| Daniela Medeiros |
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Antes do Deserto... Frio
(Daniela Medeiros)
"Have a nice day and thanks for choosing our company."
Came on! Até no outro lado do Atlântico estes comandantes tinham que vir com essa história! Será que eles não percebem que esta é uma das "cantadas" mais velhas que existem! (risos)
Pegamos nossos casacos e saímos radiantes de alegria do avião. Aquele vôo tinha sido bem cansativo, foram 12 horas no ar. Eu nunca tinha estado tanto tempo à milhares de metros acima da Terra e o mais longe que eu já tinha ido, até aquele dia, foi ao Chile! E lá estava eu em Londres, dias antes de partir para a Arábia.
No túnel que dava para o aeroporto já podia sentir o frio do lado de fora. Saímos do túnel e avistamos de longe meu pai. Corremos para falar com ele. Já fazia semanas que não o víamos, e aquele foi um momento de alegria.
- Oi pai! - falei alegremente.
- Oi meus amores! - ele falou, nos abraçando.
Uma atmosfera de alegria nos envolvia. Enquanto isso as pessoas olhavam para nós como se fossemos estranhos de outro planeta. Sempre ouvi dizer que no exterior as pessoas dizem que brasileiros são mal-educados e barulhentos, e então percebi o porque daquilo. Nós brasileiros somos um povo muito caloroso e espontâneo, e isto pode parecer má-educação para pessoas de culturas mais sérias e fechadas.
. Nos sentíamos vitoriosos por ter chegado até aquele ponto. Parecia impossível que conseguiríamos aquelas autorizações, parecia um sonho, mas estávamos lá, todos reunidos mais uma vez, como uma família.
Era inverno em Londres e estava muito frio. Saímos do aeroporto para pegar um táxi, e me senti um frango congelando no freezer. O frio me envolvia sem pena alguma e eu apenas tremia e batia os dentes. Quando falava, fumaça saia de minha boca, e eu achava aquilo o máximo. Mas que alívio que tive quando entrei no táxi, e senti aquilo calor amigo me envolvendo e me aquecendo mais uma vez!
Os táxis em Londres são bem diferentes dos táxis do Brasil. Eles são grandes e esquisitos; parecem carros de filmes de mafiosos dos anos cinqüenta, mas são bem eficazes. Enquanto comemorávamos a nossa vitória eu desenhava no vidro embaçado do carro e contemplava a paisagem. Londres é uma cidade de arquitetura antiga com muitos restaurantes e cafés charmosos e aconchegantes nas calçadas, e envolvida pelo calor do aquecedor dentro do táxi nem lembrava do frio que existia lá fora.
Passamos dias agradáveis em Londres, a não ser pelo frio que me fazia sentir como um picolé. Para agüentar o frio, muitas e muitas camadas de casacos e mais casacos e um sobretudo eram essenciais. Nisto me sentia como o Ursinho Pufe, aquele personagem de desenhos animados, parecia que pesava uma tonelada, e era difícil de se mover encoberta por toda aquela roupa.
Finalmente o dia mais esperado do ano havia aterrisado no terreno de minha vida, o dia de ir para a Arábia Saudita.
Nos dirigimos ao aeroporto e uma empolgação inexplicável me invadia.
- Eu vou para a Arábia! Nós vamos para a Arábia! Finalmente! - dizia meio que cantarolando à minha irmã, enquanto sacudia-me no intuito de liberar um pouco daquela energia que tomava conta de mim.
Entramos no avião, e mais uma vez eu estava na 1a classe, então sentei em minha poltrona, e com um olhar de James Bonde, o agente 007, falei em tom pensativo:
- Estou virando quase uma executiva. - e meus pais riram-se.
O vôo estava vazio, então comemorei mais ainda. Saí de poltrona em poltrona escolhendo qual era a mais confortável, mas em meio a todas aquelas poltronas, não conseguia me decidir. Meus pais tinham ganhado uns cupons com direito a compras no free-shop do avião e minha mãe e eu pegamos os cupons e fizemos uma festa de compras.
As aeromoças estavam muito bem-humoradas, já que o avião estava praticamente vazio e elas não teriam muito trabalho à fazer. Elas estavam apenas rindo daquela família animada que éramos nós, provavelmente nunca tinham visto pessoas tão animadas indo para a Arábia.
Ainda não havia tido muitas oportunidades de praticar meu inglês. E toda vez que fazia uso de meus poucos conhecimentos daquela língua complicada, via-me dando pulos de alegria e dizendo, "Consegui! Consegui!". E foi assim que aconteceu toda vez que precisava pedir algo à aeromoça. Falar inglês parecia uma coisa do outro mundo para mim, e que nenhuma de minhas amigas tiveram a oportunidade de fazer.
Aquele era um vôo de sete horas, mas foi um vôo tão agradável que nem senti o tempo passar. Vi um ótimo filme na TV, e não tive a menor condição de dormir na situação de êxtase total que eu me encontrava. Anoiteceu e entramos em território "arabiano". Peguei meu diário e comecei a escrever:
" Neste momento estou literalmente nas nuvens rumo a uma terra desconhecida. Acho que a vida pode ser muito mais emocionante quando vivemos como forasteiros que andam pelo mundo em busca de emoção. Nesta nova terra, quero desvendar mistérios de uma cultura tão diferente da minha. Conhecer um novo mundo é sempre tão fascinante... E depois das noites árabes, só Deus sabe para onde irei, pois não é meu coração que escolhe, eu apenas vou para onde a correnteza me leva..."
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