| Cynthia Oliveira |
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OK! Muito obrigado(a)!
(Cynthia Oliveira)
As crianças agradecem a oportunidade de estar por ali, soltas no mundo,
sem pais ou mães ou casas ou camas ou. Mas elas agradecem a oportunidade
de estar ali, pois poderiam não estar, então agradecem; mesmo
sem o afago de mãos carinhosas a lhes dizer do amor, sem a comida certinha
a lhes dizer do alimento, sem o cobertor necessário a lhes dizer do calor,
mesmo sem tudo isso elas agradecem a oportunidade. Estão ali, não
estão? Estão vivas e por isso agradecem.
Moram nas ruas sombrias e repletas de monstros que aparecem e devoram-nas na
consciência e na vontade, mas obrigam-nas ao fiel cumprimento do ato de
gratidão por estarem ali. Às vezes, essas crianças vendem
flores ou balas ou sorrisos aos transeuntes ou aos motoristas, e o dinheiro
é entregue a adultos que as obrigam a estarem ali e, ainda, a agradecer
por estarem ali.
Não tem bonecas, brinquedos, pipas, carrinhos ou carinhos, mas agradecem
e sabem que é preciso, porque assim foram ensinadas, a dizer amém
e amém. Não sabem quem são, mas são gratas pela
oportunidade de serem quem não sabem ser. Não tem um presente,
e o passado é coisa de história contada em dias de embriaguez
dos mais velhos desejosos de se gabar de terem vivido tanto; mas futuro, futuro
mesmo, é algo muito estranho, afinal, caramba, o que é futuro
para elas?
E se escola e educação e direitos e deveres são palavras
de outras gentes, e se essas outras gentes mal conhecem a sua realidade, por
que, raios, tais crianças devem ter piedade com essas outras gentes?
Por que essas crianças devem poupar a dor dessas outras gentes? Por que
devem agradecer tanto? E algumas vezes essas crianças se revoltam e ficam
com uma imensa ira, com uma vontade imensa de mandar todo mundo para... e cheiram
a cola, e domam as dores, mas findo o dia da rebeldia, elas agradecem pelo resto
de cola que ainda há para ser cheirada.
Ensinaram isso a essas crianças. E elas agradecem, afinal, poderiam
não estar por ali, não é? Por isso agradecem.
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