| Clevane Pessoa de Araújo Lopes |
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Para sermos nós mesmos
(Clevane Pessoa)
Temos que aprender a reedificar nossas edificações interiores,
que muitos tentam destruir. Dentro de nós, nos vem um instrumento belo
e forte que se chama intuição. Caímos num mundo feito muito,
muito tempo antes de nós, e ele está cheio de dogmas, leis, normas
e preceitos, conceitos e preconceitos. Necessidades que nos afastam de nós
mesmos. Crianças costumam acreditar - e uma de nossas maiores "conquistas"
apreendidas do mundo externo é desacreditar no outro, desconfiar de quem
nos cerca. Como nos enganam, quando nos fazem esquecer a criança dentro
de nós...
Se estamos a caminhar apressados e nos perguntam as horas, levamos um susto,
a carga adicional de adrenalina no sangue, a taquicardia paroxística,
traduzidas do medo que hoje sentimos de outros humanos, é muito triste.
Claro, há motivos: assaltos, arrastões, seqüestros relâmpagos
e demorados. Numa capital, por exemplo, não se fica a conversar na porta
de casa, não se cumprimenta quem por nós passa muito depressa,
tão depressa quanto nós também passamos pelos outros. Nas
praças, caminha-se, corre-se, sem sequer olhar para os lados. Às
vezes, um cãozinho na coleira nos proporciona um dedo de prosa. Não
são contados "causos".
Aquele que morre, é um entre dezenas. O que nasce, na Maternidade, já
terá a companhia de outras pessoazinhas nos berçários.
Não somos mais "o" alguém... O filho de seu fulano,
o neto do velho beltrano. Passamos a ser " um". Um médico,
um carteiro, uma advogada, mais um, mais uma.
Kierkegaard,em 1850, já chamava a atenção para o fato
de que um indivíduo será sempre superior à sua espécie
vista como um todo.
A nossa individualidade é que nos torna singulares. Claro, a adaptabilidade
é um exercício: sofre menos, quem se adeqüa ao necessário.
Mas não precisamos ser quais animaizinhos amestrados, aquele que se curva
ao mestre, ao dono, ao chefe, a patrão, a ponto de perder-se de si, nem
adestrados, aqueles que renunciam aos seus próprios ideais e filosofia
de vida, à sua maneira de ser, para não perder um emprego, um
status, um casamento sem amor, mas que traz benefícios pecuniários,
por exemplo.
Há um tempo, na vida, em que precisamos, sim, ser alunos e ter mestres.
Somos filhos a quem os pais ensinam. Temos de respeitar os que vieram antes,
os que já estudaram mais, os mais sábios, instrutores de fé,
de crenças. Mas nem estes têm direito de nos subjugar, amordaçar,
calar.
Respeitar alguém não significa ser-lhe subserviente. O brio de
ser, o brilho da individualidade, somente lustra nossa personalidade.
Quantos, para agradar a companheiros conjugais, amantes e namorados, não
raras vezes, amigos, anulam-se, desconstroem-se, desinstalam-se de seus melhores
traços? Renunciam a suas metas, a seus dons, a seus talentos.
Somente deveremos exercer profissões que nos atraiam, nas quais nos
sintamos realizados e felizes.
A propósito: há algo de mal na felicidade? Quantas pessoas acreditam-se
não merecedores da felicidade plena? Pois saibam que a busca da ventura
é o primeiro dever do seres humanos.
Quando, em outubro, fui ao CLESI, em Ipatinga, MG, receber a antologia Prosa
Gerais e o troféu de segundo lugar por "O balão Amarelo",
conheci, na van do Resort San Diego, que nos levava ao auditório da USICULTURA,
um jovem e talentosos poeta e contista.
Conversa vai, conversa vem, ele contou que morava em Juiz de Fora (onde morei),
que era belorizontino (onde agora resido). E, pasmem (eu não!), deixou
o cursos de Medicina, para ser... Poeta.
Adorei conhecer tal força, tal auto-respeito, em alguém ainda
longe dos trinta anos anos. Ele subiu ao palco três vezes. Certamente
as palmas, para os conhecedores, como eu, dessa escolha maravilhosa, tinham
um sentido muito maior.
Sim, às vezes, é belo renunciar. Mas por uns tempos, por favor!
Como viver longe de si mesmo, da pessoa que você veio destinada a ser?
É preciso adquirir a habilidade de estabelecer espaços, hiatos
de temporalidade, momentos de generosidade em prol do outro. Isso é belo.
Mas assim que puder, rasgue os ombros e deixe que dos cortes, nasçam
asas. E voe, sendo você mesmo...
Há quase três décadas, escrevi:
"A liberdade de ser
É o espaço do ser,
Dentro do estar, para fazer-se."
Eu própria, embora não divorciada da Literatura, nem dissociada
de minha essência poética,p ara responder às necessidades
de ser companheira e mãe, deixei por uns tempos,paralela a tudo mais,
a minha vocação de escrever.
Assim que pude, no entanto, retomei as hastes de minhas flâmulas, redesenhei
os brasões de meu ideal e voltei ao meu fazer de escritora, amante das
palavras, sacerdotisa do verbo.
E jamais escrevi tanto: eu , de mim, aqui estou, militante por mim mesma, pelo
meu modo de ser- estar no mundo...
O sentido da Vida, é simples:viver. Mas não se traia, nem se
esqueça. Lembre-se de você, fruto de si mesmo. Lembre-se sempre
de ser único. Você...
Com os melhores votos de feliz e consciente Ano Novo. Sempre é tempo
de mudar, quando é preciso. Mude para melhor. Você tem esse direito.
Todos nós temos: o direito de sermos nós mesmos.
(28/12/2006)
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Publicado em: 16/07/2008 |
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