| Daniela Medeiros |
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Icama: O Ingresso Para o Show
(Daniela Medeiros)
Na manhã seguinte acordei, mas apesar de eu ter acordado, parecia ainda estar sonhando. Sonhando com aquele mundo árabe, e já não sabia se tudo aquilo tinha sido realidade ou apenas um sonho onírico...
Eram ainda muitas as perguntas que habitavam minha mente. Às vezes, sem ao menos questioná-las, tinha as suas resposta. Outras vezes, não havia perguntas, apenas respostas. Respostas para coisas tão surpreendentes, que ainda não havia formulado pergunta nenhuma sobre o assunto... Naquela mesma manhã, mais informações foram jogadas no ar, e captadas por meus ouvidos atentos.
Quando ainda estávamos conversando sobre a escola americana, minha mãe fez uma cara de espanto e disse algo que havia esquecido de me informar:
- Ah! Já íamos esquecendo de te falar o principal!
Meu pai olhou para ela como que captando a mensagem, que ele também havia esquecido, por telepatia.
- Você terá aula no sábado e no domingo!
Fiz uma cara de desespero, como se eu acabasse de ouvir a notícia de que nos próximos 30 segundos, o mundo iria ser atacado por naves espaciais de onde sairiam alienígenas verdinhos com armas poderosíssimas, que uma vez disparadas explodiriam todos os nossos miolos. Felizmente, antes que eu explodisse em pedacinhos, e sujasse a sala inteira, minha mãe explicou-me:
- Calma! Você terá seu fim de semana, pode ter certeza disso! Apenas o seu fim de semana não será o mesmo daqui do Brasil.
Aquela minha cara de desespero faleceu, dando espaço a uma expressão de interrogação e alívio ao mesmo tempo, como de quem está perdido no meio do deserto e avista um oásis no meio de toda aquela areia, mas diferentemente do oásis, que é apenas uma ilusão, aquilo era real.
- O fim de semana lá é na quinta-feira e na sexta-feira, não no sábado e domingo como aqui, entendeu? - prosseguiu minha mãe.
- Mas porque é assim, só pra complicar a nossa cabeça? - não entendia como aquilo poderia existir. Sempre achei que o mundo fosse esta bola azul no meio do universo, com várias culturas e povos diferentes em sua superfície, mas no que nunca havia pensado era que povos diferentes tinham costumes diferentes, e, portanto, fins de semanas diferentes.
- Veja bem, o Brasil é um país colonizado pelos portugueses, e assim é um país cristão. Já a Arábia é um país mulçumano, e o dia sagrado deles é diferente do nosso.
Bom, fazia sentido, podia ser estranho, mas fazia sentido...
Depois que já não havia muito que falar, da Arábia em si; apesar deste ser um termo incorreto de se usar, pois sempre há o que se falar da Arábia Saudita; meus pais me contaram das "coincidências" que haviam encontrado em sua jornada pela terra desconhecida.
Na escala em Londres, meus pais entraram no avião que os conduziriam para Riyadh. Depois de uma espera, de mais de duas horas por problemas técnicos, no avião, o vôo foi cancelado. Meus pais tiveram que pegar um outro vôo no dia seguinte. Em minha superstição, pensei comigo mesma que talvez aquilo fosse uma força maior tentando impedi-los de ir. Como se aquele não fosse o nosso destino. Por um outro lado, talvez fosse apenas um problema no avião mesmo, pois essas coisas acontecem, só que temos que considerar todas as possibilidades...
Quando eles chegaram em Riyadh e ligaram a televisão do Hotel, havia um filme brasileiro passando na TV, "Dona Flor e Seus Dois Maridos", era como se algo os dissesse, "Bem vindos à Arábia Saudita. Sintam-se em casa, pois este será o seu lar pelos próximos dois anos de suas vidas." Talvez eu apenas esteja fantasiando demais, mas quem sabe? Ainda quando eles estavam em Riyadh houve um eclipse lunar. Dizem que eclipses são sinais de crise e tragédia, mas para mim é uma das coisas mais belas que já vi, é quando a Lua e o Sol se amam...
Janeiro passou como o vento, voando... Logo veio fevereiro, e nossos icamas de estadia na Arábia Saudita ainda não tinham sido retirados. Um icama é uma autorização do governo de moradia no país. Adquirir um icama não é um procedimento simples, é algo que leva tempo. O icama do meu pai já tinha sido conseguido. Assim, ele teve que ir para a Riyadh antes de mim, minha irmã e minha mãe, para conseguir, mais rapidamente, os nossos icamas. Eu ainda me lembro de quando ele partiu, era 13 de fevereiro, daquela manhã ensolarada de verão:
- Tchau Dani, tome conta de sua mãe... - foram suas ultimas palavras, antes de embarcar de uma vez por todas naquela jornada.
Já naqueles dias, me dedicava cada vez mais à minhas aulas de inglês, que já chegavam até a duas horas e meia por dia, e cansavam os meus neurônios.
Dias depois, ao atender ao telefone, vitória emanava das palavras de meu pai. Ele havia finalmente, depois de muito esforço, conseguido os nossos icamas. Aqueles eram os "ingressos" para uma expedição à uma selva de pedras e areia, à uma selva distante da Amazônia, mas ainda tão fascinante quanto. Aqueles eram os ingressos para o show de uma nova vida. Este show eu não queria perder nem me atrasar, e apenas com aquele ingresso em minhas mãos, as portas do espetáculo seriam abertas para mim, e uma vez dentro do teatro, as portas seriam trancadas. E gostando ou não do que eu via, teria que ficar até o fim, até o espetáculo terminar...
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