A Garganta da Serpente
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Daniela Medeiros saiba mais sobre o autor

Contatos Imediatos de Primeiro Grau
(Daniela Medeiros)

"... agora, enquanto o sol começava a se pôr, ele estava em um país diferente, um estranho numa terra estranha, onde ele não podia nem falar a língua." ("O Alquimista", Paulo Coelho)

"O porte de bebidas alcoólicas e drogas no país são crimes sujeitos a pena de morte."

Em letras vermelhas, isto era o que estava escrito no cartão de entrada da Arábia Saudita, que meu pai preencheu ainda no avião.

Em minha vã filosofia, o único jeito de se morrer por bebidas alcoólicas seria se a pessoa ficasse bêbada e batesse o carro ao dirigir, ou, em casos extremos, se o mesmo "enchesse a cara" e fosse parar no hospital por overdose.

- Cubra o seu colo, minha filha. Aqui eles não gostam destas coisas, não é recomendável. - meu pai dizia a mim, enquanto recolhíamos nossa bagagem de mão para sair do avião. E nisso, eu me cobria com um cachecol, olhando para a minha blusa bem-comportada, mesmo sem acreditar em seus exageros.

Em minha cabeça pensava, "Estou na Arábia!!! Estou na Arábia!!!", tinha vontade de sair pulando e dançando ao som de uma musica árabe, mas as pessoas naquele avião eram esquisitas e me assustavam, assim a festa apenas acontecia em minha cabeça: "...atravessando o deserto do Saara, o sol era tão quente que queimou a nossa cara... Alalaôôôôô, mas que calôôôôô..."

Finalmente saímos do avião, onde já havia algumas mulheres mascaradas (não como a Tiazinha, é claro!) porém só com os olhos de fora em meio a lenços e mais lenços negros. Atravessamos aquele túnel novamente. Para mim, estes túneis que conectam aeronaves a aeroportos são como portais para outros mundos e universos paralelos.

O aeroporto era moderno e bonito. Havia uma grande cascata e muitas plantas que me faziam esquecer que estava no meio de um deserto. Ele também era muito mais bem estruturado do que vários aeroportos de cidades brasileiras, e isso me surpreendeu. Porém, por alguma razão, aquele era bem silencioso. Assim, eu apenas ouvia o som de minhas botas batendo contra o chão, a cada passo que eu dava em direção a mais um portal, este, um portal definitivo, que divide o "cartão de visitas" de Riyadh à verdadeira SAUDI ARABIA, a fiscalização de passaportes.

Aproximando-me do tal "portal", avistei uma fila, bem longa, de gente humilde; filipinos, indianos, africanos; vindo trabalhar no país. Havia filas separadas para saudis, expatriados, famílias, e trabalhadores, algo do tipo "cada macaco no seu galho".Só me lembro que tínhamos um guia nos ajudando, e não tivemos que esperar em filas longas. No "portal" havia um homem barbudo, checando nossos vistos e passaportes. Ele era muito scary, e me dava medo... No rosto de todas aquelas pessoas, não havia sorrisos. Eram rostos sofridos, ou apenas rostos sérios, não havia risadas no ar...

Passando aquele portal, me surpreendi ao ver que ainda havia mais um obstáculo pela frente. Pegamos as nossas malas, e fomos passar pelo último e mais perigoso de todos os portais, a alfândega! Nossas malas e pertences de mão foram colocados naquela máquina de raios-x e observada para checar se havia algo de errado. Eu, sinceramente, fiquei com medo, de alguém ter colocado drogas ou álcool em nossa bagagem, e a gente virar "pozinho em uma lâmpada mágica qualquer". Graças a Alá, tudo correu bem!

Havia várias indianas com suas roupas coloridas mas bem comportadas, também vi muitos expatriados e saudis. Vi de perto aquela roupa esquisita que os homens árabes usavam, e em meio aquela confusão de culturas misturadas me perguntei, "Onde é que eu vim parar?", e por mais que eu pensasse que sabia a resposta, eu ainda não sabia de nada. Para mim, aquele lugar apenas continuava a ser "a terra desconhecida".

Fomos para o lado de fora, e um vento corria solto no ar. Era uma brisa fresca e agradável que oxigenava meus neurônios e colocavam-nos em seus devidos lugares. Fazendo-me, assim, parar de questionar onde eu estava e apenas sentir a sensação que aquele lugar me proporcionava, uma sensação de medo e fascínio ao mesmo tempo...

Entramos na vã que o nosso condomínio havia enviado para nos buscar.

Sentei no fundo e no meio das malas, enquanto analisava a paisagem, apesar de não ver muita coisa. Algumas casas, condôminos, mas o deserto ainda era o que predominava. Até que vi um condomínio que me parecia familiar, e perguntei entusiasmadamente aos meus pais:

- É este o condomínio?

E meu pai, confuso, perguntou ao motorista:

- Is this the compound?

- Yeah, that's the one - respondeu o motorista em um sotaque esquisito.

Compound é um termo usado para classificar os condomínios na Arábia Saudita. Estes compounds são condomínios de estrangeiros unidos em um mesmo muro por uma simples razão, criar uma vida ocidental artificial, como o cenário de um filme.

O nome do meu condomínio era Al-Hamra Oásis Village e logo na entrada percebi que aquilo era realmente um oásis no meio das areias do deserto. Havia uma fonte de luzes e varias plantas e flores. Entrando, vi árvores, jardins floridos, fontes, e coqueirais, e entre um suspiro e outro chegamos a nossa casa. Não era muito bela por fora, mas não esperava algo muito grandioso. Pulei para fora do carro euforicamente e saí correndo para ver o meu quarto. Gostei do que vi, nunca tinha tido um quarto daquele tamanho antes! Não era nenhuma suíte presidencial, mas para mim parecia.

Depois que me acalmei, olhei o resto da casa, desfiz as malas, e já muito tarde da noite, me deitei para dormir.

Olhei para o espelho que havia em frente a minha cama e disse, "Well, quem diria que você chegaria até aqui... Muitos obstáculos vencidos..." e então me lembrei de meu inglês "perfeito" e continuei, "E ainda serão muitos obstáculos pela frente..." Coloquei minha cabeça no travesseiro e comecei a meditar sobre aquele futuro próximo que me esperava e disse a mim mesma, ansiosa pela chegada do amanhã, "Esta é apenas a primeira das 1001 noites árabes...", e dormi, fascinada, naquele oásis que havia encontrado no meio do deserto, depois de meus primeiros contatos imediatos de primeiro grau com aquele país. Um país muito além de um distante horizonte que conhecia...

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