| Daniela Medeiros |
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E a palavra-chave era...
(Daniela Medeiros)
Arábia Saudita... Para ser mais exato, Riyadh, a capital da Arábia Saudita, seria o nosso próximo destino. Como poderia ir para um lugar tão longe e inesperado de repente? Este é o tipo de coisa que você acha que nunca, em hipótese alguma, poderia acontecer com você. A probabilidade é a mesma de ganhar na loteria! Nesta nunca ganhei, mas agora já não duvido de mais nada neste mundo... É como se alguém pegasse as minhas roupas, virassem-nas pelo avesso e me dissesse que de agora em diante eu só poderia usá-las assim... Beliscava-me tentando acordar daquele pesadelo tão terrível, mas aquilo me causava dor, e assim comprovando que tudo não era apenas um sonho surreal em uma outra dimensão, nós estávamos realmente no plano físico e aquilo era um pesadelo mais do que real, o que me assustava....
Com a intenção de me acalmar meu pai dizia, "Não, a Arábia não é só deserto, é um país como outro qualquer! Lá existem shoppings modernos, prédios e tudo que uma cidade grande tem..." Sendo verdade ou não, naquele momento nada disso importava, pois estávamos falando do meu destino, do meu futuro, e a idéia de passar os próximos anos da minha vida no outro lado do mundo, não me animava nem um pouco, só me trazia, medo, aflição e tristeza...
"Mas que língua que o povo fala lá, árabe?" me perguntava. De inglês eu já sabia pouco, quanto mais de árabe! Aí me veio um ponto de exclamação na cabeça, daqueles que da até um frio na barriga, afinal onde eu iria estudar? Numa escola americana? Oops... Oh no... eu inglês não era lá essas coisas. Não hesitei nem um segundo em perguntar, "Mas o povo fala árabe lá, como é que eu vou me comunicar? E além do mais onde eu vou estudar? Numa escola americana? Ah meu deus!", e as lágrimas vieram de novo ao meu rosto em protesto e desespero... Minha mãe tentava me animar com algumas palavras.
"Não tem problema, Daniela! Todo mundo, além de falar árabe, também fala inglês. Não é que nem aqui no Brasil, que se você não falar português não consegue nem um copo d'água!"
Meu pai falava como se não houvesse o menor problema. "A gente vai colocar uma professora particular de inglês pra você e assim até a hora de ir chegar, seu inglês já vai ter melhorado bastante! Sem contar que você vai ter a oportunidade de fazer um intercâmbio com a gente. Você vai ter a oportunidade que muita gente não tem, a de aprender inglês ao lado de seus pais. E isso vai ser importantíssimo quando você entrar no mercado de trabalho!"
Não tem problema?! Eles estavam pensando que eu era o que? Um computador no qual você coloca um cd-rom e ensina como falar inglês? Eu sou uma pessoa e levo tempo pra aprender estas coisas. Mas por um outro lado eles até que tinham um pouco de razão. Apesar de ter naquela época apenas 13 anos, num dia da minha vida eu precisaria deste tão "precioso e falado inglês". Mas mesmo assim! As pessoas fazem intercâmbio para os Estados Unidos, para a Inglaterra, mas não para a Arábia Saudita! Eu não tinha muita escolha...
Depois que nos acalmamos, meus pais faziam de tudo pra tentar fazer-nos aceitar a idéia de ir morar em um país tão diferente e distante. Tudo bem que eles só falavam, e ainda exageradamente, das coisas boas que existiam na Arábia. Meu pai começava dizendo, "Na Arábia a segurança é excepcional! E se nós formos viver lá, não iremos morar em uma casa ou apartamento qualquer, pois existem inúmeros condomínios com toda uma infra-estrutura excelente para expatriados..." Quanto mais ele falava, menos assustada e mais calma eu ficava... Mas a insegurança ainda era sempre presente comigo. E quem não estaria inseguro? Atravessando o oceano para ir viver num país que não é onde você nasceu e cresceu e que nada você sabe sobre o estilo de vida, o povo e assim por diante... Eram tantas as perguntas que vagavam pela minha mente que eu nem sabia por onde começar... Então resolvi colocar minha cabeça em ordem e começar por algum lugar.
"Mas lá eles têm uma outra religião, não é? "
"É, a religião deles é o Islamismo. Mas não tem problema, pois como já te disse a gente vai viver em um condomínio, um grande condomínio, com pessoas de todos os lados e cantos do mundo, imagina você tendo uma amiga da China, outra da França, outra da Espanha, quem sabe até uma aqui do Brasil?" falava meu pai com um novo brilho nos olhos, um brilho esperançoso e levado ao mesmo tempo.
Foi aí que comecei a pensar diferente. Dizia a mim mesma "Talvez não seria tão ruim ir morar neste misterioso país... Eu conheceria pessoas de várias nacionalidades diferentes, que assim como eu, estariam lá contra suas vontades, tanto na escola como no condomínio. Eu aprenderia sobre uma nova cultura e desvendaria os mistérios de um novo mundo, tão desconhecido a maioria de nós que vivemos aqui no Ocidente" E continuava a pensar comigo mesma e alegrar o meu espírito, "Quem sabe tudo não fosse tão ruim como eu pensava... E brasileiros estão em todos os lugares, em todos os cantos do mundo. Provavelmente eu encontraria vários lá, na mesma situação que eu... Quem sabe... Ninguém sabe... Só Deus..."
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