A Garganta da Serpente
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O Homem que não tinha ilusão
(Carla Matos)


Ele nunca foi romântico. Era um homem completamente sem ilusão. Ele dizia se sentir assim desde os cinco anos de idade, ocasião em que achou o pai morto. Deprimente. O pobre homem se enforcou usando as cordas do poço. Contou isso a ela depois da quinta cerveja. Foi o modo que encontrou de sufocar o sentimento da moça em relação a ele. Sentimento esse que nunca foi tão grande. Era muito mais uma questão de cordialidade e boa educação do que de fato sentimento. Sua exacerbada preocupação consigo impedia-o de enxergar isso. Ela até se comovia, mas não por muito tempo. Não dava tempo de sentir nada profundo por ele, pois realmente se tratava de um homem sem ilusão, e um homem sem ilusão está morto. Dos mortos nos lembramos e por eles choramos ocasionalmente em situações adversas. Depois passa e a rotina se restabelece. E assim vão-se os dias.

Eles mantiveram essa relação morna por dois ou três anos. Vez ou outra a conversa parava na ex-mulher dele. Lamentável. Tudo foi se tornando cada vez mais enfadonho. Que tipo de homem reclama a ex-mulher para a atual? Ela se cansou. Naquele dia ela voltou para casa decidida a mudar a relação. Uma amizade em consideração aos dois ou três anos juntos estaria de bom tamanho, pensou ela tomando a decisão.

Ele percebeu a escassez dos encontros. Ela passou a se dedicar mais a universidade, sair com os antigos amigos que eles tinham em comum, e algumas vezes até chegaram a sentar-se na mesma mesa na companhia desses. Ele via felicidade no sorriso dela. Ela estava tão viva! Ele nunca havia a observado daquela forma. Agora ele a queria. Voltou a telefonar para ela, e muitas vezes ele passava em sua casa com a intenção de arrancá-la para um passeio e quem sabe uma esticada no bar. Em vão. No fim do ano ela se mudou para longe por causa de uma oportunidade profissional. De vez em quando ela se lembra dele... Mas logo esquece. Pois é assim que acontece com os mortos. São lembrados esporadicamente, na maior parte das vezes em situações adversas. Depois vem outro dia, e outro, e mais um. Logo se restabelece a rotina.

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