| Carlos Vilarinho |
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A isenção fiscal deturpada
(Carlos Vilarinho)
De acordo com o belo e coerente texto do jornalista Lucas Pacheco, publicado
em TENDÊNCIAS/DEBATES da FOLHA DE SÃO PAULO de quarta-feira (04/07/07)
intitulado "FARINHA POUCA MEU PIRÃO PRIMEIRO" venho aqui fazer
coro em uníssono conclamar a classe artística e todos que possuam
em seu cerne a crítica da razão pura, sem ser necessariamente
Kantiano, a vigiar a mistificação, o engodo e a má fé
evangélica. Essas últimas palavras muito bem colocadas pelo senhor
Lucas Pacheco a respeito da renúncia fiscal e conseqüente beneficiamento
das igrejas evangélicas pela lei Rouanet.
Sou escritor, tive a oportunidade de lançar meu primeiro livro graças
a um projeto do governo estadual, onde fui submetido a um conselho editorial.
Esperei três anos para ter o livro publicado e obter finalmente as honras
de escritor. Como sou homem das letras, nunca me abstive, nem desanimei para
traçar minhas linhas. Aprendi com o poeta Murilo Mendes que literatura
se faz com "sangue, carne e osso de quem escreve". Ouso, no entanto,
a incluir nas palavras e no sábio pensamento do poeta o suor. Sendo assim,
escorre pelas minhas têmporas, corre nas minhas veias, pulsa na minha
carne e o que protege as minhas ações musculares é a literatura.
Tudo isso com minha essência poético-filosófica. Além
de ter certeza de que a Língua portuguesa, mesmo e principalmente com
suas variantes, é o mecanismo mais rico que o brasileiro possui, e por
isso interage-se natural e concomitante à história que o povo
faz, produz, vive e conta todos os dias. É assim que durmo e acordo.
Dormindo sonhando e sonhando acordado escrevo e imagino como seria meu semelhante,
aquele que cobra uma passagem nos transportes coletivos, ou serve minha cerveja
e os petiscos que gosto, ou até reunido com sua equipe de trabalho e,
tirano ou não, cobra mais empenho. Sonhando acordado desde que lancei
meu livro, há dois anos, em 2005, a conseguir com arrojo e obstinação
a minha próxima publicação. Como bem disse Lucas Pacheco
em seu artigo na FOLHA, sou um daqueles que o fazem entristecer passando chapéu
por várias empresas e empresários para conseguir editar meu livro.
Nesse sentido virei expert em lei Rouanet, de tanto estudá-la para conversar
e tentar convencer os empresários de que o que escrevo não é
lixo cultural e que conseqüentemente as pessoas têm que conhecer.
Em dois anos de idas e vindas consegui uma média de cem a duzentos nãos.
Assim como eu, estão espalhados por aí milhares de escritores,
roteiristas, atores. Paulo Autran e Fernanda Montenegro, atores citados no artigo
de Lucas Pacheco, os dois com dezenas, talvez centenas, de serviços prestados
aos mais diferentes pensamentos humanos, certamente estão estupefatos,
assombrados e atônitos, como eu estou, com o desvario e o desatino do
senador Crivela, além de outros substantivos e adjetivos com significados
e conjecturas sombrias que se aplicam notadamente à semântica lingüística,
e esse famigerado projeto de isenção fiscal para igrejas evangélicas.
Não basta o dízimo do povo, ávido por esperança
e fé, eles querem mais. Denota-se esperteza espoliante.
É necessário manchar a maquiagem para que o pacote angelical sucumba
de vez no lodo da fé mal-arranjada.
(04/07/07)
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