Os soldados, os paisanos e o general
(Carlos Bruni)
(A cada milágrimas, um milagre acontece) - Alice Ruiz
Ela tem apenas treze anos. Analfabeta, órfã de pai e mãe,
foi adotada pelo mundo, na pior acepção que se pode dar a esse termo.
Não obstante, quer se tornar evangélica e sonha em se formar médica.
Não tem a noção exata da dimensão que separa seu sonho
de uma realidade perdida quase no infinito.
Seu mundo é a favela. Seus companheiros de armas, no sentido literal, são
soldados numa luta insana contra a decência, ou o que ainda resta dela.
São os portadores da morte, traficantes de drogas, aqueles que não
hesitam em matar numa guerra onde, como em qualquer outra, os mais indefesos pagam
preços altíssimos.
Ela, a menina, ajudou com um simples sinal para a parada de um ônibus, seus
companheiros de trincheira a incendiá-lo e queimar vivas várias
pessoas, numa rua esquecida de um também esquecido subúrbio de um
Rio de Janeiro ainda mais esquecido.
Os soldados, como se auto-denominam, são agressores-vítimas. Não
estamos, entendam, fazendo apologia das condições sub-humanas a
que esses seres foram lenta e gradativamente empurrados, graças à
inépcia de seguidos governos, tão indecentes quanto eles.
Nos dias de hoje, esses soldados rasos respondem a outros, que por sua vez, devem
obediência a tenentes e capitães-do-mato e dos palácios, obediência
indiscutível sob pena de serem exterminados. E substituídos.
Muito junto a eles e, de certa forma, num nível ainda mais inferior, estão
os paisanos, aquelas pessoas que, indefesas e cercadas tanto por forças
ditas do bem como aquelas do mal, maléficas por igual, pois em vários
aspectos se equivalem, e sofrendo com a insanidade consciente dos soldados de
ambos os lados ou com a inconsciente da menina que quer ser médica.
Felizmente, ainda não alcançada pela sujeira dessa guerra, há
a figura de outro tipo de general: Ivaldo Bertazzo, que livrou das ruas garotos
e garotas prontos a serem cooptados pelas facções em luta (mesmo
com o risco de serem justiçados pelas forças do "bem")
e colocou-os em uma nova trincheira: o palco. No espetáculo, "Milágrimas",
atualmente em cartaz, seus soldados guerreiam pela paz. Não há como
não se emocionar ao nos depararmos com a arte magistralmente rústica,
enquanto quase-amadores, de jovens que foram virtualmente arrancados das portas
de uma guerra que ameaçava arrebatá-los, para nos presentear com
imagens gestuais de poesia musicada.
Como já acontecera em Sanwaad, rua do encontro, esses adolescentes
nos cobrem de esperança ao mostrarem que basta um dedo apontando para o
futuro, para que uma provável página de guerra não venha
a ser escrita.
"O sol há de brilhar mais uma vez" ...
Essa frase, no final antológico do espetáculo, com a obra-prima
de Nelson Cavaquinho ecoando por toda a sala e dentro de nós mesmos, nos
lembra que algumas batalhas, nunca a guerra, podem ter sido perdidas, e a menina
que sonha ser médica poderá, enfim, colher seu milagre.
("Milágrimas" voltará ao cartaz em 2006, até
março, no SESC Pinheiros. Não percam!)
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Publicado em: 12/01/2006 |
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