| Cármen Rocha |
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São paulo, cidade minha
(Cármen Rocha)
(in Ao Redor da Mesa)
São Paulo, amada por seus filhos nestes 450 anos! Dedico o meu amor
à essa terra da garoa, pois entre outras, reconheço suas noites
mágicas.
Aqui, no centro da cidade, ao sair do Teatro Municipal, mergulho na multidão
apressada.
Dos pingos miúdos à tempestade e vice-versa, numa luminosidade
de prata, como minha alma, que vaga ora descuidada, ora ansiosa...
Entro pela Barão. Ainda, com o coração embalado pelos clássicos,
enfio-me pelo Rubaiyat para fugir à essa chuvinha e saborear a carne
tenra e o vinho envelhecido. Deliciada aguardo. Amaina a chuva e, rua! Saio
novamente para a noite paulistana.
Os luminosos piscam, e perdem a transparência, escondidos pelas gotas
teimosas desta noite fantástica.
O trânsito inquieto como as pessoas, traz a melodia e o barulho das máquinas-carros
assim como as buzinas intermitentes, onde se misturam: as pessoas que passam,
os sentimentos, as dores, seu sonhos resolvidos ou já esquecidos, seu
desesperos, suas almas, enfim. Esse vai-e-vem, essa busca pelo não sei
quê.
No asfalto úmido se espelha as silhuetas dos passantes, neste transpassar
de almas que se integram às placas de ruas, aos vendedores, aos vasos
e prédios de antiga arquitetura. O friozinho do início da noite
cresce, penetra fundo e nos faz pedir o café amigo. Entro no bar do caminho
e sento-me para procurar os arranha-céus-reflexos no chão molhado
desse Centro já escurecido, e o vai-e-vem das pessoas que passam apressadas
na disputa, no final do dia, da condução mais próxima,
para o regresso a casa.
São Paulo tem pressa, não importa a hora.
À mesa do bar pego rapidamente o retalho de papel, descuido de fundo
de bolsa. O poema sai naturalmente... São Paulo, eu te quero tanto...
que por ti lutarei... com a arma maior... da minha consciência insultada...
pelas coisas aqui acontecidas... nestes trinta anos...
Tomo meu café, e meus olhos percebem na esquina, o hotel modesto. Foi
nele que meu amigo Belfort, anos atrás, vindo não se sabe de onde,
depois de muitas andanças e migrações, Minas, Rio, Paraná,
hospedou seu cansaço. Pela manhã, levanta-se, abre as janelas,
e lá do alto, espia o bulício do povo e sente o burburinho humano
da cidade nervosa. Escancara a janela, emociona-se e exclama:
- És tu, São Paulo, tudo o que eu procurava! Anos mais tarde,
gerente do Banco do Brasil, após muita luta... E aqui, em São
Paulo integrou-se, foi absorvido como muitos outros, viveu e amou.
Assim é minha terra, a minha São Paulo.
É de madrugada. Sinto-me cansada, espírito e corpo saturados e
ao mesmo tempo renovados... Como todos os poetas recolho-me ao sonho.
2001 - S.P.
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