| Cíntia Melo |
  |
O Corujão
(Cíntia M. Melo)
A manhã sempre era fria e a estrada empoeirada. O conhecido caminho
aos poucos era vencido, o que me deixava muito feliz. Surgia a sinuosa e declinada
ladeira de cascalho vermelho que era descida com segurança pela habilidade
do meu pai no volante. Passávamos pelo mata-burro, um portal para o mundo
meu cheio de ilusões e esperanças. A direita via-se uma pequena
larga e outra estrada, ou melhor, outra grande ladeira que subia a serra e ia
dar na parte superior da fazenda, onde ficavam os cafezais.
Mas nós seguíamos reto, à esquerda pés de cafés
velhos, a maior parte morta, com seus caules cinzas, secos e retorcidos, à
direita cercas que delimitavam extensos pastos nas baixadas. Em seguida surgiam
as quatro casas geminadas, moradia de algumas famílias. Passávamos
por mais um mata-burro e eu avistava o galpão de janelas azul marinho,
a chaminé da fornalha do secador e o terreiro de cimento numa depressão.
Íamos fazendo uma curva. A direita havia o lavador de café, com
suas raias de cimento, onde eu adorava tomar banho, em época de entressafra,
e acabava saindo com belos aranhões, mas nunca me importava. Em seguida,
um pequeno declive e atravessávamos uma ponte feita de tronco e barro
sob um riacho. Subíamos. E lá estavam a casa, os pés de
eucalipto e de carambolas, à esquerda, outro galpão aberto que
abrigava tratores, implementos e dois caminhões. Acima o flanco da serra
tomado de baquearia, que de tão extenso não dava para ver os cafezais
que ficavam no altiplano. Na base, um barranco abrigava o tanque d´água
e pés de limoeiro, urucuzeiro, limeira e de serigüela.
A Laranjeira era um dos meus lugares prediletos. Um pomar que ficava a esquerda
da ponte. Lá tinha todo tipo de fruta da região: laranjeiras de
várias espécies, carambolas, goiabeiras, coqueiros, abacateiros,
cajueiros, ingazeiros, jaqueiras, bananeiras, tangerineiras, pés de serigüela,
mamão, cacau e, numa certa época, até uma videira, cuidadosamente
zelada pelo meu pai, que dava umas uvas pequenininhas e azedas, embora fosse
seu orgulho estar produzindo uva naquela região de terreno vermelho e
de feto.
Recordo-me das folhas marrons e secas estalando sob meus pés que pisavam
cautelosamente o terreno da Laranjeira com receio de esbarrar em algum animal
peçonhento, uma cobra, uma caranguejeira ou escorpião. Minha mente
sempre ficava arquitetando que atitude eu tomaria caso me deparasse com um animal
venenoso daqueles, já que era sistematicamente lembrada e, de certa forma,
atormentada, dos males que uma picada poderia me trazer: "Não temos
vacinas contra mordida de cobra aqui!" ou "dói muito e sua
perna vai ficar enorme, não conseguirá andar!" ou ainda "você
pode morrer".
Na Laranjeira havia uma nascente de água pura e cristalina que era a
água potável que usávamos. Exames feitos atestaram a qualidade
da água. Camburões sempre eram deixados lá para acondicionar
a água que brotava como um fio fino por entre as pedras. Algumas pessoas
que conheciam dessa nascente, quando estavam doentes, pediam para meus pais
um pouco da água do Corujão. Diziam que curava até úlcera.
Não sei se chegou a realizar tamanha proeza, mas até hoje é
fria, límpida e leve.
Havia uma estrada pelo lado de fora da Laranjeira, passando pelo galpão
aberto. Seguindo-a, passávamos por mais uma casa de família, onde
morava Seo Osvaldo e suas sete filhas, a mais velha, Hilda, era muito minha
amiga e brincávamos demais juntas (hoje ele e sua família estão
em São Paulo). Mais estrada de um barro vermelho escuro bem intenso e
depois vinha à represa. Quando eu era bem pequena, iam muitas pessoas
da cidade para tomar banho lá. Mas minha maior recordação,
eu já maiorzinha, era quando meu pai punha duas varas de pescar no fundo
de seu jipe e me levava pra lá para horas de pescaria quando pegávamos
algumas piabinhas embora ele alimentasse a fantasia de pegar uma grande traíra
comigo, eu ficava super atenta na espera do grande peixe que nunca aparecia.
Nomes
O nome da Fazenda era Gama, mas todo mundo chamava de Corujão. Ficava
num terreno acidentado, cercado de serras, capoeiras e alguns brejos, a mais
ou menos setecentos metros acima do nível do mar, nos pontos mais altos.
Fazia um frio tremendo no inverno, chovia e ventava muito. O terreno era de
Mata Atlântica com uma variedade vegetal bem grande. Lá se cultivava
café na maior parte das serras que rodeavam a sede Fazenda como se fosse
uma meia lua verde e aberta para o infinito céu. Criavam-se bois também.
No outro lado da casa tinha um curral que dava para os pastos. O cheiro de
esterco era forte e eu gostava muito no final da tarde, quando se prendiam algumas
vacas e os bezerros de ficar olhando esse trabalho. Maiorzinha subia nos mourões
e ficava sentada observando os animais. Como não eram muitos, meu pai
chamava-os pelos nomes e criava uma relação de afeto com eles.
Ele me ensinava a dar capim na boca das vacas mais mansas e eu ficava bestificada
com aquela língua cinza escuro enroscar no capim da minha mão
e puxar com força. Recordo que era um ritual a escolha do nome dos bezerros
que nasciam no Corujão, meu pai sempre me consultava para eu dar uma
sugestão e quando ela era aceita, eu ficava feliz da vida de ver aquele
animal sendo chamado com o nome que eu havia escolhido.
231 visitas desde 3/09/2006
|