| Costa Abrahão |
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HEMATIDROSE
(Costa Abrahão)
"(...)
Os meus males ninguém mos adivinha ...
A minha Dor não fala, anda sozinha ...
Dissesse ela o que sente! Ai quem me dera! ...
(...)"
Florbela Espanca - Impossível - Livro de Mágoas
Há muitos cachorros pelas noturnas ruas de saibro da ilha. Sobretudo
nesta noite. Choveu. Os manacás, damas da noite, lírios e copos
de leite em úmido e unodorífero espírito, celebram uma
lua tão intensamente cheia, que só aqui se vê. Nas noites
assim, os cachorros entoam seus Te Deum.
Há muitos cachorros pelas noturnas ruas de saibro da ilha. Há
mesmo durante o dia, porém dormitam todo o mormaço de fundo de
baía. Somente bem tarde da noite é que as ruas se lhes abrem a
vida. Em latas de lixo, em correrias sem fim, em sôfrego cheirar de cus,
em brinquedos variados, em espantar gatos (estes, também muitos, hoje
não cantam raul, raul, que hoje é dia de cachorro).
Há muitos cachorros pelas noturnas ruas de saibro da ilha e, na noite
fresca, passeiam seus cios jactando-se na cara dos domésticos. Os da
rua trepam, os domésticos derramam seu tesão sobre os muros enlajotados
das casas dos ilhéus.
Há muitos cachorros pelas noturnas ruas de saibro da ilha. As ruas que
separam estes dos daquele jaez doméstico, coitados. Há um casal
de poodles isolados pela eternidade dos metros finitos que separam as calçadas.
Olho os poodles em seus patronatos. Tão branquinhos, tão diferentes
daquela patuscada. Tão infelizes. Sou quase como os poodles, porém
não sou um canídeo porque transpiro. Eles, nem isso.
Em desconsolo, meu sudoríparo sangue é o flamboyant nos primeiros
clarões da alvorada: orvalha manso a tua ausência em mim.
Já não há tantos cachorros assim, visíveis, pelas
amanhecidas ruas da ilha e meu suor despetalou-se em manchas vermelhas sobre
o saibro.
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