A Garganta da Serpente
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Cíntia Rosângela fale com o autor

Alma bandida
(Cíntia Rosângela)

Alma bandida e errante vaga pelas eternas madrugadas lado a lado com os cordões das calçadas umedecidas pelas lágrimas das estrelas. Sempre incompreendida, luto permanente, olhar transbordante, que emoldura a face transfigurada pela desilusão em noites de olhos arregalados a saltitar na escuridão. Sem falar no corpo que arde febril e imobilizado pelos soluços presos na garganta. Tento fugir, mas ela me persegue, me encontra, cerca e me toma em seus braços. A tristeza carece de minha alma e a domina, sufoca, suga meu ar, minha vontade de continuar. Me despe diante da covardia, despreza-me, e me apunhala pelas costas. Tira-me do caminho da esperança e faz do meu desejo um labirinto. A lua chega, fiscaliza sorrateira e reflete falsas ilusões, um brilho perdido, um sorriso sem alma de uma boca de sal e me ensurdece com palavras um dia sussurradas ao ouvido e hoje soltas pelo vento. Deixo escapar um suspiro longo e profundo que parece partir meu peito, além de um olhar vazio e úmido, espelho da minha vida. Mais uma vez acredito que é possível e abro um pálido sorriso dos sempre descontentes, de uma alma doente, condenada e apaixonada. Meus ombros doloridos e arqueados não suportam tanta dor e de repente me vejo de joelhos, soluçante e trêmula como uma folha seca vagando entre o bueiro e a beira da estrada. Em segredo confesso querer arrancar de mim esta alma de poeta. Não suporto tal condenação, mas ser bandido, vagar pelas sombras, perder-se completamente por quase nada e estar incondicionalmente preso há algum coração sempre me pareceu fascinante e essencial como ar. Nunca entendi os limites, os portões fechados, as chaves, os chinelos sem par, a falta da sua mão na minha, meu olhar que não encontra pouso e a agonia. Nunca entendi testas sempre enrugadas com profundas marcas de expressão transformadas em desolação, assim como não entendo a cadeira que insiste em estar sempre vaga ao meu lado, o brinde solitário e os meus jasmins que não brotam flores. Não há mais perfumes, o paladar se foi com o último beijo, o coração quase pára em meio há tanto silêncio e os dedos não se entrelaçam mais. Alma bandida, poesia que prende e me liberta, o fastio, as noites em claro, nó na garganta, a cantiga dos sapos, cheiro de chuva no meio da tarde quente, enquanto aguardo, ansiosa, pela chegada do inverno. Escuto mais uma vez a mesma música, mas não ouço mais a tua voz. A melancólica melodia da chuva me inquieta e desejo um abraço forte do vento, preciso ir lá para fora... Percebo que esta folha já não está mais em branco, decido virar a página, há um capítulo novo esperando para ser escrito, quem sabe com rimas um pouco mais alegres e palavras menos doloridas.

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Alma bandida

 

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