A Garganta da Serpente
ajuda
 
 
  versão para impressão
Daniela Medeiros saiba mais sobre o autor

Descobrindo a Arábia
(Daniela Medeiros)

Grande foi a emoção que senti naquela noite de 12 de janeiro quando o telefone tocou:

- Trimmmm!Trimmmmm!

E aquela voz familiar tonta de euforia balbuciou as palavras:

- Oi, Dani! Nós já estamos no elevador do prédio!

Aquela era a minha mãe anunciando a sua chegada, pelo jeito vitoriosa, em Belo Horizonte. Já fazia dois dias que eu tinha voltado de Natal, e esperava impacientemente, como uma criança que quer doce, o retorno dos meus pais daquelas terras árabes.

Abri a porta que dava para o elevador do nosso prédio. Eu, minha tia, minha irmã e até a Marilene, nossa querida empregada, esperávamos em contagem regressiva pela chegada de meus pais. O brilho em meu olhar crescia, enquanto a porta do elevador era aberta, com dificuldade, por meus pais, "entupidos" de mala, e vários gritos eram jogados no ar. Eu ainda fiquei por alguns milésimos de segundo naquele estado de transe, para que pudesse me recuperar, e soltar algum som de minha boca:

- Me conta! Como foi?! Como é?!- seguidos de pulos e abraços.

Ainda tirando as malas do elevador, meu pai tentou manter a calma da "nação":

- Calma pessoal, vamos com calma, tem muita coisa pra falar!

Demorei um pouco para perceber, mas minha mãe estava usando aquele famoso vestido preto, curiosamente chamado de abaya por cima das roupas dela. Antes mesmo que eu perguntasse algo, ela me contou a história...

- Este vestido "básico" que estou usando aqui é chamado de abaya! Todas as mulheres têm que usá-lo quando saem de casa. Apenas as mulçumanas se cobrem todas de preto, com lenços e mais lenços...

Aquele era uma vestimenta bem esquisita para uma pessoa que está acostumada a ver gente quase pelada pelas praias, como nós brasileiros. Era como aquelas batinas que padres e freiras usam nas igrejas, ou como naqueles corais americanos. E eu falei, em tom brincalhão:

- Bom, acho que já tenho a minha fantasia para o próximo Halloween... (risos)

Quando todos já estavam bem mais calmos, a pressão arterial mais baixa e a euforia já tinha voltado para seu lugar de origem, a conversa começou a ficar interessante, tão interessante, que toda aquela euforia se manifestou como um vendaval novamente. Meu pai retirou um cartaz de sua maleta e disse, antes de mostrá-lo:

- Olha só o hotel que a gente vai ficar quando for para lá...

E com cara de misterioso mostrou um folheto, com uma foto de um paraíso na terra, que deixaria o mais bobo dos mortais em estado hipnótico. Estou exagerando, mas aquilo era um baita de um... Resort... Havia piscinas, coqueirais, uma pequena cachoeira artificial, algumas vilas... Uma bela foto... No mesmo instante, a minha irmã deu um grito de felicidade:

- Uauuu! É lindo, nossa que hotel maravilhoso! Você é demais, pai!

Mas eu, que não era besta nem nada, não me deixava cair em pegadinhas do Faustão, já conhecia aquela cara de misterioso que meu pai costumava fazer quando escondia algo. Não iria me deixar cair naquela armadilha. Apenas me mantive instável, com um sorriso amigável, apreciando a paisagem. Para confirmar de meu interesse pelo tal "hotel", meu pai até perguntou:

- Como é que é? Gostou?

- É... parece ser um hotel bem legal.- respondi mantendo a classe e a minha cara de "imbatível", naquele jogo secreto, mas na verdade sem vencedores ou vencidos.

Foi aí que veio o golpe... E neste golpe meu pai conseguiu se dar bem.

- Este não é o hotel... É o condomínio que a gente vai morar!

Aí já era... Foram muitos os suspiros, as euforias, e não podia ficar de fora. Deixei o jogo pra lá, deixando meu pai ganhar a sua "tão querida vitória", só assim ele ficaria feliz. Bom, foi assim que todos, inclusive eu, ficamos felizes... Finalmente vi a foto da tal casa, e certamente não era aquela casa que eu sonhava. Não era uma casa de estilo europeu como eu imaginava, apesar de ter varandas e um pequeno jardim. Mas tudo foi camuflado e compensado pela foto daquele belo condomínio, que me deixava incapaz de exigir algo mais daquela casa.

Deixando as conversas sobre o condomínio de lado, fomos para outros assuntos, mais interessantes. E meus pais começaram a nos contar sobre a cidade...

- Bom, a cidade é bem moderna - dizia a minha mãe.

- No centro, é claro...- completou meu pai e continuou seu "discurso" - Nos arredores a cidade não é tão bonita, como qualquer outra. Nenhuma cidade é bonita na saída do aeroporto, Riyadh é bem deserta por esta área...

A palavra "deserta" automaticamente fez-me lembrar dos tão falados desertos árabes e perguntei:

- E lá tem muito deserto?

- Não! Eu já te disse que a cidade é bem moderna, porém tem algumas áreas de deserto aqui e ali... Riyadh é uma cidade em crescimento, e você pode perceber que não existem prédios muito altos, pois ainda tem muita terra para ser povoada...

Nisto, minha mãe se lembrou de um acontecimento muito "engraçado", ou melhor dizendo, algo estranho a nossa cultura ocidental, e não se conteve:

- Eles fazem pic-nic à noite no deserto! Muita gente vai para estes pequenos desertos no meio da cidade para fazer uma fogueira e montar uma tenda!

Minha tia curiosa, com esta historia de abayas, perguntou:

- Mas Sônia, e as bailarinas dançando dança do ventre, não tem?

- Isto aí eu acho que é só lenda, como naquele livro "As Mil e Uma Noites"... Só se fosse uma dança do ventre de abaya, mas eu acho que a vestimenta não é muito apropriada para este tipo de dança não...(risos) - minha mãe respondeu.

Minha mãe se lembrou das inúmeras fotos que tinha tirado naquela viagem e pegou o álbum em sua bolsa para nos mostrar. Eu e minha irmã brigávamos entre as paginas, uma mais curiosa que a outra. Finalmente, minha mãe nos mostrou uma foto de como os homens se vestiam, ela já tinha me falado sobre o assunto, mas eu ainda não tinha visto nenhuma foto... Ele usava um vestido longo, assim como a abaya, mas ainda diferente, e todo branco. Na cabeça ele tinha um estilo "lenço-chapéu" xadrez; branco e vermelho, que mais parecia toalha de mesa de restaurante italiano; e um bigodinho e barba, uma marca dos homens árabes. Aquela era uma foto do motorista que os acompanhou durante a sua jornada naquelas terras árabes.

- Este é o uniforme dos homens, e a abaya o das mulheres. Simples não?

- Mas que lugar esquisito...- não pude evitar de falar.

Não havia realmente fotos da cidade, apenas dos condomínios e tal. Motivo? Não se pode tirar foto no meio da rua. Não sabia porque, só sabia que não podia. "Estranho..." mais uma vez pensei comigo mesma...

Mas minha mãe havia também comprado alguns cartões postais, é claro. Assim pude ver a cidade. Havia uma foto que me chamou muito a atenção, era a de uma torre muito bonita, com fogos de artifício no céu. Nunca pensei que havia coisas modernas como aquela na Arábia. Era uma torre digna das grandes cidades americanas.

No meio de toda aquela agitação, me lembrei que ainda não tinha perguntado sobre a escola:

- Vocês foram à escola americana?

- Fomos! É uma escola bem grande. - respondeu meu pai.

- Ela é bonita? Moderna?

- Moderna? Eu não sei o que chama de moderna... Por dentro ela é bonita, por fora... Bem, um pouco diferente!

Não gostei muito daqueles comentários sobre a tal escola, mas deixei a bola rolar no gramado... Interroguei-os por horas e mais horas e nunca houvera em minha vida conversa mais interessante com meus pais do que aquela. Tirando a exceção, é lógico, de quando soube que ia morar no outro lado do mundo, mas aquela primeira conversa tinha sido meio trágica, meio cheia de emoções, como novela mexicana...

Naquela noite tive dificuldade para dormi. E quem não teria? Todas aquelas informações rodavam feito um pião em minha cabeça e me deixavam tonta... Uma tonta sonhadora no meio da noite escura... E aos meus 13 anos de idade, nos anos dourados da vida, um longínquo mundo oculto me esperava, distante daquele Oceano Atlântico. Iria enfrentar uma jornada em uma terra Asiática, do Oriente Médio, com um tal de Mar Vermelho e um chamado Mar árabe. Naquela terra o jogo da vida parecia ser jogado em preto e branco, apenas à luz da lua, e ao som do vento do deserto. Aquela terra era um mundo perdido no tempo e no espaço, e apesar de ser chamada Arábia Saudita, para mim era apenas a "terra desconhecida" e o meu próximo destino...

1067 visitas desde 22/08/2005

   
 

É Permitido Proibir

Regras São Regras

Certo... Porém ao Avesso

O Juízo Final

A primeira Abaya ninguém esquece

A Ilha da Fantasia

Contatos Imediatos de Primeiro Grau

Antes do Deserto... Frio

Bye-bye Brazil

Icama: O Ingresso Para o Show

Descobrindo a Arábia

Notícias da Arábia

Parecia tudo uma brincadeira

Antes do deserto... Mar

Perdida nas Noites árabes

E a palavra-chave era

E assim tudo começou

 

Copyright © 1999-2011 A Garganta da Serpente
Direitos reservados aos autores  •  Termos e condições  •  Fale Conosco www.gargantadaserpente.com