A Garganta da Serpente
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Conrad Rose fale com o autor

O C.R.M. do doutor Marcelo
(Conrad Rose)

Tudo tem limite. Ou deveria.

Morando em São Paulo, troquei noites de samba na Lapa e de choro dos outros no Maracanã pelo aconchego duma casa de vila. A distância da orla contribuiu para minha reclusão e confesso que me atrevi com a TV muito além do meu habitual - futebol e Simpsons.

Bizarrices e algumas coisas interessantes ocorreram nesta minha efêmera relação com o eletro. Faço questão de narrá-las na retomada deste espaço.

Vi e revi um monte de trechos de filmes em canais pagos. Fragmentei, nos meus horários, de obras descartáveis a clássicas. Raros alcancei de créditos a créditos. E este é o termo. O que mais li, foram créditos. O que mais ouvi(?), trilhas sonoras.

Seriados também. Descobri que alguns têm, inclusive, mais de um núcleo com o mesmo formato em ambientes replicados. Departamentos policiais, hospitais e casas de norte-americanos de leste a oeste. Um festival de verbetes e piadas extremamente mal legendadas e adequadas ao politicamente correto da nova censura. Boas atuações e elaborados enredos acontecem, nem sempre no mesmo canal e horário.

Aprendi como vivem as matriarcais hienas ou como o homem chegou ao Pólo Sul. Umas peculiaridades da acupuntura, da shantalla e da urinoterapia. Lugares e tempos distantes. Personagens imortais. Ainda: guerras, impérios, invenções, massacres, credos, conquistas, pouco disso, outro tanto daquilo. Tudo visto do lado A, oficial, do vencedor e, portanto, lei. Eis os canais educativos que se não servem de todo, imunizam do que há-de vir.

O jornal impresso que eu lia no decorrer do dia e as notícias via rádio, eliminei. Fiquei absorvendo o universo dos telejornais no mais amplo aspecto, do maior ao pior investimento. Enchentes, encrencas no transporte, discursos executivos e legislativos, comentaristas destes, resenhas esportivas, casos bisonhos, histórias tristes, iniciativas longínquas de cooperativismo, tricô e muito lero. A maior evolução que percebi foi no serviço meteorológico.

Os esportivos eu já habituava. E gosto de dormir ouvindo - apenas! - uma partida de tênis ou vendo a tela duplicar na briga contra o sono durante um replay d´alguma vitória do Flamengo que, claro, eu já assistira em tempo real.

Os infantis eu pulei.

Perdi momentos com leilões pecuários e até com uma egípcia implorando telefonemas num caça-palavras idiota, dizendo-se abandonada pelos interlocutores e abusando de caras e bocas. Quase liguei. Desisti e fui ao quintal regar as plantas.

Novela é novela. Filhos perdidos. Reencontros. Desfechos previsíveis de acordo com a moral e os bons costumes. Um festival de cenas empacotadas. E a culpa não é do autor, definitivamente, porque é massacrante escrever duzentas laudas por semana, nunca com uma margem maior que um mês e remodelar de acordo com pesquisas de opinião, continuamente, por três quartos de ano. Desgasta naturalmente a obra e a única solução é usufruir da literatice modular. Ou você nunca presenciou o aclamado Manoel Carlos repetir falas em suas Helenas?!

Salto pros apelos anti-ostracismo de figuras que um dia estiveram em evidência e hoje freqüentam programas de auditório e enfrentam até polígrafo para tapar o rombo no baú. Os mais recentes buscam vender um ensaio fotográfico, engajar um lance qualquer no teatro, no cinema, na TV ou na publicidade.

Para não ter por onde piorar, tem aquele que não larga o ursinho.

Há ainda, nas tardes de alguns canais abertos, uma coisa que chamam de vida de verdade. São famílias em desespero de causa, por qualquer cachê, com pessoas nas mais variadas excentricidades comportamentais, bancando fantoches ou implorando um bocado de atenção por desesperador motivo ou conseqüência. Detetives fajutos. Situações forjadas. Vocabulário medíocre. Postura duvidosa. Bate-boca. Generalização e repetição diária da dose. Uma fábrica de intrigas imbecis.

Aí eu estava atingindo o ponto que eu almejava: a degradação humana via satélite. Imaginei ter alcançado o auge do pitoresco, pois tudo que se expunha de mais enfadonho na TV aberta e fechada de hoje, eu havia acompanhado por alguns minutos, investigado, extraído algo e deletado a maioria que nem isso era.

Mas o mundo é o lugar do fantástico e o Big Brother me apresentou - de toda a experimentação - o maior gânglio. Um psiquiatra. Depois, eu soube que ainda não o seja, embora médico formado. Eis aí o citado Marcelo. Nenhum canal de comunicação me propiciou tamanha aberração.

E como na hierarquia da vida não cabe a mim julgar qualquer ação ou reação que não seja minha, apenas deixo uma sugestão e um questionamento.

Na ficção, pela qual a TV pode atingir a arte, sugiro ao distinto um estágio no Scrubs.

No mundo palpável, indago: você entregaria um ente querido aos cuidados do Doutor Marcelo num momento de urgência?

Sorte que o mundo é abundantemente maior que a TV. E ainda bem que a TV não tem cheiro.

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