A Garganta da Serpente
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Bye-Bye Brazil
(Daniela Medeiros)

EU: O quê? Como assim, mulheres não podem dirigir na Arábia?

MEU PAI: Mas também como elas poderiam dirigir com o rosto coberto?

EU: Então nós vamos ter um motorista?

MINHA MãE: É lógico, e eu não me incomodo nem um pouco com isso...(risos)

Sentada na janela de meu quarto, contemplava o céu azul lembrando-me daquela conversa que havia tido com meus pais ainda no dia em que eles haviam retornado da breve visita à terra desconhecida. Apesar de já fazer mais de um mês que aquela noite tinha se passado, varias palavras ainda estavam vivas em minha memória. Em minhas recordações eu vinha e voltava no tempo, às vezes até me perdendo na estrada da vida...

Mas agora, eu não precisaria mais mastigar todas aquelas palavras e analisar as fotos coloridas de um lugar distante. Em pouco tempo eu iria ver com meus próprios olhos tudo aquilo que tinha ouvido falar por tantos dias quentes e intermináveis. Quando o sol já estava se pondo, procurei a linha do horizonte, mas não consegui encontrá-la em meio aquela selva de pedras. A única coisa que sabia é que ela estava lá, como sempre esteve, e que muito além daquele horizonte estava meu pai, e que muito além daquele mesmo horizonte, estaria eu vivendo em poucos dias...

Meu pai iria nos esperar em Londres e depois nós iríamos passar uma semana por lá. Eu sei que já não era mais tempo de férias, mas resolvemos passar uma semana por Londres por uma justa causa. Aquela semana na Arábia Saudita, era feriado do haji, tempo de peregrinação a Meca, que todo mulçumano deve fazer uma vez na vida se tiver condições para isso. E durante esta semana o comércio não funciona e tudo está fechado, inclusive a escola. Por isso, não adiantaria ir logo para Riyadh e ficar lá "plantando bananeira" no telhado e contando os grãos de areia do deserto; era melhor aproveitar para conhecer um pouco de Londres e já fazer um aquecimento em nosso inglês...

Os meus últimos dias de Brasil estavam chegando, e por incrível que pareça eu não pensava em aproveitar aquele tempo, aqueles dias. Eu só pensava em ir para a Arábia e descobrir logo os mistérios guardados naquela terra desconhecida. Com isso, acho que esqueci que só veria aquele mesmo Brasil no final do ano, e que mesmo assim seria apenas uma visita de passagem, pois a minha jornada na terra desconhecida só estaria concluída em dois anos.

"Tchau... Te vejo... algum dia...", dizia a todos. Sinceramente não sabia quando os veria de novo. Muitos deles, provavelmente, nunca mais veria nesta vida, outros, em alguns anos, quem sabe... Não era eu quem tomava conta do meu destino, pois não sou eu quem controla as águas do oceano. Quem controla as águas do oceano é a Lua, é o Sol, é uma força divina... E assim a maré me levaria à Riyadh, a terra desconhecida, e depois de minha jornada nas terras árabes, acho que nem o mar ainda sabia para onde iria me levar...

Dia 27 de Janeiro de 2001. Nunca esquecerei aquela data. Foi aí que o "circo" começou a pegar fogo...

- Daniela, me ajude a descer com as malas, o táxi já chegou! - gritava minha mãe, enquanto olhava para meu quarto vazio.

A nossa casa em Riyadh já seria mobiliada, até porque ninguém leva uma mudança inteira para a Arábia Saudita. Dá muito trabalho e não vale a pena. Então muitas de nossas coisas ficaram estocadas em um depósito. Estávamos levando algumas caixas com objetos de decoração e coisas pessoais, mas quase nenhum móvel. De qualquer maneira nossa mudança ainda seria despachada para a Arábia mais tarde.

- Vamos logo Daniela!

- Já estou indo!

Disse "tchau" as paredes de meu quarto, ao chão, ao teto, e a minha cama. Olhei pela última vez a nossa casa, me despedi de nossa empregada e parti. Fui-me por aquele mesmo elevador que um dia eu havia chegado naquele apartamento.

Era feriado de Carnaval. Eu radiava de felicidade e empolgação enquanto olhava para aquele aeroporto vazio... Aquele dia havia finalmente chegado, e era difícil de acreditar.

- Bom dia, poderia ver as suas passagens? - indagou educadamente o atendente.

Minha mãe entregou-o as passagens e o atendente perguntou:

- Você tem um documento de autorização para viajar com as suas filhas?

Minha mãe olhou-o com cara de cego perdido em tiroteio, e com uma cara confusa perguntou:

- Como?

- A senhora precisa de uma autorização de seu marido para viajar com as suas filhas para o exterior.

Desespero invadiu sua face como um relâmpago, e aquela corrente elétrica de pânico logo podia ser vista em meu rosto também. Era feriado de carnaval, e quase impossível de conseguir esta autorização naquele dia. Fomos até a policia federal do aeroporto, e lágrimas começavam a brotar de meus olhos. Bem que parecia impossível que o dia tivesse realmente chegado...

Enquanto eu sentava no sofá sem mais esperanças, minha mãe começou a relatar o problema aos policiais. Mas nada podia ser feito. Ela chorava... Eu não entendia o porque, mas ela estava aflita.

- As meninas podem perder o ano na escola. - exagerava.

Acho que o motivo de todo aquele desespero era porque foram muitos os obstáculos para chegar aquele ponto. Meses esperando os icamas, dias de agonia. E naquele momento éramos apenas crianças, que não foram permitidas de brincar com seus brinquedos.

Arriscamos e pegamos o avião da escala de São Paulo, enquanto meu pai, em Londres, mantinha contato com a Embaixada Brasileira na tentativa de resolver o problema. Era como se tudo que eu precisasse seria provar à mim mesma que aquele era sim um novo começo, que eu estaria indo para a Arábia, e que eu não teria que esperar mais semanas para que aquele dia chegasse de novo. Voltar para casa naquele momento seria uma queda muito grande das alturas que meu coração já voava. Então fomos até São Paulo e confiamos em Deus que tudo iria dar certo.

Chegando em São Paulo e uma velha amiga de minha mãe nos esperava no aeroporto. As lágrimas já não eram mais presentes em meu rosto, mas meu coração ainda doía.

Longa foi àquela espera no aeroporto. Passamos varias horas de expectativa enquanto o celular de minha mãe tocava a cada dois minutos, e o problema tentava ser resolvido. Quando as minhas esperanças já tinham sido apagadas de minha memória um milagre aconteceu:

- Nós estamos embarcando em menos de uma hora! - gritou minha mãe enquanto uma luz de esperança se acendia de novo em seus olhos.

Naquele momento senti uma felicidade intensa, uma sensação de vitória invadiu-me: a primeira batalha já tinha sido vencida das muitas outras que vinham pela frente.

Quando percebi, já estava no túnel que dava para o avião. Estava tão eufórica que minhas pernas tremiam de alegria e meu coração palpitava mais forte.

Sentei naquela poltrona confortável de 1a classe e comemorei. A última vez que tinha andado na 1a classe foi quando eu tinha quatro anos de idade e nem necessitava de uma cadeira daquele tamanho.

Pensava em todos e em tudo daquele Brasil em que vivia. Perguntava-me se teria saudades, mas corajosamente tentava enganar meu subconsciente, "Saudade do que, de ladrões a cada esquina?", mas sabia que não era bem assim. Um ano sem guaraná, sem feijoada... Sem revista Capricho, sem novelas da Globo... Seriam muitas restrições, mas também muitos ganhos. Na verdade, não me importava realmente com nada disso. Abria mão de tudo e partia para a Arábia, sem medo de ser feliz, ou quem sabe, sem medo de ser triste...

Seat belts on… and up we go!
Bye-Bye Brazil…

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