A Garganta da Serpente
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O Casulo e a Borboleta
(Cíntia M. Melo)

Durante nossa existência, tecemos teias, formando casulos, seja por vontade própria, ou por condicionamento. Sentimo-nos protegidos, seguros, mas, vez por outra, o emaranhado de fios ao nosso redor sufoca e desespera. É a borboleta que quer voar. Sentimos um desejo enorme de transformação e queremos libertá-la.

É preciso que chegue um dia de catarse para romper o casulo, sagrar-se com espadas, com incisivas ações de um guerreiro. Depois é só alçar os ares, sentir o vento cálido da liberdade acariciar a face, mergulhar no desconhecido e contemplar o perigo.

Porém o medo é perturbante. O que a aventura pelos ares pode nos trazer é um pensamento perseguidor, pois queremos saber o que vem depois do abismo. Muitos querem desesperadamente ser borboletas, sentir a adrenalina produzida pelos riscos iminentes.

Contudo, a borboleta vive regida pelas leis da natureza, submetida aos imprevistos e surpresas dos ciclos de vida e morte, de chuva e sol, da caça e do caçador. Nem todos saem ilesos. Muitos perdem suas asas, outros nem sobrevivem. Porém, para o vitorioso, logo que os ares e a liberdade tornarem-se uma rotina, a sua borboleta buscará um lugar para pousar e, com certeza, para tecer um novo casulo.

Essa metáfora faz perceber que cada um de nós já ficou em dúvida entre a segurança e a liberdade. É uma grande incerteza humana: ser o casulo ou a borboleta? Ficar em terra firme ou viver no intempestivo mar dos desejos? Ser a suave razão ou ouvir o desatino do coração? Ambas as opções são excitantes, cada uma por seus ricos atributos.

O mais sensato é ser casulo e borboleta. Entretanto para viver de maneira biforme é preciso equilíbrio. Pois para se lançar ao abismo e ser a borboleta é necessário responsabilidade, ter uma base forte na realidade, conhecer as limitações pessoais e reconhecer até aonde dá para voar.

Por outro lado, não se pode viver com medo da liberdade, esquivando-se do que vem após o pôr-do-sol, sem usufruir o que a infinita escuridão tem a nos ofertar. Nem fechar-se eternamente em casulos encastelados, protegido das ações externas e incapaz de sair de suas imediações, somente por segurança. Isso é fingir estar vivo.

Contudo, viver o casulo e a borboleta ambiguamente não é tarefa fácil. Faz parte dos desafios do labirinto da vida aonde fomos deixados. É saber o momento de forjar as armas e de recolhê-las para aguardar outra ocasião oportuna, é reconhecer quando exatamente deve ser a transmutação entre um ser encapsulado e o outro libertário.

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