A Garganta da Serpente
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Quando o Brasil for descoberto
(Cairbar Garcia Rodrigues)

Ao contrário do que se pensa, ou do que aprendemos desde os primeiros anos de educação escolar, em que pese ainda a teimosia de alguns autores e historiadores ultrapassados (raríssimos), o Brasil, assim como todo o continente americano, jamais foi descoberto. Talvez tenha sido descoberto pelos índios que aqui estavam, quando portugueses, franceses e outros europeus invadiram estas terras, dando início a uma matança impiedosa que culminou com extermínio cruel de vários milhões de nativos.

Mas se os primeiros indígenas não foram criados aqui, por Deus ou pela Natureza, segundo Darwin; se vieram eles de outras terras, o que pode ou não ser verdadeiro, serão eles os descobridores do Brasil e não o tal Cabral e seus patrícios que aqui aportaram no intuito de catequizar, segundo a igreja católica, mas muito mais de enriquecer, segundo os reis portugueses. O pretexto de transformar índios pacíficos e auto-suficientes em cristãos, foi a maior farsa engendrada por um Portugal que já não conseguia mais sustentar os luxos cortesãos e burgueses, ou mesmo feudais.

Diziam que os índios não tinham leis, nem pudor e nenhum conhecimento de Deus. Ora, para que eles precisavam disso se tinham seus deuses, se respeitavam uns aos outros e se viam a nudez como nós vemos uma pessoa vestida de terno ou vestido? Para que eles precisavam das rezas católicas de lhes bastavam as orações e as crenças que aprenderam com as leis da Natureza?

Mas, de Matança, em matança, com extermínios maciços, incêndios, crueldades inomináveis, os "bravos colonizadores", aniquilaram os nativos e criaram este imenso Brasil que, todos sabem, ainda não foi descoberto, que ainda é quase terra de ninguém, onde mais e mais "descobridores" vêm aos bandos, ora para levar nossa madeira, ora para levar nossa lindas jovens nortistas e nordestinas para se prostituírem a preço de ouro em terras estrangeiras, ouro do qual elas mesmo nada recebem e acabam morrendo precocemente, doentes e exauridas, perdidas dos amigos, da família e da juventude.

Este Brasil ainda não foi descoberto. Esta nação maravilhosa foi somente colonizada e explorada, o que ainda continua e que vai continuar até que os verdadeiros brasileiros, mesmo descendendo de estrangeiros, se dignem amar o lugar onde nasceram e onde vivem, não dando tanta vez às elites dominantes, que tem nomes importados e ambições de riquezas a qualquer preço para se manterem tal e qual a coroa portuguesa se manteve por vários séculos, ou com o massacre e alguma escravidão indígena, ou com o vergonhoso e repugnante trabalho escravo de negros, que depois de libertos passaram a ser escravos do sistema, do capital, da discriminação, o que veio a gerar as dezenas de milhares de favelas nos grandes e médios centros urbanos.

Se os português tivessem trazido Portugal inteira para trabalhar em seus engenhos, lavouras de café, fabriquetas, etc. Poderiam ter deixado os negros felizes em seus países de origem, não teriam cometido as atrocidades que cometeram e poderiam muito bem haver deixado os índios em paz, com suas crenças, sua nudez, seus costumes e suas tradições.

Mas deve haver um dia em que o Brasil será descoberto. É um pouco difícil ter esperanças na juventude drogada e deseducada, formada por um lado pela completa exclusão social e por outro pelo poderio das classes média e média-alta, onde imperam duas leis terríveis: nas camadas alijadas do ter, o desejo do consumo a qualquer preço e nas mais altas a facilidade de se conseguir drogas lícitas ou não e o alcance dos bens materiais que sustentam, como num moto-contínuo, a grande desigualdade que impede o nosso verdadeiro descobrimento por nós mesmos e não pelas multinacionais que nos enchem de desejos quase insanos pelo supérfluo.

Claro que eu não mais estarei vivo quando e se o Brasil for descoberto, mas outras gerações estarão.

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