A Garganta da Serpente
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Cheirando a fruta e hortelã
(Cissa de Oliveira)

"... há ocasiões em que é apenas uma questão de instantes;
às vezes o amor apenas exige o tempo necessário para
uma pessoa desconhecida se cruzar no nosso caminho
e olhar-nos e nós lhe devolvermos o olhar e descobrirmos
o sentido mais profundo da paixão".
Enrique Vila-Matas in "A Viagem Vertical", 1999.

Talvez tenha sido a cor quente da camisa, ou o tecido que parecia irradiar para o rosto dele uma fogueira, prestes a acontecer. Talvez tenha sido a dança de alguns dos fios dos cabelos dele, cobrindo e descobrindo os mistérios escondidos entre as sobrancelhas bem desenhadas. Quem sabe, foi o diluído do sol naquela hora da manhã, inclinando-se para melhor acariciar as flores ainda úmidas, ali pelos arredores.

Como se o compasso das engrenagens do mundo, há muito acertadas, se desgovernassem - não sei bem como foi - mas juro - alguma coisa mudou, quando, por razões que jamais saberei, vindo em minha direção, ele diminuiu a velocidade dos passos. A meio segundo de passar por ele, eu quis ser a língua de vento que brincava no colarinho daquela camisa, e colar, mais rente do que purpurina, entre os pelos que adivinhei naquele peito. Os olhos dele, medrosos do toque que ansiavam, banharam-me de espantosa ternura.

Não sei ao certo como foi. Sei é da predestinação de já não ser apenas eu. Sei é de nos apaixonarmos, irremediavelmente, a meio segundo de passarmos um pelo outro. Seus olhos diziam-me daquele tipo de paixão cheirando a suco de fruta madura e hortelã, e os meus, dos sonhos recém lembrados de serem sonhados.

Com o silêncio possível aos riachos quando se encontram, gritamos: te amo! E prosseguimos, misturados por aquela pontinha de olhar, donos plenos e irrestritos da luz que só esquenta o peito dos amantes na penumbra do quarto, depois do amor.

"Guardei o teu olhar, eu guardei,
como guardadas nas flores dos vasos,
nos canteiros e na maciez de talco das areias,
ficam as luminosidades das manhãs ensolaradas"

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