupas esquisitas.

Logo, estávamos fora do condomínio, e ao meu redor já não via mais tanto deserto, e sim, placas e mais placas em árabe. Sentia-me perdida em meio a letras de um alfabeto desconhecido, mas para o meu consolo, também vi muitas placas em inglês. Só que, apesar daquele ser um alfabeto conhecido, as palavras não faziam muito sentido, não era a idioma que dominava há anos...

A paisagem não era bem como eu esperava. Onde estava toda aquela modernidade de que meus pais haviam falado? Até chegar no centro, e descobrir que havia sim algo de moderno. O centro de Riyadh poderia ser confundido com outro qualquer de uma cidade americana. Havia prédios de arquitetura moderna, porém baixos, nada mais que três ou quatro andares, com exceção de dois grandes arranha céus. Um deles era a torre que vi naquela foto ainda quando me encontrava em Belo Horizonte! Isto não é difícil de explicar, ainda havia muito deserto a ser povoado, e Riyadh era uma cidade em crescimento, não havia razão de construir a cidade "para cima" com tanta terra ainda a ser povoada. "Prédios altos são resultado da falta de espaço de grandes cidades...", pensei comigo mesma.

Percebi que até no centro da cidade havia pouquíssimas pessoas andando na rua, todos se locomoviam de carro. Fiquei um pouco decepcionada, pois pelo que meus pais tinham me falado, a cidade era bem moderna, e pelo que pude perceber, modernidade só podia ser observada por algumas ruas, só no "centro do centro" mesmo...

Atrás das janelas de alguns carros, podia ver mulheres cobertas dos pés a cabeça. Em algumas destas mulheres, nem os olhos escapavam dos lenços negros... O que mais me impressionou foram os carros com cortinas nas janelas, ou janelas completamente escuras! Achei aquilo muito esquisito, porém, nosso motorista nos explicou. Aquelas cortinas e janelas escuras eram para as mulheres não serem incomodadas. Logo entendi a resposta para mais um enigma árabe, pois certamente compreendia a que tipo de incomodo ele se referia: não era raro virar o rosto para o lado, e se deparar com um homem rindo, hipnotizado ao ver nossos rostos e cabelos descobertos. Nunca me senti tão bonita em um lugar, como na Arábia Saudita...

Fomos a um shopping majestoso, era um prédio bem moderno e espelhado por fora. Entramos e me impressionei como estava deserto e "calado", assim como o aeroporto, no dia que havia aterrissado naquela terra distante. Nunca entrei em um shopping no Brasil onde o barulho não tomasse conta do ambiente; risos, gritos, gente falando alto, mas, sobre tudo, gente feliz. Aquele shopping mais parecia abandonado, para não dizer assombrado, com alguns "fantasmas" enrolados em lençóis brancos, e "almas penadas" debaixo de véus negros andando calmamente pelos corredores. Tenho que admitir que ficava com medo...

Mais uma surpresa me aguardava: as lojas de abayas, aquela vestimenta da mulher mulçumana, que pareciam lojas do Conde Drácula, com apenas véus e capas pretas na vitrine.

De qualquer maneira, entramos em algumas lojas de grife e percebemos como os árabes são, na verdade, um povo bem hospitaleiro. Quando eles ouviam que nós éramos brasileiros, logo se animavam:

- Brazil! Ronaldo, football! - aquilo ainda me ajudaria a conseguir vários descontos.

Eu e minha mãe andávamos com a cabeça descoberta, mas sempre levando um lenço nos ombros, por precaução. Minha irmã, de dez anos, ainda não usava a tal abaya, mas ela não iria durar muito tempo sem seu vestidinho preto básico.

Muitas vezes, cobria a cabeça, aquele povo esquisito me assustava, e sentia-me uma estranha a ver todas aquelas mulheres cobertas enquanto eu andava de rosto "limpo"... Sem contar que aquilo chamava muitas atenções alheias, principalmente do público masculino. Enquanto minha mãe não estava nem aí, e desfilava pelos corredores do shopping, eu me escondia atrás de meu pai. Mas a verdadeira razão pela qual carregávamos aquele lenço sempre conosco era o medo de encontrar um mutawa pelo meio do caminho. Mutawas são um estilo de polícia religiosa que estão por toda parte ordenando as mulheres a cobrirem suas faces e cabelos. Eles costumam ser identificados pelos seus vestidos brancos mais curtos do que o normal e pelas suas barbas longas... Felizmente, não foi dessa vez que tive a minha primeira experiência com um mutawa.

Em torno do meio dia, o comércio começou a fechar e tivemos que ir para casa. Dos alto-falantes das mesquitas, ouvimos os mulçumanos proclamarem sua fé. Os versos do alcorão podiam ser escutados pela cidade inteira.

O comércio só abriria novamente lá para as quatro da tarde, fechando em torno das seis e meia, para uma reza de meia hora, e de novo as oito da noite, para a última reza do dia. A partir daí, ficando aberto até as onze, ou doze da noite (UFA!). Presumi que seria bem complicado fazer compras naquela cidade. Sem contar que as horas das rezas mudam todos os dias dependendo de quando o sol "acorda" no horizonte.

Cheguei em casa perplexa com tudo que tinha visto, e ao mesmo tempo, aliviada por estar de volta em meio a uma atmosfera mais "normal". Aquele país era mais esquisito do que eu tinha pensado, mas o que eu não sabia era que aquilo tinha sido somente o começo, não sabia nem metade da história ainda. Muitas águas, ou melhor, muito petróleo, haveria de jorrar...

Mais tarde, depois da reza das seis, resolvemos sair para tomar um lanche no Mc Donald. Aliás, em Riyadh, existem varias filiais do Mc Donald, da Pizza Hut, do Burguer King, e muitos outros destes restaurantes de fast-food americanos. "Finalmente algo normal!", pensei, só que o que não sabia, era que aquele não era um Mc Donald como outro qualquer.

Chegando lá, deparei-me com três placas intrigantes que diziam, "Sessão da Família", "Mulheres", "Homens". Que os restaurantes na Arábia eram divididos por "categorias" eu já sabia, mas nunca esperei que o Mc Donald também fosse assim! Pois é, havia uma sessão para a família, uma sessão apenas para mulheres e outra apenas para homens. Assim como existem sessões para fumantes e não fumantes em restaurantes ocidentais. Estava realmente chocada. Fomos para a sessão da família, e ao entrarmos lá, nos deparamos com mesas separadas por cortinas! Comer entre paredes e cortinas? Aquilo já era um pouco de exagero demais para mim, e como meu pai sempre costumava falar, aquele era um verdadeiro "programa de índio". Foi quando percebi que do mesmo jeito que havia cortinas nas janelas dos carros para as mulheres não serem perturbadas, havia cortinas ao redor das mesas, com o mesmo objetivo. Tudo aquilo caia de uma vez, como uma bomba, em nossas cabeças, afinal, éramos apenas brasileiros que haviam acabado de chegar naquele país esquisito...

Felizmente, tinha também algumas mesas sem cortinas ao redor, sentamos numa delas, e, comendo um Big Mac, pensei comigo mesma, já pela milésima vez em um só dia, "Meu Deus! O que eu estou fazendo aqui?"

De volta ao nosso condomínio é que percebi que lá dentro não tinha nada a ver com a vida do lado de fora, e que seria realmente impossível viver naquele país se não fossem por aquelas "cidades artificiais" que imitavam a vida ocidental isolando-nos da verdadeira Arábia Saudita que existia além daqueles muros...

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