AQUELAS QUE NÃO OLHAM PARA TRÁS
(Caio Antunes)
Não sei se existe algo pior ou mais doloroso do que aquelas mulheres, que quando vão embora, não olham para trás.
Eu já tentei pensar em algo que doesse tanto, mas não consegui me lembrar de nada. Talvez uma desilusão, a traição, a perda; mas acho que qualquer uma delas é mais aceitável (se podemos dizer assim), pois realmente é um rompimento com aquela que amamos.
Mas quando falamos de "olhar para trás" não estamos falando do olhar para trás na despedida do nunca mais, do adeus certo, mas naquela despedida que irá durar apenas até a noite ou até o dia seguinte. Nós não perdemos o ser amado, muito antes pelo contrário, sabemos que temos seu amor, que temos seu afeto e carinho; mas então porque um simples olhar que é deixado de lado quando dizemos "até logo" pode nos afetar tanto?
Se existe uma explicação, desconheço. Estou limitado a pensar apenas que este lapso de despedida serve para angustiar alguns homens e deixar outros com a permanente dúvida: "será que ela realmente gosta de mim? Sim, pois se foi embora sem ao menos me dar um olhar de despedida, para se certificar que estou realmente bem, ( já imaginou ela virar as costas e eu ser assaltado ou pior, atingido por uma bala perdida?) então será que se importa comigo?"
Parece que muitos homens nunca perceberam, ou nunca se deram conta mesmo, deste pequeno detalhe em seus relacionamentos. Alguns devem estar se perguntando agora quantas vezes ficaram parados, olhando suas amadas desaparecerem na multidão, e receberam de volta um cálido olhar que dizia apenas "a gente se vê de novo daqui a pouco"!
Eu admito que sou alguém que pára e olha para trás. Já se tornou parte de minha personalidade esta característica. Será o medo da perda? Talvez a gente não queira que as despedidas aconteçam, que se tornem um "até nunca mais!"
Muitas despedidas sem retorno já foram feitas assim, apenas os olhares se encontrando de longe, sem palavras, apenas sorrisos parciais e tristezas visíveis.
Lembro de uma vez que estava na rodoviária esperando um amigo, e um casal próximo a mim chamou minha atenção. Ambos juntos conversavam sobre a viagem que, me parecia, ela ia fazer. Ela, uma menina um pouco magra e de cabelos castanhos e olhos vivos da mesma cor, dizia para ele que se falariam depois, quando ela chegasse a seu destino e que tudo seria resolvido. Ele, resignado parecia, apenas ouvia. Trocaram algumas carícias e então o ônibus da viagem, que já estava no box, ligou os motores. Todos que estavam próximos começaram a embarcar.
O jovem casal estava sentado em um dos bancos de madeira que guarneciam toda a orla dos boxes e que serviam de repouso para os passageiros. Ela prontamente se levantou e, olhando de cima, estendeu as mãos e o puxou, que um pouco a contragosto, levantou. Ela o levou consigo até a porta do ônibus, que agora parecia estar apenas esperando-a. Ao contrário do que pensei, não houve uma cena de despedida. Apenas um minúsculo e tímido beijo selou a despedida dos dois e, virando as costas ela subiu as escadas indo direto para seu assento.
O rapaz ficou inicialmente estático, parado perto da porta do ônibus, que se fechava. Se dando conta que tinha que sair dali, começou um agitado movimento que culminou com uma corrida, posso dizer quase, desesperada até a lateral do ônibus, tentando falar ou vê-la outra vez. Não ouve movimento algum nas janelas do ônibus. Ela não apareceu e tive a nítida impressão de ele não conseguiu vê-la. Então o ônibus saiu do box e manobrando, tomou seu rumo na rua que levava para a saída da rodoviária.
O rapaz parou seu movimento agitado. Até então eu não tinha visto nenhuma lágrima sair de seus olhos. Quando percebeu que o ônibus já ia longe e nem um último sinal de despedida recebeu, virou-se e, dando a nítida impressão de que não conseguia mais segurar, desandou a chorar, convulsivamente, deixando rolarem grossas lágrimas que rápido chegavam até seu queixo. Sentou-se no banco próximo a mim e escondeu o rosto entre as mãos.
Naquele momento, tão certo quanto ele, eu sabia que era até nunca mais. Talvez sua tristeza fosse maior por saber que mesmo sendo um olhar de definitiva despedida, nem isso ele recebeu.
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