A Garganta da Serpente
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Parecia tudo uma brincadeira...
(Daniela Medeiros)

Sol, praia, diversão... Porém o assunto mais discutido durante todo o tempo que passei em Natal se chamava "Arábia Saudita". Dá pra acreditar? No começo eu ficava muito empolgada em falar da Arábia, e adorava participar das conversas e demonstrar meus conhecimentos sobre a terra desconhecida.

- Agora que minha filha vai pra esta terra, ela finalmente vai aprender a rezar, não é ?- questionava minha avó, muito religiosa.

- Mas parece que lá eles têm uma outra religião, é o Islamismo.- sorria a minha tia.

Eu que passava pela sala, fui incorporada a conversa.

- Dani, lá na Arábia eles não tem igrejas, não é mesmo? - minha tia perguntava confusa.

- Não, lá eles têm mesquitas onde rezam para o Deus que eles acreditam, Alá.

- E eles rezam muito não é? - perguntava a minha avó.

- E se rezam! Eles rezam cinco vezes ao dia! Ao amanhecer, ao meio dia, de tarde, no pôr do sol e a noite!

Na Arábia Saudita, como já disse, cada homem podia ter até quatro mulheres. Mas dizem que o rei, os príncipes, e os sheiks que tem por lá, poderiam ter quantas mulheres eles quisessem e pudessem sustentar. Mas se você acha difícil arrumar uma noiva pelo Brasil, te garanto que pela Arábia é bem mais complicado. O homem tem que "comprar" a sua mulher. Se não tiver dinheiro, mulher nem pensar! O procedimento é o seguinte, depois de uma seleta escolha de sua noiva, normalmente pela mãe do rapaz, o noivo pede-a em casamento ao seu pai, se todos estiverem de acordo eles se casam. O dinheiro é pago a esposa. Antigamente, antes do Islamismo e do Korão, o livro sagrado dos mulçumanos, o dinheiro era pago aos pais ou "guardiões" da noiva. Na Arábia não existe o costume de namorar, muito menos de "ficar", se quiser mulher tem que pagar e casar!

- Acho que lá pela Arábia eu consigo trocar a sua filha por alguns camelos, em Barão?- Barão era como meu pai chamava meu avô.

- Negócio é este de camelo! Troca é por umas BMWs!

- Se você quiser também levo Solange, "Dona Rita" e Sandra, acho que a gente arruma uma boa grana! E se nem isso for, pelo menos uns camelos a gente consegue!- "Dona Rita" era a minha avó, Solange e Sandra as minhas tias.

- E tu vai ter um harém lá é? Vê se arruma um harém pra mim também e despacha aqui pra Natal!- tudo parecia uma grande brincadeira...

Com o passar dos dias não agüentava mais ouvir as mesmas palavras repetidas na minha cabeça. Aquilo chegava até a me perturbar, e às vezes me fazia questionar a mim mesma, "Ah meu Deus! O que eu estou fazendo indo para a Arábia? É do outro lado do mundo! Será que eu não percebo isto! Minha vida será outra completamente diferente... Acorde deste mundo de ilusões menina e encare a realidade!" e as vezes até chegava a rever meus conceitos e refletir sobre os mistérios do universo, "Porque eu? De milhões de pessoas? Porque eu ? Talvez seja uma missão de vida... Talvez sorte, mas quem sabe , talvez destino... O tempo irá responder todas as minhas perguntas, mas afinal, o que é o tempo? Ontem já se foi e não o sinto mais... Amanhã quem sabe o que virá pra mim..."

Véspera de Natal já tinha se passado e aí veio Ano Novo. 2000-2001, a humanidade partia pra um novo milênio e ao mesmo tempo a minha vida ingressava em uma nova era. Novos horizontes se abriam a minha frente e o futuro já era bem mais incerto do que antes. Desconectei-me da realidade por alguns instantes e minha mente voava pelo céu até alcançar o topo do mundo. A Lua ficava cada vez maior e mais fascinante, como uma bela mulher grávida de cabelos dourados e pele cor de neve. Ela olhava para mim com aquele gentil olhar de mãe, confortando-me. Enquanto isso, eu era envolvida por uma paz interior que tomava conta de cada célula do meu corpo e que não há como descrever em palavras... No meio de tudo aquilo um raio de luz atingiu os meus olhos, era o Sol, que me atraiu como um imã para perto dele, e fui apenas levada pelos raios daquele ser luminoso e imponente, o rei de nossa galáxia. Logo a terra era apenas um ponto azul. No caminho me deparei com Vênus, que me deixou cega, cega de amor universal e incondicional... O calor do rei sol era cada vez mais forte, e quando não pude mais suportar, dei meia volta e logo já podia ver a Terra. Mas nem pensei em voltar à realidade, estava completamente fascinada pelas belezas do universo, apenas continuei em frente me deparando com Marte, o planeta que os homens querem tanto dominar e conquistar, mas que apenas me trouxe um desejo ainda maior de continuar em frente, em minha jornada pelo universo. Quando vi um gigante vermelho em minha frente, não tive duvidas, era Júpiter, me dando força e vontade de vencer. Logo vi Saturno, que como uma noiva, exibia orgulhosamente o seu valioso anel de noivado encantando os olhares alheios. Plutão era o último planeta, que tocou no lado sombrio do meu ser, tudo aquilo que estava adormecido em minhas profundezas...

Chegava às estrelas, e a via Láctea era apenas aquela estrada de leite do Universo... Quando não havia mais nada, a não ser a escuridão do infinito entrei em uma nebulosa de palavras, não só palavras, mas sentimentos... As palavras voavam pela poeira e se deparavam comigo frente a frente, como em um combate sem vencedores ou perdedores. Essas palavras penetravam o meu ser e por um momento eu as sentia dentro de mim. A FELICIDADE veio, e me deixou radiante, me fez esquecer todos os problemas que me perturbavam. O SONHO não demorou a chegar, me levando ainda para mais perto do infinito e mais longe da realidade. De longe vi a ILUSãO. Oh doce ilusão era aquela, que penetrou bem no meio de meu peito, e me deixou cega. Tão cega que o medo chegou e se apoderou do meu ser, me transportando de volta a Terra.

Mas afinal, o que é o medo? Talvez este tão tenebroso "medo", não seja apenas um obstáculo que é necessário enfrentar. Nesta hora aprendi que ter medo do desconhecido é normal, e lembrando de Ícaro, o menino das asas de cera, cuja ausência de medo o fez voar muito alto, percebi que ter medo pode até ser saudável... e ás vezes, essencial...

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