A Garganta da Serpente
ajuda
 
 
  versão para impressãorecomende esta página
Cíntia Melo saiba mais sobre o autor

Memórias de uma Casa<
(Cíntia M. Melo)

Quando eu era criança, ia passar fim de semana e férias no Corujão. A casa era simples e rústica, de três quartos, com a cumeeira atravessando a sala. Portas e janelas de madeira tosca pintadas de azul celeste, piso de cimento vermelho, fogão a lenha e banheiro de louça branca. Na sala havia um conjunto de sofás de napa vermelha e uma escrivaninha, onde meu pai, o "Seu Jomelo" (como era chamado, numa abreviatura de seu nome: João Melo), guardava suas contabilidades e livros.

Recordo que via um livro de capa branca, com letras serifadas pretas e um homem robusto, de óculos escuros e boina militar, era sobre a vida do General MacArthur (o caçador de comunistas pós-guerra), e o volume de E o Vento Levou (nesse, minha mente infantil ficava imaginando como alguém conseguia ler um livro tão grosso), entre outros sobre agricultura e plantações, frasquinhos de sementes e vários Almanaques do Pensamento, inclusive edições antigas, datadas dos anos 40. Meu pai consultava o Almanaque para ver se coincidiam as previsões do tempo e por eles, falava-me de eclipses solares e lunares, enchendo meu coraçãozinho de sobressalto.

No quarto de meus pais tinha uma cama de casal e outra de solteiro, onde eu dormia, uma penteadeira com três espelhos, um maior no centro e dois outros menores que eram moveis. Em cima, entre outros badulaques, uma imagem de Padre Cícero. Havia uma varanda com alpendre alto, com bancos e três colunas de madeira igualmente azuis como as portas e janelas, onde pendurávamos duas redes, uma branca onde meu pai e minha mãe deitavam, e a outra marrom de frisos vermelhos, que eu usava. Em frente às colunas, entre a passagem, dois jardins, um pra cada lado, delimitados por tijolos em pé e com pedrinhas brancas e pontiagudas fazendo o acabamento sob o cimento. Recordo-me das roseiras, eram muitas, nos matizes rosa, branco e vermelho. Mas havia também flores, entre elas, boca-de-leão, cravos de defunto amarelos de diversos tons, chapéus de couro, margaridas e gérberas de várias cores.

Uma das laterais da casa também era tomada por jardins, na outra existia uma garagem aberta com prateleiras com todo tipo de ferramentas e utensílios que se precisasse. Alguns metros a frente da varanda, estava a pequena ribanceira, onde eu brincava de escorregar sob o mato (o que sempre deixava minha roupa suja de terra e com alguns arranhões nas pernas e braços) e abaixo passava um riacho que cortava toda a fazenda. Lembro que tomava banho lá, pescava piabas nos balaios de apanhar café, e banhava meus brinquedos e bonecas, criando estórias, fantasiando a vida, parodiando a realidade. Mas do que eu mais gostava, era de ouvir o som das águas em torvelinhos, uma musicalidade silenciosa que me acalmava e parecia me fazer levitar, embora na época eu nem soubesse o que era isso.

179 visitas desde 9/09/2006

   
 

As dores do mundo

O Casulo e a Borboleta

As múltiplas cidades

Memórias de uma Casa

O Corujão

 

Copyright © 1999-2008 A Garganta da Serpente
Direitos reservados aos autores  •  Termos e condições  •  Fale Conosco www.gargantadaserpente.com