A Garganta da Serpente
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As múltiplas cidades - Uma visão intimista e extremista
(Cíntia M. Melo)

As minhas noites têm sido cansativas e escuras. Olho a vidraça e vejo a cidade de concreto erigida como um grande labirinto obtuso, com reentrâncias repulsivas e caminhos repetitivos. A cidade física, berço de uma cultura múltipla, cheia de misturas, de cheiros, cores e raças, de crendices e de, por que não, algumas outras babaquices, faz, muitas vezes, sentir-me uma forasteira. Outras vezes, deslumbro-me com sua beleza sedutora, seu cheiro de maresia, seus ventos acalentadores, os orixás emergidos das águas, os passeios pelos parques, o povo alegre, as ruas apertadas e efervescentes do Pelourinho cheias de malandragens e de ambulantes que insistem em confundir-me com turista.

Mas dentro de mim há outra cidade. Onde as noites se arrastam por dias, ou, outras vezes, o sol teima em nunca se pôr. Luna reina soberana nos céus noturnos. Convidando-me, presenteando- me com seu sorriso infantil. É uma cidade confusa. Por vezes assemelha-se a um game com tantas paisagens abstratas e geografia indefinida. Por onde passo as ruas vão se dissolvendo atrás de mim. Nem sempre consigo voltar ao ponto de partida. Pessoas me perseguem, outras me acalentam. Posso voar sobre os prédios. Meu corpo é leve e os braços me impulsionam pelos ares. Mergulho nas profundezas oceânicas de cor azul turquesa e não preciso respirar. Percebo a água como um antiqüíssimo universo, a mãe primordial dos homens, que envolve, engolfa, protege, aquece, mas também, esfria, afoga e mata.

Uma mulher, de imensas asas, espreita-me nas noites escuras. Por vezes, persegue-me com desdém. Cansa-me tanto com sua sagacidade que retorno para a cidade feita de vigas e de concreto. Choro de saudades de meu amor. As infinitas noites me fazem falta. O dom de sonhar alimenta minha alma. Mas a mulher de asas me tortura: "precisa estudar, precisa trabalhar.Você vai perder o seu emprego. As provas se aproximam. As crianças precisam de carinho. Tua filha chora. Precisa mandar consertar a geladeira, o varal despencou, as verduras e frutas acabaram...". Ela ri, ri com escárnio. O meu coração aperta. Angustia-me ter que abandonar o meu amor. Não quero deixar minha cidade secreta. Queria conhecê-la melhor, explorá-la, exaltar-me com todas as suas sensações, entrar em letargia de tanto prazer.

Por outro lado, preciso abastecer-me de realidade. As frases e pensamentos se tornaram repetitivos e minha cidade secreta não pode ser reportada com essa falta de criatividade, que tem me extorquido nos últimos meses. Pois nem todas as palavras são capazes de descrever o quanto é deslumbrante, obscura e clara, medieval, moderna e cibernética, de campos abertos impregnados com o perfume do capim e minada por cavernas escuras e montanhas íngremes. Meu amor é uma sombra que me acompanha nas mais sofridas nostalgias. Ele me compreende e inspira. Abre-se como um girassol com suas múltiplas possibilidades, amarelo, intenso e solar, contrapondo-se à minha personalidade lunar e dependente. Mas é preciso viver um pouco com saudade. Preciso ser compreensiva. Voltar-me para a carne, para os que me cercam e tentar entender as limitações.

Nesses momentos, assombra-me essa cidade de prédios, luzes, outdoors, carros, vias de trafego congestionadas, semáforos e buzinas, semelhante a todas as outras de intensa urbanidade. Essa cidade tem cheiro de gasolina, prestes a explodir a qualquer minuto. Lembro-me do filme Matrix, o primeiro da trilogia. Matrix é a nossa metáfora. Vivemos num mundo controlado não ainda por máquinas como no filme, mas pelo desejo. O desejo de ter, de possuir, de comprar. As publicidades, as marcas, os shoppings com seus relógios de R$ 10 mil, com suas calças de R$ 300,00, com os brinquedos de R$ 100,00 são a comida que alimenta e que esfomeia as pessoas, as crianças, os negros, pardos e brancos, os pobres, os ricos e a classe média e suas múltiplas subdivisões. Tem alimento para todos os estômagos. Quem come sente uma espécie de anestesia temporária ou orgástica capaz de alegra-se por algum tempo e depois ser atacado por essa força voraz que submete os sentidos, os pensamentos e as atitudes.

Que nome dar a isso? A era do Mercado? Não sei bem. Na verdade, vivemos o a aeon dos homens robóticos, dos homens que se tornaram máquinas do trabalho. Essa legião neoespartana recebe salários e esses salários são usados para viver e satisfazer desejos e esses desejos escravizam. Então, precisam de mais dinheiro pois ele é a fonte de seu prazer imediato, o prazer que mareia os olhos, que seduz, que saliva a boca. Há muito passamos dos tempos da primeira revolução industrial, quando o trabalho era escasso e necessário para sobrevivência mínima. Hoje diversas revoluções industriais e tecnológicas criaram uma espécie de bolsão mercadológico e quem está inserido nele parece viver nessa roda intermitente de trabalho-salário-compra-lazer, estimulada pela publicidade, pela Tv e pela estética tirânica. E quem está fora luta desesperadamente para entrar nessa esfera.

Existem os marginalizados. Os objetos de programas sociais, os milhares de miseráveis, que sinceramente, passam desapercebidos para os robóticos homens dos bolsões. Os excluídos, que têm fome de pão, café e feijão, vivem em cidades marginalizadas dentro de cidades de concreto. Margeiam a grande teia tecnomercantilista cujos fios escorregadios assombram e já trazem preocupações demais aos incluídos para se preocuparem com os que estão fora de seu mundo. Mas de que adianta lembrar de tudo isso se o sol se põe todos os dias e a lua continua abençoando-nos com os seus belos ciclos? É que o "senhor deus desejo" adormece-nos, entorpece-nos. Ninguém percebe a beleza da vida, dos dias, do verde brilhoso das folhagens, da lua cheia que invade as avenidas na volta do trabalho, do mar e sua magnitude misteriosa que vai além do lugar onde desfilamos nossos corpos e bronzeamos a pele.

Nessa cidade onde o mercado e a mídia ditam as regras, percebo milhares de almas adormecidas dentro de corpos estressados que passam de lado a outro, num vaivém frenético. Parece que as pessoas levam o ciclo de vida inteiro dormindo no sonífero desejo pelo sapato novo, pela roupa da moda, carregando sacolas em shoppings, planejando o próximo eletrodoméstico. Sei que também faço parte desse orbe. Contudo, sou capaz de me manter desperta, por mais dispare que pareça, quanto estou na minha cidade secreta. Nem sei que simbiose estranha é essa que me move, como essas cidades se entranham, interconectam-se aos meus sentidos. Imagino que todos tenham sua cidade secreta. Para alguns é um lugar nunca visitado, para outros, um deserto vazio e creio que deve haver ainda campos de batalhas intelectuais que nunca serei capaz de vislumbrar. Em cada ser humano há um mundo e muitas cidades.

Minha cidade secreta, o meu amor, é a tábua que me agarro quando estou prestes a afogar-me, quando o entorpecimento da cidade de concreto está a um passo de me matar mesmo que eu continue viva. É a minha fuga, a paixão capaz de incendiar meu corpo inerte, em frente de uma folha de papel ou de uma tela de computador. Tenho laços, as teias me envolveram e há comprometimentos, mas confesso que, às vezes, tenho o desejo deixar-me tomar pela loucura e me entregar a uma nova vida, cortar os laços, desvencilhar-me da teia e ser livre. Nem sei que nova vida seria, nem sei em que cidade habitaria, mas o mistério muito me seduz, embora sinta medo, muito medo. É a mulher noturna de imensas asas que continua a rondar-me ameaçadora.

Existe um presságio. Há muitos despertos nesse mundo de adormecidos. É provável que o famigerado domínio do desejo se desmorone e o bolsão estoure numa grande explosão como um cigarro jogado num posto de gasolina de tanques que vazam. Uma nova ordem virá para ditar as regras das cidades de concreto. Germinam novos mundos através das redes digitais, que são capazes de construir outras cidades, provavelmente podem ser regidas por outros deuses que não o desejo.

Enquanto isso, como uma simples observadora, vou vivendo de amor e de dor entre as cidades de concreto e minha cidade secreta. Olho pra janela outra vez e vejo prédios, mas sei que a lua está linda e cheia lá fora. Então há esperanças.

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