| Daniela Medeiros |
  |
Perdida nas Noites árabes
(Daniela Medeiros)
Naquela noite fui dormir com a cabeça distante... As estrelas, que ainda podia ver pela janela do meu quarto, já não pareciam tão longe. O mundo não era mais o mesmo aos meus olhos. Minha mente atravessava o oceano e eu sonhava com este misterioso mundo árabe. Dançarinas dançavam a famosa dança do ventre, camelos atravessavam o deserto e beduínos passavam a noite contemplando o infinito. A lua cheia saudava as estrelas que dançavam em sua coreografia de cores. E no meio de tudo isto lá estava eu, perdida nas noites árabes...
Quando o dia clareou, e o sol já estava um pouco acima do horizonte, acordei. Não conseguia acreditar no que houvera acontecido nas últimas horas de minha vida. Seria tudo sido um sonho? me perguntava, mas não era, disto eu sabia, apesar de tentar me convencer do contrário. Não que estivesse triste ou nada, estava muito feliz, tanto que naquele dia não demorei muito a levantar da cama. Fui à cozinha falar com a nossa empregada sobre as notícias, mas ela já tinha sido bem informada. Bastou eu chegar lá, com um sorriso maroto, para ela dizer.
Está chique, indo pra a Arábia, menina! Eu quero ir também!
Eu sei! Não é demais? Nem posso esperar pra chegar logo lá! Tenho que ligar pra minhas amigas pra contar a novidade!, afobava-me em minha inocência.
Corri para o telefone e me tranquei em meu quarto. Alô? A Alice está?
Oi Dani! Sou eu... Nossa! Você já está acordada esta hora do dia?, ela sabia muito bem que eu não era de acordar cedo.
Você não vai acreditar no que eu vou ter contar! É muito! É maluco! Eu não estou brincando! É sério!, não conseguia controlar minha euforia.
Calma, calma! Acho que a lua ainda não despencou do céu, e o sol está lá também!
Não perdi tempo e fui direto ao assunto, Acho que o que eu tenho pra te falar é mais emocionante do que isto! Adivinha aonde eu vou morar? Letra A, Japão. Letra B, Rússia. Letra C, Arábia Saudita. Letra D, Florida?,
Que?! Você não ia morar no Rio de Janeiro? Você está doida ou está brincando comigo?, ela perguntava confusamente.
IA é passado! O futuro é sempre incerto! Agora adivinha!!!
Florida?
Não!
Rússia?!
Não!
Japão?!
Não!!!
Eu não acredito!, Alice exclamava.
É isto mesmo! Arábia Saudita!
Ah meu deus do céu!
Alguns dias depois contei a novidade para todos que conhecia; professores, amigos, colegas... Todos se recusavam a acreditar de primeira, mas viam em meus olhos que eu dizia a verdade, por mais absurda que fosse, era a verdade.
O tempo ia passando e eu ia aprendendo mais sobre a Arábia Saudita. Lá moravam cerca de 50,000 americanos e 25,000 europeus. A taxa de homicídios era baixíssima, cerca de 100 por ano. Isto era o resultado de uma lei severa, que impunha pena de morte a vários crimes como este. Quem era pego roubando poderia dar bye-bye a sua mão direita. Era meio que olho por olho, dente por dente. Por um lado estas leis podem funcionar, prevenindo as pessoas de matarem e agirem violentamente, mas por um outro, elas não me parecem tão justas. Será que é justo tirar a vida de qualquer pessoa na face desta terra? Julgar uma pessoa e puni-la com sentença de morte? E se a pessoa fosse inocente? Teria que pagar com sua própria vida pelos erros dos outros e por um mau julgamento?
Também comecei a aprender mais sobre a cultura e a religião do país. Cada homem teria direito a ter até no máximo quatro mulheres, dependendo de quantas ele poderia sustentar. Mas ao contrário dos homens, cada mulher só poderia ter um marido. Ouvi falar que isto acontece porque antigamente tinha mais mulheres do que homens pelo Oriente Médio, pois muitos homens morriam nas guerras. Como já disse a religião na Arábia é o Islamismo. Dentro do Islamismo existem os Cinco Pilares que todo mulçumano deve seguir, elas são: aceitar e proclamar que Alá é o único deus e que Mohamed é o seu profeta, rezar cinco vezes ao dia, ajudar os menos favorecidos, jejuar durante o mês de Ramadan, e fazer a famosa haji ou peregrinação à Meca pelo menos uma vez na vida, se possível.
Mergulhava naquele mundo árabe de conhecimento sem medo de me afogar. Enfrentava todas as ondas, e apesar de ser ocasionalmente vencida pela força da correnteza, seguia em frente. O medo de ser atacada por um tubarão ou sufocada por um tornado de água era sempre presente comigo, mas era um medo amenizado pela vontade de seguir em frente e chegar à ilha desconhecida.
Só conheces do fruto quem já o comeu. Não adianta perguntar o sabor às pessoas se nunca o provaste, pois o gosto da fruta nunca pode ser descrito com palavras...
521 visitas desde 10/08/2005
|