A Garganta da Serpente
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A Ilha da Fantasia
(Daniela Medeiros)

Os primeiros raios de sol entraram pela minha janela e meus olhos sonolentos se abriram, mas ainda, em meio a sonhos de uma mente confusa, não entendia onde me encontrava. Sob o efeito jet-leg, havia dormido por várias horas, e só quando recuperei meus sentidos, percebi que estava no ano 1421.

Não, não havia literalmente viajado no tempo. Não tinha entrado em uma máquina de filmes futuristas que poderia me transportar para o passado.Mas, de alguma forma, podemos sim viajar no tempo, e, às vezes, um avião pode se tornar uma máquina do tempo.

Agora, deixe-me explicar melhor como isto pode ser possível. A Arábia Saudita não segue o nosso calendário Gregoriano, em que o ano é baseado nos movimentos da terra ao redor do sol. Os sauditas seguem o calendário lunar, onde o ano é baseado nos movimentos da lua. A lua nova, quando a lua está camuflada na noite escura, é o começo do mês para os mulçumanos. O calendário lunar tem 12 meses de 28 a 30 dias, num total de 354 dias por ano. Portanto, com uma diferença de 11 dias para o nosso calendário. Essa diferença acumulada ao longo de muitos e muitos anos explica esta minha viagem no tempo. Mas, o que ainda não sabia, era que não apenas o calendário me fazia viajar no tempo, ainda tinha muito por vir pela frente...

Com um sorriso maroto, mas ainda uma cara de sono daquelas, levantei de minha cama e corri para a ligar a televisão, no intuito de examinar melhor os canais disponíveis. Aquele foi um momento cômico; trágico, mas cômico ao mesmo tempo. Meus dedos apertavam os botões do controle remoto, e a cada canal era uma nova emoção. Era tão engraçado quando passava por aqueles canais estilo Mtv árabe. Aquelas músicas e danças eram muito estranhas para mim. Sem contar nos outros, se novela mexicana já não é lá essas coisas, imagina novela árabe ou então indiana... É melhor nem imaginar... E eu desesperadamente tentava encontrar um canal brasileiro ou até português, qualquer coisa servia... O máximo que encontrei foi um espanhol. Torcia para achar a Globo, o SBT, até a TV TUPI servia, mas eu sabia que não poderia encontrar nenhum destes canais, não estava no Brasil. De qualquer maneira agradeci a ála, pois pelo que ouvi, há alguns anos atrás, cerca de dez anos, se não me engano, só havia dois canais na TV, e os dois eram Made in Saudi Arabia... O que me salvou foi a Mtv Europa e o Cartoon Network.

Aquele dia ainda era feriado do haj, então resolvemos explorar o condomínio. Meu pai me deu algum dinheiro local, o saudi riyal, espantei-me, pois parecia até o nome do nosso dinheiro brasileiro, porém a pronuncia era diferente. Nas notas, havia fotos do Rei, (Isto mesmo! A Arábia não é governada por um presidente, e sim por um rei.) usando aquele chapéu-lenço de nome esquisito, sham’agh ou ghutrah. Aquele dinheiro chamava-se saudi riyal. Um real valia quase dois saudi riyals, pelo menos naquela época.

Então resolvi descobrir as maravilhas que se encontravam naquele oásis. Os jardins eram muito bem tratados, não havia apenas a piscina principal, mas algumas outras menores e aquecidas espalhadas pelo condomínio. Tinha também uma academia, muito bem equipada, e desde a primeira vez que olhei para aquela sala de “instrumentos de tortura”, sabia que meus pais, atletas por convicção, iriam perturbar a minha pobre cabecinha todo dia. Eles iriam dizer, a toda hora, algo como, “Daniela! Você tem uma academia maravilhosa e não faz uso dela, eu não sei onde você que parar...” e não perderiam uma oportunidade de me fazer entrar naquela sala do terror, “Porque você não aproveita que acordou mais cedo e vai com a gente para a academia e depois pra sauna e depois...” Nem sei porque tenho tanto problema de ir para academias. Talvez, em uma outra vida eu tenha morrido numa máquina daquelas...

Em outra parte do compound havia varias pequenas lojas. Então resolvi fazer uso de meus primeiros saudi riyals e comprar algo no mini-supermercado que havia lá. Tinha também uma locadora de vídeos, agencia de viagens, salão de beleza, e outras facilidades. Perto da piscina havia um ótimo restaurante e até uma boate! O boliche era ótimo. Joguei uma partida com minha irmã, depois jogamos basquete, e no final, é lógico, me joguei nas águas daquela piscina maravilhosa. Aquilo era uma verdadeira “ilha da fantasia”. Nisto, percebi que compounds na Arábia Saudita são pedaços isolados de mundos e culturas ocidentais, como oásis no meio de desertos...

O que achei estranho era que as ruas do compound eram bem desertas... Mas ainda tive a oportunidade de ver alguns “loirinhos” que não eram nada mal, por sinal. Minha mãe não perdeu a oportunidade de dizer, “Acho que você está bem servida de “loirinhos” por aqui...”, e minha irmã não poderia deixar de retrucar, “Pena que eles não podem dizer o mesmo... Hahahaha...”

No final do dia voltei para casa satisfeita. Ao entrar no meu quarto, deparei-me com William sentado em minha cama. Alegremente falei com ele:

- Oi William! Tenho tanta coisa para te contar... – mas ele, indiferente, não respondia nada.

- Vi altos “loirinhos” fofos... Também fui no boliche e na piscina... Menos na academia... Um dia eu ainda vou lá, mas agora não, não é... acabei de chegar... – ele continuava com aquela mesma expressão doce em seu rosto, mas palavras não saiam de sua boca...

Ainda me lembro quando encontrei William, em seu casaco azul marinho, numa loja em Londres. Ele sorriu para mim, e não pude resistir em levá-lo comigo para a minha nova morada. Por cerca de dez pounds, ele era meu. Aquele seria meu amigo e confidente de pano, pelos e algodão, que apelidei de William... Mas o que eu não sabia, até aquele ponto, é que ele seria meu melhor amigo ainda por muitas noites e dias árabes por vir...

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