| Daniela Medeiros |
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Notícias da Arábia
(Daniela Medeiros)
- Meus pais já foram?- foi a primeira coisa que perguntei ao acordar naquela manhã de cinco de janeiro, o dia em que meus pais viajaram para a terra desconhecida, a capital da Arábia Saudita, Riyadh. A resposta, como já esperava, foi positiva:
- Já foram! exclamou alegremente minha tia.
- Esta hora eles estão voando, já longe daqui... completou a minha avó pensativa.
Nunca estive tão ansiosa por um telefonema dos meus pais como naqueles dias.
- Trimmmmm! Trimmmmm!
No dia seguinte, o telefone tocou. Como já de esperado era uma ligação que vinha de longe, da Arábia Saudita. Nunca aquela casa da família Oliveira haverá recebido uma ligação de um lugar tão distante como aquele. Minha mãe falou comigo, com a minha tia e avó. Foi uma agitação só! Não me lembro muito bem de suas palavras, a única coisa que lembro é que ela falava em voz indiferente, nem empolgada, nem triste, apenas uma voz misteriosa aos meus ouvidos...
Naqueles dias, eu sonhava com príncipes e palácios, como aqueles que via nos desenhos animado de Aladim e a Lâmpada Mágica. Também me recordava da música cantada naquele desenho animado:
As noites da Arábia
Os dias também
São sempre tão quentes
Mas faz com que a gente
Se sinta tão bem...
Sonhava com aqueles carros luxuosos na rua, de que tantos haviam me falado. Imaginava aquela casa de arquitetura européia, quartos amplos e um belo jardim florido em frente. Uma piscina no quintal, e é claro, um cachorrinho de orelhas caídas pulando agitado pela grama. A casa de que tanto havia sonhado, depois de morar em apartamentos por toda a minha vida, e que agora se tornaria realidade. A pergunta inevitável que todos faziam era:
- Vocês estão doidos? Vão lá pro meio da guerra?
Com paciência explicava:
- A Arábia e um país super seguro, a guerra está no Iraque, em Israel, na Palestina, não na Arábia Saudita. Existem várias bases americanas lá. Não é algo para se preocupar...
Alguns dias depois cheguei na sala e me deparei com a minha tia falando:
- Sua mãe acabou de ligar.
E como completando a frase, que minha tia não teve coragem de dizer, meu primo falou:
- Você vai ter que usar um vestido preto lá quando sair de casa...
- O que?! exclamava confusa.
- Sua mãe disse que as mulheres andam todas de preto, num vestido chamado de abaya, e algumas cobrem até os olhos. Não se preocupe você não precisa usar lenço nem cobrir a cara.- minha tia explicou-me.
- Eu não sabia disso! Eu pensei que só se devia andar com roupas mais discretas, mas não... e parei para imaginar a cena - Acho que é só na rua...
- Ela disse que nos condomínios não precisa, nem em alguns restaurantes.
Estava chocada, e não sabia como reagir. Tentei reagir da melhor forma possível dizendo:
- Bom, pelo menos deve ser algo prático de usar!
Mas fui vítima das zoações dos meus primos:
- Imagina Daniela toda de preto, só com a cara de fora! Hahahaha!
- Ei boa sorte lá pela Arábia viu! Hahahah!
Riam de quase cair da cadeira, pimenta nos olhos dos outros é refresco, não é mesmo? Controlava me por dentro, pois não gostava de quando riam da minha cara, principalmente quando o assunto era Arábia. Arábia Saudita era um assunto sério, e não apenas uma piada. Eu já tinha minhas próprias inseguranças, não precisava de mais! Tudo que alguém falava atingiam estas minhas inseguranças, aquele lado escuro, aquele medo que guardava dentro de mim de algo desconhecido e não fazia questão de mostrar a ninguém. Era melhor deixá-lo guardadinho lá dentro, era algo quase que inconsciente. Mas aquelas palavras tocavam lá neste tal lado escuro, e me deixavam em conflito comigo mesma, aumentando meu nível de insegurança...
Foram ligações atrás de ligações, um dia meus pais ligaram, e apesar de todo a competição, consegui falar com eles:
- Oi Dani, fomos na nossa casa hoje.- dizia minha mãe sem nenhum nó na garganta.
- Nossa casa?! Espera aí, você não ia escolher a casa com a gente?
- É por que o administrador disse que tinham poucas casas disponíveis e esta tem uma ótima localização!
- Mas você já se decidiu? Sem eu e a Rafaella ao menos ver?- Rafaella era minha irmã mais nova.
- Este é o melhor condomínio que tem e -
- Mas como é a casa ?- interrompi no meio de sua frase.
- Tem varias coisas no condomínio, e tem uma piscina bem grande lá.- minha mãe mudava de assunto.
- Mas como é a casa?! Tem jardim?
- Depois eu te digo... Você quer saber todos os detalhes!
- Mãe!
- Seu pai quer falar com você...
Eles estavam misteriosos, e aquilo me intrigava. Era como se estivessem escondendo algo de mim... Tanto minha mãe, quanto meu pai, evitavam falar sobre esta tal casa, deixando-me aflita. Entretanto, a mensagem foi facilmente capitada... Certamente aquela não era a casa dos meus sonhos...
Mais alguns poucos dias se passaram e finalmente meu último dia em Natal chegou. Dirigimo-nos ao aeroporto para voltar a Belo Horizonte. Com alguns abraços e beijos me despedi de todos. Menos minha tia, que estava indo comigo e a minha irmã para Belo Horizonte. Eu estava um pouco triste por aquela viagem ter chegado ao fim, mas ao mesmo tempo feliz, pois uma nova viagem, muito mais longa e emocionante que aquela, estava para começar brevemente.
Ao decolar do avião pensei de como seria emocionante a próxima vez que viesse a Natal. Poderia contar todas as minhas experiências e aventuras nas terras arábicas. Fiquei feliz com aquele pensamento, e com um sorriso maroto disse a mim mesma:
- Adeus Natal, te vejo próximo ano...
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