A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Deponho As Armas

(Sarah D.A. Lynch)

Na sala de estar, outra vez brinquedos se espalham pelo chão e pelos móveis. Livros de figurinhas coloridas cobrem a mesa do telefone e o aparador.

Sentados sob a enorme árvore de Natal iluminada, Tyler e Zachary, meus dois netinhos, brincam de legos. No sofá, com as pernas cruzadas, minha filha Suzi observa a cena, atenta.

Há 25 anos atrás, no Natal de 1985, meus três filhos mais velhos foram sequestrados pelo infame grupo gnóstico-cristão A Família Internacional, ou Meninos de Deus, desaparecendo no Oriente.

Quando seus irmãos fugiram do grupo doze anos mais tarde, em julho de 1997, minha Suzi ficara para trás, por ser menor de idade. Então, apesar da alegria de ter meus dois meninos de volta, a luta continuara.

Hoje sou apenas uma névoa esparsa do que fui. O cansaço de todos os anos de batalha me tiraram quase tudo, restando de mim apenas um esboço esmaecido.

Esta sou eu, ao pé da escada. Olheiras fundas e braços enfraquecidos. Pés que tropeçam em cada saliência do chão. Olhos enevoados pelos anos de estudos, pesquisas, trabalho, e aquela busca aparentemente sem fim.

Há quem se ria de mim, chamando-me nomes, fazendo chacota de meus pensamentos esparços e muitas vezes desconectados, lançando-me desaforos e ataques. Leio suas palavras sardônicas e pondero...

Que mundo é este, no qual os guerreiros e guerreiras vencedores são ridicularizados e desprezados porque não são mais fortes e invencíveis? Que mundo é este, onde a força e a arrogância são mais desejáveis e apreciadas do que a vitória contra o mal?

E de repente entendo.

Levanto a cabeça e observo a cena na sala de estar. Que riam-se os escarnecedores. Neste Natal, o Infinito comemora comigo em cada luz colorida, em cada cântico, em cada presépio.

Neste Natal, descubro dentro de mim que finalmente posso aceitar o presente daquele bebê deitado na palha de uma mangedoura.

Porque neste Natal de 2010, sob a chacota dos cegos, ele se tornou meu irmão.

Deponho as armas. Nós vencemos, Yashuah.

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