A Garganta da Serpente
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Acabei de me levantar
(Cassiana Lisboa)

Acabei de me levantar. tomei algumas decisões. falei algumas coisas comigo mesma. tento manter esse pequeno diálogo já que não encontro alguém que me entenda. trabalhei um pouco. alguns emails chegaram. o telefone quase não toucou. algumas frases continuam aqui. discriminadas elas continuam a discutir, discutir, discutir. e não páram nunca. jamais. eu continuo ocupando algum espaço. falando ao telefone. estou vendo pessoas caminharem. na paulicéia desvairada um pequeno sinal aberto pode ser um lampejo de luz. algumas pessoas se encontram demasiadamente ocupadas. eu queria estar demasiadamente ocupada. com o pensamento inteiro ocupado. queria poder estar de tênis correndo naquela rua arborizada. ou não. ou não porque o silêncio me levaria a pensar nisto novamente. quantas vezes vou ter que pensar? se é que pensar resolve alguma coisa. um milhão de palavras querendo sair. uma verdadeira guerra atroz que ninguém assiste, que ninguém percebe. só eu. aqui. sem coletes salva-vidas nem antibalas. sem proteções. só eu tentando achar uma certa estratégia dentro dessa perdição. parei um pouco, enquanto escrevo o texto que você lê. uma pausa parecida com um ponto e vírgula. espero que você tenha tomado fôlego comigo. inutilmente eu vou matando alguns sentimentos bonitos dentro de mim. hoje sou só sentimentos vazios. sou um cão sem dono. sou um rei sem trono. sou a linha perdida de algum carretel. inutilmente hoje estou sentada na beira da estrada. esperando o que? o nada.

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Acabei de me levantar

Eu bem tentaria te explicar, mas não posso

 

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