A Garganta da Serpente
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Sentimento de Amar
(Cult_Art)

Apetece-me escrever hoje uma carta diferente das outras. Não sobre alguém, mas sobre o que eu penso e sinto de amar.

Quero escrever sobre o que me vai na alma. Sem primeiras, nem segundas, nem terceiras intenções. Escrever sobre algo que é tão ilógico como tão difícil de classificar.

A primeira vez que me apercebi do amor foi precisamente quando senti a sua ausência. Era ainda criança, ainda antes de entrar na escola. Estava no hospital porque tinha partido o braço, a perna e o dedo grande da mão. A tristeza que senti e ainda hoje me lembro assaltou-me no momento em que a minha mãe após terminar o período de visitas me abandonou a chorar, devido também ao meu choro de não querer ficar sozinho naquele quarto branco enorme, e que tinha aquele odor tão peculiar.

Nunca mais me esqueci desse dia, especialmente de toda a solidão e abandono que uma noite pode conter. Os estranhos barulhos no corredor e as senhoras velhas vestidas de branco, que apareciam de vez em quando a porem as suas mãos sobre a minha testa e a perguntarem, numa doce mas estranha voz, se estava tudo bem. São coisas que não se esquecem.

O amor pelos meus pais e irmãos é implícito. É o primeiro. É um amor muito forte e simples. A minha mãe, ou uma mãe, o que quer? Que o filho ou a filha esteja bem. Mais nada. Por muito longe que esteja; por muitas saudades que tenha.

Queremos que sejam felizes, nem que seja à custa da nossa tristeza. Estar triste por causa de quem se ama (porque não a vemos, porque pensamos que não nos ama) é melhor que ser feliz, isto porque sentimos o que nos une a ela, que nos eleva e nos redime.

O que mais traduz o amor verdadeiro não é o arrebatamento, a falta de apetite, o desejo... é a passagem do "eu" para segundo plano. O plano é "segundo" porque o primeiro está sublimemente ocupado. Amar é estar tão perto do topo da escadaria como se pode estar, com a pessoa a ocupar o primeiro degrau; à vista, no sítio onde se quer, separado mas perto.

O amor é preocupação. Ter medo que alguma coisa de mal aconteça à pessoa amada. Sofrer mais por não poder aliviar o sofrimento da pessoa amada, mais do que ela própria sofre. O que se quer da pessoa amada, antes que ela nos ame também, é que ela seja feliz, que seja saudável, que tudo lhe corra bem. Embora se saiba que o mundo não o permite, passa-se por cima da realidade e espera-se que no caso dela se abra uma excepção.

Uma paixão pode parecer mais interessante mas irrita-me que se compare com o amor. Como se podem comparar dois sentimentos que não têm uma única semelhança? Se o amor e a paixão coincidem, é como a cor do céu e do mar a tocarem-se no horizonte num dia de Verão. É uma alegria, mas nada nos diz acerca do que distingue o ar da água.

Dizer que o amor pode começar como paixão é dizer que ele é um resíduo da paixão, uma consequência menos alterosa mas mais profunda, menos excitante mas mais eterna. Não é completamente verdade.

O amor começa pelo amor. É o céu. O céu foi criado primeiro... a paixão é um simples impulso físico, material, mensurável e explicável por todas as ciências da atracção. Digamos que é o mar. O mar está mais perto de nós, podemos chegar no fundo dele. A diferença entre o amor e a paixão é como a diferença entre a cosmologia e a oceanografia. O mar tem fim. O céu não tem limite. O céu é dos astrólogos e dos poetas que sabem que hão-de morrer sem percebe-lo. O mar é dos cientistas e dos observadores que podem passar a vida dentro dele, sabendo que é finito e perceptível.

O céu é para a minha alma, tal como o mar é para o meu corpo. Quando entro no mar sou envolvido pela momentânea alegria das suas carícias húmidas e molhadas no meu corpo. Mas nessa satisfação olho para cima e está lá tudo o que desejo...o céu.

Diz-se que o amor é brando, sem compreender a sua violência. Impõe-se a tudo, subjuga-nos. Arruma a paixão em três instantes. Na paixão subsiste sempre o "eu". "Eu", a primeira, "tu" a segunda e a terceira é o divino. O "eu" no amor é sempre segundo.

Não é uma questão de tempo, nem de intensidade, é uma questão de natureza. A paixão, tal como todas as atracções, é exterior; o amor é interior, vive e reside dentro de nós até morrer. No fundo, o amor tem pouco a haver com a presença, com a convivência, com o tempo e as experiências pelas quais passamos. É quando se está sozinho e longe que o amor se deixa ver mais claramente.

A vida (as condições, o tempo, a confluência) nem sempre se adequa ao amor, como se adequa aos sentimentos mais comuns (a amizade, paixão, ao instinto comunitário). Mas se a vida serve para alguma coisa, que não seja para viver, que seja para amar. O amor é um dom porque fazendo-nos sentir pequeninos e dependentes afasta-nos de nós próprios e do mundo, mas aproxima-nos da nossa alma, no que tem de bom e dá razão para viver.

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Sentimento de Amar

 

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