A Garganta da Serpente
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Antes do deserto... Mar
(Daniela Medeiros)

"The book is on the table..." E assim começavam minhas aulas de inglês poucos dias depois da grande notícia. "Quem tem boca vai a Roma", e eu diria mais, quem tem boca vai até à Arábia!

Até que sabia um pouco de inglês, mas quanto mais eu aprendesse melhor, mais fácil seria para mim. Comecei a levar estas aulas a sério, pra dizer a verdade, um pouco muito a sério... Deixava de sair com minhas amigas para estudar inglês. Se ainda me lembro uma hora e meia diária, sem contar nos deveres de casa. Mas não me empenhava porque meus pais me obrigavam ou coisa do tipo, eu fazia isto pensando no meu futuro. Achava que quanto mais eu estudasse mais chances teria de entrar na escola Americana, apesar de que às vezes o destino pode ser duro...

Não pensava mais no presente, e o passado já era inexistente. O futuro era tudo que existia, era tudo que eu vivia, respirava, sonhava e imaginava... Viver de passado é triste. Viver de futuro pode te levar além das nuvens, e aí o tombo é grande... O presente é o tempo certo de se viver. Se não, não existiria presente, só passado e futuro, e as vidas seriam apenas sonho, pura ilusão...

Meus pais, assim como eu, não tinham muita idéia de como era esta tal de Arábia. Então eles decidiram, já desde o começo, que iriam lá visitá-la, antes de irmos morar definitivamente, para fazer a decisão final "Ir ou não ir, eis a questão!". Na verdade, não era bem uma questão... Eles só queriam se familiarizar mais com o lugar e ter certeza que tudo estava ok, se tinha um bom lugar para se morar, e coisas deste tipo... Só que eles ainda não estavam certos de quando iriam fazer esta viagem...

Cerca de quase um mês depois, chegou a hora mais esperada do ano, férias! Mas de qualquer maneira não tive férias de minhas aulas de inglês. Como já disse morava em Belo Horizonte naquela época, mas os meus parentes estavam todos na terra em que eu nasci, Natal. Aquela era a época em que todo ano eu viajava para lá. Época de matar as saudades e rever a todos. Época de ir a praia e não se preocupar com nada, só sombra e água fresca...Colocando suas cabeças nos devidos lugares meus pais se decidiram:

"Nós podemos ir para a Arábia depois de passar por Natal!", meu pai se entusiasmava.

"Mas e as crianças?", interrompia minha mãe.

"Elas podiam voltar com Solange", Solange era a minha tia, que como o resto da família, morava em Natal.

Eu me intrometia na conversa e dava a minha opinião, "...ou podíamos ficar por lá, de férias por mais uns dias, não seria uma má idéia!"

"...e mais tarde voltar com sua tia para cá!", finalizou meu pai

Assim ficou decidido...

Mais alguns dias se passaram e o dia de ir pra Natal chegou... Já era véspera de Natal. É meio esquisito, mas eu estava indo pra Natal na véspera de Natal, passar o Natal em Natal, acho que você já entendeu... Este era sempre um dia feliz em todos os anos de minha vida, e aquele dia foi ainda mais feliz que qualquer outro. Desta vez todos aguardavam, mais do que nunca, ansiosamente pela nossa presença. Acho que éramos o tema principal de todas as conversas entre familiares e amigos durante as últimas semanas.

Malas prontas e rumo ao aeroporto fomos nós. Aeroporto cheio, gente por tudo quanto é lado, era alta temporada...Após algumas horas de espera no aeroporto embarcamos. Só me lembro depois quando o comandante disse:

"Senhoras e senhores, estamos nos preparando para o nosso pouso em Natal."

O avião descia, descia, e lá de cima o mundo era apenas uma miniatura. Tudo parecia tão calmo, como se todos vivessem em harmonia e não houvesse problemas ou tristezas neste mundo. Em pouco tempo aterrissamos...

Sempre me dá raiva quando estou em um avião e o comandante, ou sei lá quem for que fale no microfone, diz, "Obrigado por escolher a nossa companhia." Pois a grande maioria de pessoas que pega um vôo não escolhe a companhia, pega a que tem vaga! Principalmente em alta temporada, quando as pessoas batalham entre si para conseguir seu lugar e um pouco de diversão. Férias é tempo em que todos querem se divertir, descansar, badalar, sair um pouco da rotina... E acaba pegando qualquer companhia aérea, pois isto é o que menos importa.

De qualquer maneira descemos do avião e o sol estava tão forte que meus olhos se fechavam em protesto à claridade, mas ainda conseguia ver minhas tias e primos acenando de uma janela onde as pessoas olham os aviões. Meu espírito subiu! Lá estava eu em Natal mais uma vez! Pegamos nossas malas e saímos, tinha uma multidão de gente e entre gritos, sorrisos e abraços lá estavam meus primos, avós, tias... Toda a galera reunida. Cumprimentei a todos com um verdadeiro sorriso nos lábios. Não como aqueles sorrisos falsos que as pessoas criam quando não querem passar por mal educadas ou coisas assim. Era um sorriso natural, mais do que um movimento de músculos, mas também o retrato de um sentimento chamado felicidade. Pouco depois, todos começavam as conversas e perguntas sobre a Arábia, e seria assim a viagem inteira:

"Vê se você arranja um príncipe lá pra se casar, e aí me mande um convite do seu casamento já com uma passagem de avião dentro pois não quero perder a festa !", ria meu primo.

"E arruma um príncipe lá pra mim também!", completava minha prima.

"Você vai pra muito longe, minha filha, não quer ficar aqui com seus avós não?", sugestionava minha avó em tom de brincadeira.

Em toda aquela empolgação me sentia especial e importante ao mesmo tempo... "A menina que vai morar na Arábia" seria as palavras mais usadas para se referir a mim, e um dia ainda seria, "a menina que morou na Arábia"...

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