A Garganta da Serpente
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A bola de cristal
(Cissa de Oliveira)

Confesso: sou bastante cética. Ou, para não contrariar o dicionário: céptica. Não confundir com séptica, por favor. Mas ser cética, pra mim, diz apenas isso: ser cética. Não determina ou expande questões filosóficas. Aliás, pode-se ser tão cético a ponto de não se acreditar nem no próprio ceticismo.

Com a aproximação do Dia Internacional da Mulher eu fiquei pensando sobre o que escrever em comemoração à data. Quanto à data em si, acho mesmo que ela não deveria existir. Se o problema é comércio, já não chega o dia das crianças, páscoa, natal e o dia dos namorados? Assim, daqui a pouco é possível que tenhamos o "dia do ser humano". Esquecendo o comércio, imagino que isso quererá dizer que teremos descido tanto nas questões humanas que precisaremos ser lembrados do fato de que somos humanos, morríveis. Mas voltando à comemoração, escolhi falar sobre a questão do famoso "sexto sentido" atribuído às pessoas do sexo feminino.

Dizem que as mulheres têm o sexto sentido apurado. Sou cética quanto a isso também. Parece que não há comprovações. Aposto que é uma teoria inventada por algum homem.Veja que para o homem o dito sexto sentido das pessoas do sexo feminino traria muitas vantagens: a mulher adivinharia o que ele pensa, o que ele sente e até o que ele ia falar mas não precisou porque afinal ela intuiu! Não é à toa que o vocabulário feminino é infinitamente mais rico do que o masculino. É como se para eles bastasse a bola de cristal que toda mulher tem, uma coisa tão instigante (como as lendas, extremo do ceticismo) que ninguém até hoje sabe onde ela guardaria a tal bola. Se ela seria guardada nos bolsos, acima do hipotálamo, no coração ou entre as asas, que importa?

Pausa para indagação infame: será que foi daí que surgiu o termo "deu na bola"? E o "deu bola"? Aí já entra a questão do machismo e então voltemos ao ceticismo e a economia de fala masculina e sua repercussão na mulher. Homem que fala, fala de verdade, é tão raro que deveria ser "imorrível". Se bem que como cética eu não acredito nem em imortais que dirá em imorríveis. Mas fico com a "imorrível" que pelo menos é uma palavrinha bonita para uma poeta e então fica essa mesma.

Dia destes, vou ter um mal passamento como diria a minha avó (o único ser imorrível que eu conheço) e vou escrever uma lenda, lugar perfeito para as metáforas de quem tem palavras saindo pelo ladrão. Até já escolhi o título "a fala no país da torturice". As mulheres devem saber do que eu digo. O Chico César canta uma música que diz assim: "... já fui mulher, eu sei, já fui mulher, eu sei.." Aí está um homem com H e todas as demais letras maiúsculas. Que ele não me ouça, bem! Quanto ao título da lenda, um pouco melhorado e ficará mais para título de tese, o que é aconselhável para uma cética. Pra mim quem tem sexto, sétimo, oitavo.... milésimo sentido, são os poetas.

Pelo visto, devo andar muito mal,
uma mulher cada vez mais cética
e poeta.

(07.03.05)

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